Novas Estratégias de Guerra: Como os 4 Pilares do Exército dos EUA Estão Transformando o Campo de Batalha O Exército dos Estados Unidos está reorganizando sua doutrina para um cenário em que drones, ataques de longo alcance e guerra eletrônica podem ameaçar forças em praticamente qualquer ponto do teatro de operações. A nova orientação combina desorganização das redes inimigas, poder de fogo, avanço terrestre e capacidade de sustentação — uma mudança que busca recuperar a iniciativa e evitar conflitos prolongados de desgaste.

Uma doutrina para abrir caminho ao avanço terrestre

O manual How the Army Fights, divulgado pelo Exército dos EUA, apresenta uma concepção operacional baseada em quatro elementos: convergência, ataque, combate aproximado e resistência. A proposta é integrar capacidades terrestres, aéreas, espaciais, cibernéticas e eletromagnéticas para criar condições favoráveis à manobra de grandes unidades.

Na prática, a sequência começa por comprometer o comando, as comunicações e os sensores do adversário. Em seguida, forças norte-americanas empregariam artilharia, foguetes, mísseis e sistemas não tripulados para atingir unidades, instalações e linhas logísticas antes do contato direto. Com o inimigo desorganizado, tropas terrestres poderiam avançar para conquistar e manter posições.

A quarta dimensão, a resistência, trata da capacidade de continuar operando sob ataque. Isso inclui proteger depósitos, instalações médicas e infraestrutura, manter o fluxo de suprimentos e reduzir a dependência de rotas vulneráveis. O documento também defende o uso de plataformas autônomas terrestres, aéreas e litorâneas para distribuir materiais em áreas de alto risco.

A orientação procura aproximar decisões estratégicas e operacionais da execução no campo. Embora se concentre nos níveis mais amplos da guerra, o manual afirma que seus princípios devem influenciar unidades em diferentes escalões, da coordenação entre grandes formações às ações táticas.

Da contrainsurgência à guerra multidomínio

A nova diretriz marca uma inflexão em relação às quase duas décadas em que a organização, o treinamento e os equipamentos do Exército norte-americano foram moldados por operações de contrainsurgência e combate a grupos armados. Segundo o manual, essa experiência não preparou plenamente as unidades para atuar sob vigilância constante, com o espaço aéreo contestado, assinaturas eletromagnéticas expostas e apoio logístico limitado.

O conceito que orienta a mudança é o de Operações Multidomínio. Em vez de centrar o combate em pequenas unidades isoladas, a doutrina enfatiza a coordenação de brigadas e divisões, articuladas com capacidades de outros domínios. A intenção é produzir efeitos simultâneos sobre diferentes partes do sistema inimigo, em vez de depender de uma única forma de ataque.

A guerra na Ucrânia aparece como referência para o debate sobre os desafios contemporâneos. O uso disseminado de drones e munições guiadas de longo alcance tornou mais arriscado concentrar forças e movimentar tropas sem serem detectadas. Nesse ambiente, a manobra terrestre pode se tornar difícil, mas continua sendo considerada indispensável para tomar território e impedir que o adversário o recupere.

O manual reconhece que a tecnologia, por si só, não resolve esse problema. Camuflagem, dissimulação, treinamento prolongado e liderança continuam fundamentais para unidades que precisam sobreviver e avançar em um campo de batalha observado por sensores e ameaçado por ataques de precisão. A doutrina combina, portanto, modernização tecnológica com competências humanas e militares tradicionais.

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Legenda: Soldados dos EUA realizam manobra no Forte Magsaysay, nas Filipinas, em cenário de treinamento. | Créditos: Pfc. Peter Bannister/U.S. Army

Logística e presença avançada no centro da estratégia

O impacto geopolítico da doutrina vai além das táticas de combate. Ao priorizar estoques de combustível e munições, locais de contingência e estruturas de comando próximas a possíveis zonas de conflito, o Exército indica que pretende reduzir o tempo necessário para responder a uma crise. A presença avançada também pode fortalecer a capacidade de dissuasão, ao demonstrar que forças e recursos estão disponíveis antes de uma escalada.

Essa postura, porém, exige investimentos e coordenação com aliados e parceiros que abriguem instalações ou recebam forças norte-americanas. Bases, portos, depósitos e redes de transporte tornam-se componentes estratégicos, mas também alvos potenciais. O manual destaca que não há garantia de retaguarda segura em um teatro de operações no qual adversários podem empregar capacidades de negação de acesso e interdição de área, conhecidas pela sigla A2/AD.

O documento também relaciona a prontidão militar à capacidade industrial. O Exército prevê ampliar a flexibilidade de seus depósitos, arsenais e fábricas de munição, além de estimular a indústria de defesa a repor equipamentos em ritmo superior ao de períodos de paz. A fabricação aditiva e a possibilidade de reparar sistemas perto da linha de frente são apresentadas como meios para diminuir a dependência de remessas vindas de instalações distantes.

Essa ênfase reflete uma lição estratégica: em um conflito de alta intensidade, a vantagem inicial pode não ser suficiente se munições, peças e combustível não forem repostos. A sustentabilidade da força passa a depender tanto da logística militar quanto da capacidade de produção, manutenção e transporte. Por isso, o manual propõe que sistemas autônomos apoiem a distribuição, reduzindo a exposição de pessoas em corredores sob ameaça.

A orientação menciona ainda os desafios logísticos observados durante a guerra envolvendo o Irã, na qual ataques iranianos a bases norte-americanas no Golfo teriam levado aeronaves a mudar de localização e navios a percorrer longas distâncias para reabastecimento. O episódio reforça, na avaliação apresentada pelo manual, a importância de dispersar recursos, proteger instalações e planejar linhas de abastecimento alternativas.

Apesar do foco em redes digitais, munições de precisão e plataformas não tripuladas, a diretriz mantém o soldado no centro da operação. Sistemas automatizados podem ampliar o alcance e a velocidade das forças, mas não substituem o julgamento humano, a disciplina e a capacidade de agir em condições extremas. Essa combinação entre tecnologia, preparo e resiliência será decisiva para determinar se os quatro pilares conseguirão transformar superioridade material em resultados estratégicos duradouros.