Taiwan se prepara para o inesperado: aprendizados decisivos do conflito na Ucrânia na defesa da nação — Diante da pressão militar crescente da China, Taiwan busca ampliar sua capacidade de resistência para além das Forças Armadas. A estratégia combina preparação civil, continuidade de serviços essenciais e cooperação internacional, em uma iniciativa que toma a experiência ucraniana como referência, mas ainda enfrenta o desafio de integrar cidadãos e militares em um plano comum.

Preparação civil entra no centro da defesa taiwanesa

O presidente taiwanês, Lai Ching-te, defendeu no fim de setembro uma política de “resiliência por meio da unidade”, com a proposta de aproximar autoridades estrangeiras e organizações não governamentais para preparar respostas a desastres e crises. Para Taiwan, esse planejamento também considera cenários de guerra ou bloqueio impostos por uma potência militar superior, uma referência direta à ameaça representada pela China.

A iniciativa amplia uma campanha doméstica de defesa abrangente, que procura envolver governo, forças armadas, empresas e população civil. A lógica é preparar a sociedade para manter funções básicas mesmo sob pressão prolongada: hospitais em operação, abastecimento de alimentos, comunicação e deslocamento de pessoas. A defesa, nessa visão, não depende apenas da capacidade de combate dos militares, mas também da possibilidade de impedir que uma crise paralise o país.

Em novembro de 2025, o governo distribuiu a cerca de 9,83 milhões de domicílios uma cartilha ilustrada de segurança pública. O guia oferece recomendações sobre reservas de água e alimentos, identificação de abrigos e preparação para emergências. Paralelamente, cidadãos têm organizado bolsas de emergência com itens essenciais e participado de cursos civis de primeiros socorros e defesa comunitária.

“Um possível conflito envolvendo Taiwan não afetaria apenas alvos militares, mas toda a população e a infraestrutura crítica”, afirmou Wen Liu, dirigente da organização civil Kuma, sediada em Taipei. Fundada em 2021, a entidade oferece treinamento em preparação para emergências e conscientização sobre guerra cognitiva. Segundo Liu, a organização alcançou cerca de 100 mil pessoas por meio de centenas de cursos presenciais.

A orientação tem uma finalidade defensiva e dissuasória. Ao demonstrar que uma invasão ou bloqueio poderia encontrar uma população preparada para resistir e serviços capazes de continuar funcionando, Taiwan tenta elevar os custos de uma ação militar. Especialistas, porém, ressaltam que a resistência de uma sociedade menor diante de uma potência superior seria extremamente destrutiva caso a dissuasão falhasse.

Da experiência ucraniana à resiliência nacional

A defesa de toda a sociedade ganhou impulso em Taiwan no período em que a Rússia se preparava para invadir a Ucrânia. Em janeiro de 2022, sob a presidência de Tsai Ing-wen, o Ministério da Defesa criou a Agência de Mobilização de Defesa Total. Dois anos depois, Lai estabeleceu um comitê ligado à Presidência para aproximar governo e sociedade no planejamento da continuidade das atividades durante ataques ou desastres naturais. O grupo se reúne quatro vezes por ano.

A experiência da Ucrânia reforçou a importância de preservar a administração pública, a infraestrutura e o cotidiano da população enquanto as forças armadas conduzem as operações militares. Para o analista político Sean Su, baseado em Taiwan, a defesa social deve permitir que o país continue funcionando enquanto os soldados cumprem suas missões. A ideia é particularmente relevante diante de um possível bloqueio, que não necessariamente terminaria em poucas semanas.

Taiwan já possui experiência em lidar com tufões e terremotos, crises que exigem coordenação pública e resposta rápida. Um conflito, contudo, imporia desafios diferentes: interrupções prolongadas no comércio e no transporte, pressão sobre as cadeias de abastecimento e campanhas de desinformação. A adaptação dos mecanismos de emergência a esse tipo de cenário é uma das questões centrais do planejamento taiwanês.

