Ofensiva Saudita contra os Houthis: A Batalha Decisiva pelo Controle do Mar Vermelho se Aproxima A Arábia Saudita avalia uma nova ofensiva no Iêmen para afastar os houthis do estreito de Bab el-Mandeb, corredor marítimo estratégico entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. A operação, que poderá envolver forças iemenitas apoiadas por ataques aéreos sauditas, surge em meio à escalada regional e à crescente importância da rota para o comércio internacional. Ainda não há confirmação pública dos governos envolvidos, e o momento e a dimensão de uma eventual ação permanecem incertos.

Riad avalia ofensiva para reabrir rota estratégica

Segundo informações reunidas pela Reuters junto a autoridades do Golfo, do Iêmen e a diplomatas ocidentais, a liderança saudita considera duas possibilidades: uma operação concentrada nas proximidades de Bab el-Mandeb ou uma campanha mais ampla, com ações coordenadas em várias frentes iemenitas. Entre as áreas mencionadas estão Al-Bayda, Marib, Taiz e Al-Jawf. A escala dependeria dos objetivos militares e da capacidade das forças locais; autoridades citadas estimaram que mais de 100 mil combatentes iemenitas poderiam ser mobilizados.

O planejamento atribuiria às forças iemenitas em campo, supervisionadas por Riad, o papel principal na ofensiva, com apoio de ataques aéreos sauditas. As fontes consultadas não apontaram uma data definida: as estimativas variam de uma possível ação nas semanas seguintes até depois das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, previstas para o início de novembro. Arábia Saudita, governo iemenita, houthis e forças armadas norte-americanas não responderam imediatamente aos pedidos de comentário mencionados pela agência.

O objetivo estratégico seria reverter os avanços houthis ao longo da costa do Mar Vermelho e reduzir a pressão sobre a navegação em Bab el-Mandeb. A avaliação saudita, de acordo com fontes citadas, é que negociar com os houthis enquanto o grupo mantiver influência sobre esse ponto marítimo deixaria a milícia em posição de obter poder de barganha significativo. A questão, portanto, vai além do controle territorial: envolve a segurança de uma passagem essencial para o transporte entre a Europa, o Mediterrâneo e a Ásia.

O estreito ganhou ainda mais relevância neste cenário porque, segundo a reportagem, o conflito com o Irã deixou o Estreito de Ormuz efetivamente fechado, aumentando a dependência de rotas alternativas. Qualquer ameaça prolongada à circulação em Bab el-Mandeb poderia elevar custos de frete e seguros, pressionar cadeias de abastecimento e ampliar a instabilidade nos mercados de energia. O impacto dependeria, contudo, da duração e da intensidade das restrições à navegação.

Da intervenção de 2015 à nova disputa pelo litoral

A guerra civil iemenita se internacionalizou em 2015, quando a Arábia Saudita passou a liderar uma coalizão árabe em apoio ao governo reconhecido internacionalmente, depois que os houthis tomaram Sanaa e expulsaram as autoridades da capital. A campanha não conseguiu eliminar o movimento, e o conflito se prolongou por anos, produzindo enormes custos humanos e deixando o país fragmentado entre forças rivais e diferentes zonas de influência.

Uma trégua acertada em 2022 reduziu os combates em larga escala e, em grande medida, se manteve até a nova escalada descrita pelas fontes. Neste ano, os houthis teriam lançado ataques com mísseis e drones contra embarcações e infraestrutura petrolífera saudita, em um transbordamento da guerra envolvendo o Irã. A intensificação das ações e os avanços relatados na costa do Mar Vermelho alteraram os cálculos de segurança de Riad e recolocaram a possibilidade de uma intervenção mais direta na agenda.

Apesar disso, a operação em discussão não seria necessariamente uma repetição da campanha iniciada em 2015. Michael Ratney, ex-embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita, avaliou que uma ação limitada para recuperar posições costeiras e normalizar o tráfego marítimo seria mais provável do que uma tentativa de derrotar completamente os houthis. Essa diferença é central: recuperar áreas específicas pode ser um objetivo militar delimitado, enquanto desmantelar o movimento exigiria uma campanha de muito maior duração e risco.

A imagem mostra apoiadores houthis reunidos em Sanaa em setembro de 2026. A mobilização pública evidencia a capacidade do grupo de projetar força política e militar, num momento em que o litoral do Mar Vermelho se tornou um dos principais focos da disputa.

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Legenda: Apoiadores houthis participam de manifestação em Sanaa, no Iêmen, em setembro de 2026. | Créditos: Adel Al Khader/Reuters

Disputa ameaça ampliar a instabilidade regional

Uma ofensiva saudita colocaria em evidência o equilíbrio delicado entre contenção e escalada. Riad busca reduzir a capacidade dos houthis de ameaçar a navegação e a infraestrutura petrolífera, mas uma campanha de maior alcance poderia provocar retaliações com drones e mísseis contra alvos sauditas. A proteção de instalações de energia e de cidades estratégicas aparece, por isso, como uma das principais preocupações do reino, que teria solicitado apoio de aliados para reforçar suas defesas.

O apoio internacional descrito pelas fontes seria relevante, mas limitado. Os Estados Unidos estariam fornecendo inteligência, informações de identificação de alvos e assessoria militar para apoiar as operações sauditas, sem expectativa de participação direta em combate. A reportagem também relata que o presidente Donald Trump havia rejeitado pedidos sauditas por apoio militar direto, como ataques aéreos. Essa distinção permite a Washington ajudar Riad sem necessariamente se envolver abertamente numa nova campanha no Iêmen.

Turquia e Paquistão também aparecem no quadro de assistência militar. Autoridades paquistanesas disseram que equipamentos enviados a Áden incluíam sistemas de defesa aérea, artilharia leve, drones e recursos antidrone, além da presença de assessores militares junto a seus pares sauditas. Uma fonte paquistanesa afirmou que Islamabad não havia decidido enviar tropas para combater dentro do Iêmen. A França, por sua vez, anunciou o envio de sistemas defensivos e militares para ajudar a proteger o porto saudita de Yanbu.

O principal limite operacional pode estar dentro do próprio campo anti-houthi. As forças iemenitas apoiadas em diferentes momentos pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos são heterogêneas, com divisões políticas e militares. No inverno anterior, confrontos entre combatentes do sul apoiados pelos Emirados e forças respaldadas por Riad teriam aprofundado essas fraturas, após uma disputa territorial e iniciativas separatistas. Uma coalizão fragmentada pode ter dificuldade para sustentar uma ofensiva coordenada contra um adversário disciplinado.

Esse quadro torna incerto o resultado de qualquer avanço terrestre. A capacidade das forças locais de manter posições, coordenar comandos e evitar novas disputas internas poderá ser tão determinante quanto o apoio aéreo saudita ou o equipamento fornecido por parceiros. Uma operação bem-sucedida em termos táticos não garantiria, por si só, estabilidade política ou segurança duradoura para a navegação.

Em perspectiva geopolítica, Bab el-Mandeb funciona como um ponto de pressão sobre o comércio global e como instrumento de influência na rivalidade regional. Se os houthis conservarem a capacidade de ameaçar a passagem, poderão projetar poder muito além do território iemenita; se Riad lançar uma ofensiva, o reino assumirá o risco de reabrir uma guerra de maior escala sem garantia de unidade entre seus aliados locais. A disputa pelo estreito poderá, assim, redefinir não apenas as linhas de frente no Iêmen, mas também o custo e a segurança de uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.