Pentágono abandona análise de lealdade com IA? Descubra os novos rumos da segurança nacional! O Departamento de Defesa dos Estados Unidos afirma que a fase atual de modernização do polígrafo não inclui algumas das ferramentas de inteligência artificial antes associadas ao projeto. A declaração, porém, não encerra as dúvidas: documentos anteriores apontam pesquisas com algoritmos para avaliar padrões de fala e linguagem, enquanto especialistas questionam a validade científica, os riscos de discriminação e as consequências para servidores submetidos a investigações de segurança.
O que o Pentágono confirma — e o que permanece em aberto
A Agência de Contrainteligência e Segurança de Defesa dos Estados Unidos (DCSA), responsável por analisar candidatos e profissionais com autorização de acesso a informações sigilosas, informou que a pesquisa e o desenvolvimento atualmente ativos sob o programa “Modernizing Polygraph” não utilizam inteligência artificial generativa nem grandes modelos de linguagem, como os sistemas conversacionais usados em ferramentas populares. A agência também declarou que a etapa atual não abrange análise de expressões faciais, microexpressões ou características vocais.
A resposta representa uma delimitação importante, mas não equivale a uma confirmação de que toda aplicação de inteligência artificial à avaliação de credibilidade foi cancelada. A DCSA não esclareceu se outros modelos destinados à análise de linguagem escrita ou falada — incluindo sistemas voltados a identificar supostos padrões de “fala enganosa” — continuam em desenvolvimento, nem detalhou o alcance da iniciativa atual. A agência afirmou que continuará acompanhando avanços científicos para avaliar possíveis usos futuros.
Essa diferença entre o que foi retirado da fase ativa e o que não foi explicado alimenta a principal questão do caso: o Pentágono abandonou a análise automatizada de lealdade ou apenas restringiu, por ora, as ferramentas empregadas? Documentos orçamentários e apresentações obtidos anteriormente pela imprensa descrevem um programa mais amplo de modernização do polígrafo, com algoritmos de pontuação, ferramentas de apoio à decisão, sensores sem contato e imagens térmicas. O orçamento citado para o projeto Polygraph+/Polygraph Next é de aproximadamente US$ 31 milhões.
Em declarações anteriores, um funcionário do Departamento de Defesa descreveu a inteligência artificial como uma ferramenta de apoio a investigadores humanos, e não como substituta deles. A proposta seria processar dados com rapidez e padronizar parte da análise. Mas essa intenção convive com uma lacuna decisiva: ainda não está claro quais modelos permanecem no programa, que resultados podem influenciar uma avaliação e quais garantias terão os profissionais afetados.
Para a segurança nacional, o debate vai além da eficiência administrativa. A avaliação de credibilidade pode influenciar a manutenção de uma autorização de segurança, o acesso a determinadas funções e a trajetória profissional de militares e funcionários públicos. Quando sistemas automatizados são incorporados a esse processo, a questão central deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver transparência, prestação de contas e devido processo.
Do polígrafo tradicional à promessa da inteligência artificial
O polígrafo tem uma longa história na segurança estatal dos Estados Unidos. Criado para registrar respostas fisiológicas, como variações na respiração, na pressão arterial e na transpiração, o aparelho não detecta mentiras diretamente: ele mede reações do corpo durante o exame, que são posteriormente interpretadas por um examinador. A crença de que esses sinais poderiam revelar a verdade ganhou espaço ao longo do século 20, mas a confiabilidade do método permaneceu controversa.
Essa controvérsia também chegou ao sistema judicial. Em 1998, a Suprema Corte dos Estados Unidos manteve a exclusão de resultados e opiniões de polígrafos em tribunais militares, destacando a ausência de consenso sobre sua confiabilidade e o papel do júri na avaliação da credibilidade. Separadamente, uma decisão anterior da Corte limitou a possibilidade de revisão judicial em disputas ligadas a decisões de segurança nacional, contexto que pode dificultar recursos de profissionais que contestem consequências administrativas de avaliações equivocadas.
A inteligência artificial reabriu uma antiga promessa com instrumentos mais sofisticados. Apresentações da DCSA e informações divulgadas anteriormente indicavam que diferentes equipes haviam explorado, desde 2019, recursos de análise de sentimento e de padrões de linguagem associados à credibilidade. Um material descrevia treinamento de um modelo com textos de sites como Twitter e Reddit, além de bases de vocabulário. Outro apresentava um conceito de entrevista com avatar, câmera e microfone, em que dados de áudio, vídeo e transcrição seriam processados por sistemas automatizados.
Esses registros não comprovam que todas as tecnologias descritas tenham sido implantadas ou integrem a fase atual. A própria DCSA declarou que determinadas universidades e tecnologias apresentadas em materiais anteriores não participam do estágio ativo de pesquisa. Ainda assim, a distância entre os planos documentados e a descrição mais restrita do programa atual reforça a necessidade de distinguir pesquisa, desenvolvimento, teste e uso operacional — etapas que podem ter consequências muito diferentes para os indivíduos avaliados.
