A recente proposta de Palmer Luckey, cofundador da Anduril e membro do grupo que assessorará o Project Meridian, de adaptar fábricas civis para produção de armamentos e de preparar forças para combates em ambientes subterrâneos sinaliza uma mudança operacional e industrial com potencial de remodelar a doutrina de defesa dos Estados Unidos e seus aliados — ao mesmo tempo em que acentua tensões estratégicas com potências revisionistas como a China.

Visão estratégica: mísseis em fábricas de automóveis e a preparação para combates subterrâneos

Luckey defende que a superioridade bélica futura exigirá duas inovações convergentes: capacidade industrial massiva baseada em linhas civis e uma doutrina operacional que contemple o espaço subterrâneo como domínio de combate. A proposta retoma a lógica da mobilização industrial da Segunda Guerra Mundial — projetar equipamentos militares que possam ser produzidos com maquinário e técnicas comerciais — e aplica essa lógica a sistemas modernos, como mísseis e aeronaves, além de veículos autônomos capazes de operar em espaços confinados.

No terreno operacional, a ideia de “sub-T” (combate real no subsolo) amplia o espectro de manobra tridimensional, onde cavernas, túneis e porções da crosta terrestre seriam utilizadas tanto para proteção e dispersão de ativos quanto para lançar operações ofensivas. Luckey argumenta que a autonomia robótica reduz os custos e os riscos dessa penetração subterrânea, tornando viável engenharia de túneis e movimentação de sistemas sem dependência intensiva de mão de obra humana.

Antecedentes e evolução histórica da mobilização industrial e das operações subterrâneas

Historicamente, grandes guerras incentivaram a integração entre indústria civil e produção militar: nos anos 1940, linhas de montagem automotivas foram convertidas para tanques e aviões; programas ferroviários e navais adaptaram cadeias logísticas civis para fins bélicos. Durante a Guerra Fria, tanto os EUA quanto a URSS investiram em conceitos de proteção e sobrevivência subterrânea — desde abrigos governamentais até projetos de tunelamento estratégico e veículos especializados. Conflitos regionais posteriores (por exemplo, Vietnã, Golfo, e operações urbanas contemporâneas) consolidaram o uso de espaços confinados e túneles como elementos táticos relevantes.

O impulso atual incorpora elementos novos: sistemas autônomos, manufatura digital e redes de informação interoperáveis amplificam a possibilidade de reconversão industrial rápida e de penetração subterrânea com menor custo humano direto. Iniciativas como o Project Meridian, que visa mapear os futuros campos de batalha e capacidades necessárias, enquadram essa discussão num cronograma político e técnico, com entregas previstas para janeiro de 2027.

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Legenda: Palmer Luckey durante entrevista em Taipei, discutindo defesa e industrialização militar | Créditos: Ann Wang/Reuters

Impacto geopolítico: dissuasão industrial, riscos de escalada e desafios de governança

Adotar uma estratégia que torne fábricas civis capazes de produzir mísseis e outros sistemas militares tem efeitos imediatos de dissuasão: aumenta a taxa de produção em crises, reduz o ponto de vulnerabilidade das linhas de abastecimento militarizadas e sinaliza a capacidade de resposta rápida a adversários. Para aliados, uma base industrial dual-use reforça resiliência coletiva, mas exige fortes mecanismos de padronização, certificação e intercâmbio de informação para garantir interoperabilidade e segurança de cadeias sensíveis.

Contudo, há custos e riscos geopolíticos significativos. Primeiro, a militarização de infraestruturas civis pode acelerar corridas armamentistas e reduzir os limiares de ativação nacional para conflito, uma vez que a produção em massa se torna relativamente acessível. Segundo, o desenvolvimento e emprego de sistemas autônomos subterrâneos levantam questões legais, observância do direito internacional e vulnerabilidades à proliferação de tecnologia por atores estatais e não estatais. Terceiro, a dependência de reconversão industrial expõe estruturas críticas (energia, logística, semicondutores) a ataques cibernéticos e físicos em tempo de crise.

Geograficamente, a proposição afeta prioritariamente o Indo-Pacífico — onde a rivalidade EUA–China e as preocupações com Taiwan tornam a demonstração de capacidade de mobilização industrial e de operações assimétricas particularmente sensíveis — e a Europa, que encara a necessidade de escalonamento rápido frente a coerção russa. Em termos de política externa, a receita provável inclui: reforço de estoques e de capacidade de surge production, acordos de partilha tecnológica com parceiros selecionados, e investimentos em sensores e comunicações seguras para integrar “todo sensor como sensor de todo efector”.

Recomendações estratégicas: 1) Desenvolver um marco jurídico e normativo sobre o uso de infraestruturas civis em mobilização, com salvaguardas para proteger civis e serviços essenciais; 2) Priorizar a resiliência de cadeias de suprimento críticas (microeletrônica, materiais avançados) para evitar fragilidades em um cenário de mobilização; 3) Promover acordos multilaterais de transparência sobre capacidades subterrâneas e sistemas autônomos para mitigar riscos de mal-entendidos e escalada; 4) Investir em treinamento conjunto e exercícios que integrem indústria, forças armadas e aliados para validar procedimentos de conversão industrial e operações subterrâneas de baixa visibilidade.

Em suma, a visão de Luckey sintetiza tendências tecnológicas e industriais reais e oferece um roteiro pragmático para a prontidão em cenários de alta intensidade; sua implementação exigirá, porém, gestão cuidadosa dos equilíbrios entre dissuasão, governança e estabilidade estratégica.