Pentágono Revela Armas de Energia Direcionada para Combater Drones nas Bases Americanas — O Departamento de Defesa dos Estados Unidos selecionou quatro sistemas de laser e micro-ondas de alta potência para um programa-piloto de defesa contra drones em instalações militares no país. A iniciativa pretende avaliar o desempenho operacional, os custos e as exigências de manutenção dessas armas, enquanto Washington busca reforçar a proteção de bases e infraestrutura estratégica diante da expansão das ameaças aéreas não tripuladas.
Quatro sistemas entram em teste nas bases dos EUA
O Pentágono anunciou a escolha de quatro equipamentos para o programa conduzido pela Força-Tarefa Interagências Conjunta 401 (JIATF-401), estrutura liderada pelo Exército dos EUA e criada para coordenar esforços contra drones entre as Forças Armadas e outras agências federais. Os sistemas selecionados são o laser de alta energia Palletized High-Energy Laser, da AeroVironment; o sistema de micro-ondas de alta potência Leonidas, da Epirus; o laser Firefly, da Kord; e o Compact Laser Weapon System (CLWS), da Boeing.
O projeto prevê testar as armas em ambiente operacional ao longo de um ano, com militares responsáveis por operá-las e mantê-las. Segundo o diretor da JIATF-401, general de brigada Matt Ross, a avaliação deve ajudar a determinar como integrar essas tecnologias a uma defesa em camadas contra drones e quais recursos serão necessários para sustentá-las.
O programa será realizado em cinco instalações escolhidas em maio: Fort Huachuca, no Arizona, e Fort Bliss, no Texas, ambas relacionadas à missão na fronteira sul; a Base Naval de Kitsap, no estado de Washington; a Base Aérea de Grand Forks, na Dakota do Norte; e a Base Aérea de Whiteman, no Missouri. O Departamento de Defesa ainda não informou qual sistema será enviado a cada local, quantas unidades serão empregadas nem o custo total do piloto.
Os quatro equipamentos usam princípios distintos. Um laser de alta energia concentra o feixe em um alvo até danificá-lo ou destruí-lo. Já o sistema Leonidas utiliza micro-ondas para interferir nos componentes eletrônicos de drones e pode, em determinadas condições, atingir vários aparelhos em uma única emissão. Essa capacidade é particularmente relevante diante de ataques em enxame, mas o alcance mais amplo dos efeitos também exige avaliar possíveis interferências em equipamentos próximos.
O custo por disparo é frequentemente apontado como uma vantagem das armas de energia direcionada em comparação com mísseis e munições convencionais. Elas também não deixam explosivos não detonados no terreno. Ainda assim, o Exército pretende calcular o custo de forma abrangente, incluindo aquisição, operação e manutenção dos sistemas — não apenas a energia consumida em cada disparo. Ross alertou que uma arma comprada por milhões de dólares não pode ser considerada barata apenas porque cada acionamento custa pouco.
Entre os sistemas a laser, o equipamento da AeroVironment é uma versão transportável do LOCUST, instalada em uma plataforma autônoma que pode ser deslocada por caminhão ou navio. A empresa informou que uma configuração paletizada acompanhou e neutralizou drones durante um exercício real a bordo do porta-aviões George H.W. Bush, em outubro de 2025. Em setembro de 2026, o Exército concedeu à companhia um contrato de US$ 464,8 milhões para produzir o LOCUST X3, de 30 quilowatts, embora o Pentágono não tenha esclarecido se as unidades do piloto virão desse contrato.
O CLWS, da Boeing, é um laser de menor potência, característica que tende a exigir mais tempo de exposição sobre o alvo, mas pode favorecer dimensões reduzidas e maior mobilidade. A empresa afirmou que uma versão de cinco quilowatts derrotou drones da categoria Group 3 em um exercício na Arábia Saudita e que o sistema acumulou centenas de neutralizações em testes e demonstrações. A Kord, subsidiária da KBR, apresenta o Firefly como um laser móvel instalado em plataforma paletizada, com potência escalável de cinco a 40 quilowatts.
O Leonidas, da Epirus, é o único sistema de micro-ondas incluído nesta etapa. A tecnologia já está associada a protótipos do Exército voltados à defesa contra enxames. Em 2025, a empresa declarou que o sistema desativou 61 drones-alvo em cinco cenários de demonstração, incluindo um enxame de 49 aparelhos atingido em uma única emissão. Esses resultados são informações divulgadas pela fabricante e serão confrontados com os dados obtidos durante o piloto em instalações militares.