As evidências científicas citadas por especialistas também aconselham cautela. Pesquisadores afirmam que não há sinais confiáveis e universais na fala, no tom de voz ou nos movimentos faciais que permitam identificar uma mentira com precisão. Em um estudo mencionado na reportagem original, um modelo de inteligência artificial teve desempenho semelhante ao de participantes humanos ao avaliar gravações de interrogatórios simulados: ambos ficaram próximos do acaso, e o sistema automatizado mostrou maior propensão a acusar incorretamente algumas pessoas.
O problema não se limita a uma taxa de acerto. Algoritmos podem reproduzir padrões presentes nos dados usados em seu treinamento, interpretar diferenças culturais como indícios suspeitos ou avaliar de modo inadequado pessoas com determinadas deficiências. Em sistemas que combinam áudio, vídeo e texto, falhas de sincronização entre diferentes fontes também podem levar a conclusões sem relação com o contexto da entrevista. Além disso, especialistas alertam para o “viés de automação”: a tendência de confiar na recomendação de uma máquina mesmo quando existem sinais que a contradizem.
Legenda: Ilustração representa o uso de inteligência artificial na análise de sinais associados à credibilidade. | Créditos: Getty Images
Confiança institucional, contrainteligência e impacto geopolítico
O episódio ocorre em um momento de elevada sensibilidade para a segurança nacional norte-americana. Em agosto, segundo a reportagem, o Pentágono aplicou uma série de exames de polígrafo durante uma investigação sobre vazamentos relacionados ao impacto do conflito com o Irã nos arsenais dos Estados Unidos. A iniciativa provocou suspeitas entre críticos de que os exames poderiam funcionar não apenas como instrumento para identificar a origem das divulgações, mas também como mecanismo de pressão sobre funcionários considerados desleais.
Essa percepção tem importância geopolítica porque a confiança dentro do aparato de defesa é um recurso estratégico. O governo precisa proteger informações sobre operações, capacidades militares e decisões de política externa; ao mesmo tempo, depende de profissionais capazes de relatar erros, riscos e falhas sem receio de punições arbitrárias. Um sistema de avaliação opaco pode enfraquecer essa confiança, reduzir a disposição para comunicar problemas e ampliar tensões entre as autoridades políticas, os órgãos de inteligência e os servidores.
Para adversários dos Estados Unidos, a controvérsia também pode ser explorada como sinal de disputas internas ou de fragilidade na governança tecnológica. A simples existência de ferramentas capazes de classificar pessoas como confiáveis ou suspeitas pode alimentar narrativas sobre vigilância excessiva e politização das instituições, sobretudo se os critérios, os dados e os meios de contestação não forem transparentes. Isso não demonstra que tais ferramentas tenham sido usadas para perseguir indivíduos, mas evidencia como sua adoção — ou a percepção de sua adoção — pode repercutir na credibilidade internacional de Washington.
O contraste regulatório entre Estados Unidos e Europa acrescenta outra dimensão. A União Europeia classifica sistemas de inteligência artificial aplicados a certos usos de avaliação e detecção como de alto risco e impõe limites e obrigações específicas. Nos Estados Unidos, as diretrizes do Departamento de Defesa sobre inteligência artificial responsável enfatizam princípios como responsabilidade, equidade e rastreabilidade, mas especialistas consultados na reportagem argumentam que princípios gerais precisam ser acompanhados de auditorias, regras operacionais e mecanismos efetivos de recurso.
A pressão por modernização, por sua vez, é real. A contrainteligência precisa investigar vazamentos e proteger informações sensíveis em ambientes cada vez mais digitais, nos quais grandes volumes de dados podem tornar a triagem manual lenta. A promessa de automatizar análises pode parecer atraente para uma burocracia sob demanda por rapidez e padronização. Mas, se as ferramentas não distinguem de forma confiável nervosismo, diferenças individuais e engano deliberado, a escala do processamento pode ampliar erros em vez de corrigi-los.
O desafio estratégico do Pentágono, portanto, não é apenas decidir se deve ou não incorporar inteligência artificial ao polígrafo. É demonstrar que qualquer tecnologia empregada tem validade mensurável, limites claramente definidos e supervisão humana capaz de questionar resultados — não apenas confirmá-los. Também será essencial esclarecer se pessoas afetadas terão acesso às evidências relevantes, informações sobre o funcionamento do sistema e oportunidade real de contestar decisões que possam restringir suas carreiras.
Por enquanto, as declarações da DCSA indicam que certas tecnologias controversas não fazem parte da pesquisa ativa, mas deixam sem resposta o destino de outras formas de análise algorítmica exploradas anteriormente. Assim, a questão permanece aberta: o Pentágono está recuando da ideia de usar inteligência artificial para avaliar credibilidade ou redesenhando o projeto em termos mais limitados? A resposta terá consequências não só para a segurança interna dos Estados Unidos, mas também para o debate internacional sobre o uso de algoritmos em decisões que afetam direitos, carreiras e confiança pública.