O que a presença militar americana no Panamá revela sobre a segurança na América Latina? Treinamentos na selva, missões médicas, cooperação de engenharia e operações de mergulho mostram que Washington está ampliando sua atuação no país sem anunciar a instalação de bases permanentes. A aproximação reflete uma mudança de prioridades: o Canal do Panamá, a migração pelo Darién e o combate ao narcotráfico passaram a ocupar espaço central na estratégia de segurança dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental.
Cooperação militar além do treinamento na selva
A presença dos Estados Unidos no Panamá é formada por uma série de atividades conjuntas, e não por uma única missão. Militares americanos treinam com integrantes das forças panamenhas, participam de exercícios em ambiente de selva e realizam operações de mergulho e salvamento nas proximidades do Canal. Equipes de engenharia também atuam em estruturas usadas para instrução, enquanto profissionais de saúde prestam atendimento em comunidades rurais.
O alcance da parceria inclui ainda uma companhia de Assuntos Civis do Exército americano, maior do que os destacamentos normalmente enviados a outros países, segundo o coronel Jacob White, vice-comandante do Joint Security Cooperation Group-Panama. As equipes identificam necessidades de infraestrutura local, como escolas deterioradas e pontes inseguras, e trabalham em diferentes regiões do país.
Esse conjunto de iniciativas combina treinamento operacional com ações de contato direto com a população. Médicos militares colaboram com profissionais panamenhos em procedimentos clínicos e cirúrgicos; dentistas, optometristas e veterinários também participam de missões em áreas afastadas. Para os militares dos Estados Unidos, a presença regular ajuda a desenvolver confiança e familiaridade com o terreno — fatores que, segundo White, não podem ser construídos de forma instantânea durante uma crise.
O componente de segurança, porém, é mais amplo. A cooperação envolve o Serviço Nacional de Fronteiras (SENAFRONT) e o Serviço Nacional Aeronaval (SENAN), duas instituições das Forças Públicas do Panamá. O país não possui um Exército permanente. A atuação americana, conforme autoridades citadas na reportagem, ocorre com a autorização panamenha e por meio da colaboração com as instituições locais.
O treinamento na selva também tem valor estratégico. A experiência em um ambiente distinto das áreas de instrução dos Estados Unidos prepara militares para operar em condições encontradas em diferentes partes do Hemisfério Ocidental. Para os instrutores panamenhos, a convivência nos cursos pode ajudar soldados americanos a compreender as dificuldades práticas de atuar nesse tipo de terreno.
Do legado da intervenção à parceria atual
A relação militar entre os dois países carrega uma história complexa. Depois de décadas de presença americana no Panamá, as bases dos Estados Unidos foram transferidas ao país centro-americano há mais de 20 anos. A memória da invasão americana de 1989, realizada para derrubar o então governante Manuel Noriega, continua sendo um elemento sensível no debate sobre soberania e influência estrangeira.
O Canal do Panamá é o eixo histórico dessa relação. Além de conectar o Atlântico ao Pacífico, a rota tem importância direta para o comércio internacional e para os interesses econômicos dos Estados Unidos. De acordo com os dados citados na reportagem, cerca de 5% a 6% do comércio global transita pelo canal, e aproximadamente 70% desse tráfego tem origem ou destino nos Estados Unidos.
A relevância estratégica do país também está ligada ao Darién, região de selva que conecta a América Central à América do Sul. A área tornou-se uma rota migratória de grande dimensão: em seu período de maior movimento, mais de meio milhão de pessoas cruzaram o Darién em um ano. Autoridades panamenhas também apontam o uso do corredor por redes de tráfico de drogas.
Essa combinação de canal, mobilidade humana e crime transnacional explica por que o Panamá permanece no radar de Washington. Em abril de 2025, os dois governos anunciaram um acordo voltado a enfrentar a influência chinesa na região e a reforçar a segurança do canal, abrindo espaço para novas atividades conjuntas. A iniciativa se insere em uma política americana que voltou a atribuir prioridade ao Hemisfério Ocidental, enquanto a defesa do território nacional ganhou destaque na agenda do Pentágono.
Legenda: Militar americana presta atendimento veterinário durante missão médica em Metetí, no Panamá, em setembro de 2026. | Créditos: Sgt. Jabari Middleton/U.S. Army
Canal, influência e soberania no centro da disputa
A intensificação da cooperação revela uma mudança no modo como os Estados Unidos projetam sua presença na América Latina. Em vez de depender exclusivamente de instalações militares permanentes, Washington amplia exercícios, assessoria, treinamento e ações de apoio em parceria com governos locais. No caso panamenho, essa abordagem oferece acesso operacional e relações institucionais sem exigir, ao menos oficialmente, o retorno a uma estrutura de bases como a que existiu no passado.
O modelo atende a interesses simultâneos. Para os Estados Unidos, o canal é uma infraestrutura crítica para o comércio, e o Darién está relacionado a temas que alcançam diretamente sua política de fronteira: migração e tráfico de drogas. Para o Panamá, a cooperação pode contribuir para capacitação, vigilância e resposta a problemas que também afetam sua segurança interna. Essa convergência, contudo, não elimina as diferenças de poder nem as sensibilidades políticas envolvidas.
A referência americana à ideia de que a fronteira dos Estados Unidos “começa no Panamá” sintetiza a lógica estratégica de Washington: atuar mais ao sul para tentar conter ameaças antes que elas alcancem o território americano. A perspectiva pode fortalecer a coordenação entre os países, mas também levanta questões sobre a extensão da influência dos Estados Unidos nas prioridades de segurança panamenhas e sobre o equilíbrio entre cooperação e autonomia nacional.
Há ainda uma dimensão internacional. O acordo de 2025 sobre a influência chinesa indica que o Panamá é visto não apenas como parceiro no combate à migração irregular e ao narcotráfico, mas também como espaço de competição estratégica. A importância do canal e as preocupações com rotas marítimas reforçam esse interesse, especialmente em um cenário de interrupções ou instabilidade em outros pontos críticos do comércio mundial.
As autoridades americanas afirmam que não há planos para estabelecer bases permanentes e dizem atuar em conformidade com o Tratado de Neutralidade de 1977, que prevê que o Canal do Panamá permaneça neutro e aberto à passagem pacífica de navios de todas as nações. A promessa de operar “por meio dos panamenhos” procura responder às preocupações históricas sobre soberania, mas a credibilidade desse compromisso dependerá da transparência dos acordos e do controle panamenho sobre as atividades em seu território.
Assim, a presença militar americana no Panamá revela mais do que uma retomada de treinamentos na selva. Ela sinaliza uma estratégia regional baseada em acesso, cooperação contínua e prevenção de riscos ligados a infraestrutura, mobilidade e crime organizado. O desafio para os dois governos será transformar a parceria em ganhos concretos de segurança sem reabrir as feridas deixadas pela intervenção do passado ou reduzir a autonomia do Panamá na gestão de um dos corredores marítimos mais importantes do mundo.