Da defesa contra drones à busca por integração operacional
A seleção dos equipamentos ocorre após anos de expansão do uso de aeronaves não tripuladas, que se tornaram mais acessíveis e podem ser empregadas para vigilância, ataques ou saturação de defesas. Para os Estados Unidos, a proteção de bases domésticas passou a exigir respostas capazes de lidar tanto com drones isolados quanto com grupos numerosos, sem depender exclusivamente de mísseis ou canhões. A energia direcionada é uma das alternativas em avaliação, mas sua utilidade depende de fatores como alcance, condições ambientais, disponibilidade de energia, sensores e coordenação com outros meios de defesa.
A iniciativa também se insere em um esforço mais amplo do Pentágono para desenvolver uma arquitetura de proteção contra sistemas aéreos não tripulados. Em 29 de setembro, a JIATF-401 anunciou dez contratos, com valor potencial combinado de até US$ 4,15 bilhões, para sensores, miras ópticas e sistemas baseados em armas de fogo. O programa de energia direcionada complementa esse conjunto: em vez de substituir todas as defesas existentes, deverá ser avaliado como parte de uma combinação de tecnologias.
O caminho até a implementação, porém, inclui desafios de segurança e coordenação civil. Em fevereiro de 2026, a Administração Federal de Aviação (FAA) fechou temporariamente o espaço aéreo sobre El Paso, no Texas, depois do uso de um laser antidrone nas proximidades de Fort Bliss sem coordenação prévia com a agência, segundo relatos publicados à época. O episódio mostrou que operações militares contra drones podem ter consequências para a aviação civil, sobretudo em áreas próximas a aeroportos e corredores de tráfego aéreo.
Em março, autoridades de defesa e da FAA realizaram um teste com disparos no Campo de Mísseis de White Sands, no Novo México. A AeroVironment identificou o equipamento testado como integrante da família LOCUST. No mês seguinte, a FAA informou que uma análise de segurança concluiu que os sistemas avaliados, quando empregados com os controles apropriados, não representavam risco indevido para aeronaves de passageiros. A coordenação com a agência e com os comandantes das instalações será, portanto, parte essencial da avaliação em bases operacionais.
Legenda: Ilustração conceitual mostra o possível emprego de armas de energia direcionada contra sistemas não tripulados. | Créditos: Lockheed Martin
Impacto geopolítico e limites da nova defesa
A decisão sinaliza que Washington considera a ameaça de drones um problema de segurança interna e de prontidão militar, não apenas uma questão dos campos de batalha no exterior. Bases nos Estados Unidos concentram pessoal, equipamentos e funções estratégicas; protegê-las contra incursões não autorizadas ou ataques com drones tornou-se parte da resiliência da infraestrutura de defesa. A escolha de locais em diferentes regiões do país também permite testar os sistemas em contextos operacionais variados, embora o Departamento de Defesa ainda não tenha divulgado a distribuição dos equipamentos.
Do ponto de vista geopolítico, o piloto é também um teste da capacidade americana de transformar tecnologias promissoras em sistemas confiáveis e escaláveis. A vantagem potencial dos lasers e das micro-ondas está na possibilidade de reduzir o custo marginal de enfrentar ameaças repetitivas e de conservar munições convencionais para situações em que sejam mais necessárias. Mas essa vantagem não é automática: o custo de aquisição, a manutenção, o treinamento, a integração com sensores e as limitações de cada sistema influenciam a viabilidade de longo prazo.
O programa pode ainda orientar futuras decisões de compra e produção industrial. Em dezembro, a JIATF-401 planeja realizar uma demonstração comparativa em Dugway Proving Ground, no estado de Utah, para avaliar outros sistemas a laser e de micro-ondas. Matt Ross afirmou que equipamentos com bom desempenho poderão abrir caminho para pedidos de compra e para a ampliação da produção. A perspectiva reforça a disputa entre empresas de defesa por contratos e pela posição de fornecedoras de uma capacidade que o Pentágono busca incorporar às suas operações.
Para aliados e competidores, o avanço merece atenção por indicar a prioridade atribuída pelos Estados Unidos à defesa contra drones e à modernização de suas bases. Ainda assim, o anúncio não significa que as quatro armas estejam prontas para adoção ampla nem que possam neutralizar qualquer ameaça. O piloto foi concebido justamente para medir eficácia, custos e necessidades de sustentação em condições reais, além de identificar riscos de operação em espaços aéreos compartilhados.
O resultado estratégico dependerá, portanto, menos do impacto de uma demonstração isolada e mais da capacidade de integrar as armas a uma rede de detecção, comando e resposta. Se os testes confirmarem desempenho consistente e segurança operacional, lasers e micro-ondas poderão ampliar as opções de defesa dos EUA contra drones. Se os custos totais, limitações técnicas ou exigências de coordenação forem maiores do que o esperado, sua aplicação poderá permanecer restrita a missões e locais específicos.