O modelo também tem paralelos históricos em países que prepararam suas sociedades para enfrentar vizinhos ou adversários mais poderosos. O historiador militar David Silbey cita a preparação da Finlândia diante da União Soviética, as medidas adotadas pela Suíça durante a Segunda Guerra Mundial e a mobilização civil de Singapura em meio a preocupações de segurança regional. Em comum, esses exemplos procuram fortalecer a capacidade de resistência e tornar menos atraente uma agressão.

A comparação com a Ucrânia, no entanto, não significa que Taiwan possa reproduzir exatamente a experiência de outro país. A geografia insular, a dependência de rotas marítimas e a possibilidade de um bloqueio moldam riscos específicos. A preparação precisa considerar tanto ataques diretos quanto a tentativa de isolar a ilha e desgastar sua capacidade de abastecimento e governança.

Imagem de Capa da Notícia

Legenda: Civis observam o transporte de um tanque durante exercício militar em Hualien, Taiwan, em agosto de 2026. | Créditos: An Rong Xu/Bloomberg via Getty Images

Integração militar e pressão chinesa definem os próximos passos

A China reivindica soberania sobre Taiwan, que é autogovernada, e não descartou o uso da força para assumir o controle da ilha. Nos últimos quatro anos, o Exército de Libertação Popular intensificou exercícios militares nas proximidades, inclusive no estreito de aproximadamente 160 quilômetros que separa os dois territórios. Esse quadro sustenta a urgência do planejamento taiwanês, embora não indique, por si só, que uma invasão seja iminente.

Um dos principais obstáculos está em sincronizar as iniciativas civis com a estrutura militar. O pesquisador Brian Hioe observa que o número de grupos de defesa civil vem aumentando, sinal de maior mobilização na base da sociedade. Ainda assim, segundo ele, as Forças Armadas não incorporaram plenamente essas organizações ao planejamento e tendem a considerar a defesa uma responsabilidade principalmente militar.

Esse descompasso pode limitar a efetividade de uma estratégia que depende de coordenação. Treinamentos, canais de comunicação e responsabilidades claras seriam essenciais para evitar que ações comunitárias entrem em conflito com operações militares ou com a gestão de emergências. A questão não é transformar a população em substituta de soldados, mas definir como civis e instituições podem apoiar a continuidade do país sem comprometer as operações de defesa.

Também há sinais de que a mobilização pública não se traduz automaticamente em participação constante. A ex-parlamentar Joanna Lei afirmou que a atividade civil perdeu intensidade após a distribuição das cartilhas. Sem alarmismo, muitos taiwaneses seguem suas rotinas normalmente. Para as autoridades, o desafio é consolidar hábitos de preparação sem alimentar pânico ou criar a impressão de que um conflito é inevitável.

O esforço interno pode ter reflexos diplomáticos, mas analistas avaliam que dificilmente será decisivo para a política de Washington. Taiwan aguarda a aprovação de um pacote de armamentos dos Estados Unidos estimado em US$ 14 bilhões. A China se opõe às vendas, enquanto o presidente Donald Trump busca acordos com o líder chinês Xi Jinping. Nesse contexto, a decisão americana pode depender de interesses mais amplos nas relações entre Washington e Pequim do que do nível de preparação civil taiwanês.

A pressão também aparece abaixo do limiar de uma guerra aberta. Em 28 de setembro, a Formosan Association for Public Affairs pediu que Trump aprovasse a venda de armas sem demora e apontou níveis sem precedentes de pressão militar e marítima chinesa na chamada zona cinzenta — ações coercitivas que ficam aquém de um conflito declarado, mas podem testar a capacidade de resposta de Taiwan.

O significado geopolítico da estratégia é, portanto, duplo. Internamente, Taiwan procura reduzir vulnerabilidades e assegurar que uma crise não desmonte suas instituições. Externamente, tenta demonstrar que uma coerção prolongada enfrentaria uma sociedade preparada e uma infraestrutura mais resiliente. O resultado dependerá menos da existência de guias e cursos isolados do que da capacidade de transformar essas iniciativas em um sistema integrado, confiável e sustentado ao longo do tempo.