O navio-aeródromo chinês CNS Liaoning está consolidando um padrão operacional recorrente de deslocamentos de longo curso que combina treinamento técnico e demonstração de presença estratégica nas áreas disputadas do Leste e Sudeste Asiático, elevando tensões com Taiwan, Japão e Filipinas e forçando ajustes de estratégia nas alianças regionais.
Liaoning em patrulha: padrão crescente de cruzeiros eleva a presença naval chinesa perto de Taiwan, Japão e Filipinas
Desde sua entrada em serviço, o CNS Liaoning vem adotando uma rotina de deslocamentos mais frequentes para alto-mar que serve dupla finalidade: validar capacidades operacionais (lançamento e recuperação de aeronaves, integração de sensores e coordenação de escoltas) e projetar influência política-militar nas proximidades de áreas disputadas. Movimentos documentados em meados de outubro, incluindo operações aéreas a cerca de 250 km ao sul de Ishigaki e exercícios no Mar do Sul da China próximos às águas reclamadas pelas Filipinas, ilustram uma estratégia de presença persistente. Embora Pequim apresente essas ações como treinamentos rotineiros e em conformidade com o direito internacional, a combinação de frequência, rota e projeção de escoltas de fragatas e destróieres transforma exercícios em um instrumento de sinalização estratégica.
Histórico e evolução: do primeiro porta-aviões à peça de instrução para a marinha moderna chinesa
O Liaoning, remodelado e adotado há cerca de uma década e meia, foi historicamente o primeiro vetor naval que permitiu à China desenvolver doutrina de porta-aviões. Ao longo do tempo, sua função evoluiu de demonstrador tecnológico costeiro para plataforma de treinamento de alto-mar, preparando tripulações e testando procedimentos para unidades mais modernas, como o Shandong e o Fujian. Essa progressão operacional reflete um ciclo lógico de aprendizagem: o navio mais antigo valida operações de voo, sensores e comunicações, enquanto unidades subsequentes incorporam lições e tecnologias emergentes. Paralelamente, Beijing vem expandindo sua base logística e capacidades de sustentação ao mar, o que permite lançamentos além das águas próximas e sustenta cruzeiros mais longos — fator crítico para a transição de uma marinha de defesa costeira para uma força com projeção regional.
Legenda: Formação de porta-aviões chineses realizando exercícios no Mar do Sul da China | Créditos: Sun Xiang/Xinhua via Getty Images
Consequências geopolíticas: reações regionais, riscos de escalada e recomendações estratégicas para o Indo-Pacífico
O padrão de operações do Liaoning tem três efeitos geopolíticos principais. Primeiro, intensifica a percepção de ameaça entre vizinhos como Taiwan, Japão e Filipinas, que monitoram de perto qualquer atividade em suas zonas econômicas exclusivas e próximas às ilhas disputadas. Segundo, provoca respostas em termos de prontidão e cooperação entre aliados democráticos regionais, manifestas em exercícios como Keen Sword e em reforço de vigilância aérea e marítima. Terceiro, cria um novo ritmo de normalização da presença chinesa em alto-mar, reduzindo o limiar político de aceitação de operações próximas a áreas contestadas.
Do ponto de vista operacional, o emprego do Liaoning como plataforma de ensino ajuda a acelerar a capacidade de porta-aviões chineses mais modernos, o que, a médio prazo, altera a equação de dissuasão no teatro. Contudo, limitações técnicas do Liaoning (design mais antigo, perfil STOBAR) e o caráter evolutivo da doutrina chinesa indicam que, embora a intenção de projeção seja clara, ainda há etapas a superar para que a frota alcance plena autonomia operacional sustentada em conflitos de alta intensidade.
Recomendações práticas para atores regionais e parceiros: 1) ampliar sensores e compartilhamento de inteligência marítima entre aliados e parceiros; 2) fortalecer capacidades anti-navio e anti-porta-aviões (ASuW/AShW) e defesa aérea para aumentar o custo operacional de operações adversárias; 3) preservar canais diplomáticos e militares de gestão de crises para reduzir riscos de incidentes; 4) investir em dissuasão resiliente e exercícios conjuntos que simulem cenários de contestação marítima; e 5) promover normas regionais de comportamento no mar que limitem práticas que possam ser interpretadas como provocativas.
Em suma, a rotina de cruzeiros do Liaoning é ao mesmo tempo um processo de aprendizagem interno à marinha chinesa e uma ferramenta externa de política que pressiona estruturas de segurança regionais. A resposta regional dependerá da capacidade dos Estados costeiros e de seus aliados de combinar vigilância, dissuasão e diplomacia para gerir a nova normalidade naval no Indo-Pacífico.