O avanço recente do programa Drone Dominance do Pentágono — com as startups californianas Neros Technologies e Perennial Autonomy liderando os rankings e assegurando encomendas expressivas — marca um ponto de inflexão na militarização em larga escala de drones comerciais: uma combinação de inovação centrada em autonomia, produção em massa e aquisição direta do governo que redesenha cadeias de suprimento, doutrinas operacionais e riscos de proliferação em nível global.
Neros e Perennial impulsionam compras do Pentágono e redefinem prioridades de aquisição de drones
O resultado da fase mais recente do Drone Dominance, que posicionou Neros no topo de testes em ambientes confinados e Perennial na categoria “deep-strike”, traduz-se em pedidos significativos — cerca de 14.000 unidades para Neros e 8.000 para Perennial — e em contratos correlatos que orientam o ritmo de industrialização de sistemas aéreos não tripulados de baixo custo. Essa modalidade de aquisição, atrelada a um programa com financiamento direto de aproximadamente US$ 1 bilhão, altera o modelo tradicional de defesa: em vez de contratar grandes primes para projetos proprietários, o Departamento de Defesa está comprando volumes comerciais padronizados e escaláveis.
Na prática, as características técnicas destacadas — autonomia avançada com “Terminal Guidance” e capacidade BVLOS (beyond visual line-of-sight) — respondem à necessidade operacional moderna de operar em ambientes contestados e com comunicações degradadas. A combinação de plataforma modular (Archer AI da Neros) e soluções de interceptação (Merops da Perennial) demonstra a convergência entre ofensiva distribuída e capacidades de defesa ativa, influenciada por lições recentes de conflitos assimétricos e de alta intensidade.
Da cena amadora às linhas de frente: trajetória histórica e aceleração tecnológica
A adoção massiva de drones militares tem raízes recentes, mas acelerou rapidamente nas últimas décadas. Inicialmente dominados por aplicações recreativas e comerciais, veículos aéreos não tripulados migraram para usos militares por meio de experimentação tática (grupos insurgentes, atores estatais em zonas como Ucrânia e Médio Oriente) e adaptação industrial. A Guerra na Ucrânia e o emprego de drones “one‑way” e interceptores contribuíram para validar conceitos de find‑fix‑finish e ataques distribuídos.
O programa Drone Dominance, lançado em dezembro de 2025, institucionaliza essa transição: ao incentivar empresas emergentes — muitas fundadas por ex‑competidores e engenheiros civis — o Pentágono pretende acelerar iterações tecnológicas e reduzir custos unitários. A participação de atores do setor privado com know‑how em autonomia (incluindo figuras de empresas de tecnologia) reflete uma nova era em que habilidades civis de software e manufatura rápida são integradas à lógica militar.
Legenda: Lançamento de um drone de ataque Archer da Neros por fuzileiros navais dos EUA próximos a Okinawa | Créditos: Lance Cpl. Oscar Ocampo/U.S. Marine Corps
Impacto geopolítico: competição estratégica, proliferação e desafios de controle
Geopoliticamente, a massificação de drones comerciais armados e autônomos tem múltiplos efeitos imediatos e de médio prazo. Primeiro, altera o equilíbrio de poder assimétrico: atores estatais e não estatais obtêm acessos a capacidades ofensivas de baixo custo, tornando mais barato e rápido infligir danos e aumentar o atrito em zonas de conflito. Isso reduz a barreira de entrada para campanhas de desgaste e ataques híbridos.
Segundo, cria pressão competitiva entre grandes potências. Estados como China e Rússia intensificarão esforços para desenvolver equivalentes em escala, tanto para emprego próprio quanto para exportação. A resposta militar envolverá não só produção, mas investimento em defesa contra drones (C‑UAS), guerra eletrônica e regulamentação de espaço aéreo — áreas já visadas por estruturas como o JIATF‑401.
Terceiro, gera dilemas de política pública: como equilibrar apoio à indústria doméstica com controles de exportação, evitar transferência de tecnologia sensível e prevenir que plataformas simples caiam nas mãos de atores criminosos ou insurgentes (o que já se observa em mercados informais). Também há riscos de escalada inadvertida; grupos usando enxames autônomos podem obrigar adversários a respostas desproporcionais que ampliem conflitos regionais.
Para mitigar impactos, recomendações estratégicas incluem: 1) harmonizar regulamentos de exportação entre aliados e parceiros para limitar tráfego transfronteiriço de kits letais; 2) priorizar financiamento interoperável para defesa aérea de curto alcance e sistemas C2 resilientes; 3) expandir treinamentos conjuntos e normas operacionais para uso responsável de sistemas autônomos; e 4) investir em resiliência industrial e diversificação de fornecedores para reduzir vulnerabilidades logísticas.
Em resumo, a emergência de Neros e Perennial no programa do Pentágono sinaliza uma nova fase em que inovação civil‑militar e aquisição em massa transformam capacidades táticas e provocam uma reação estratégica global — exigindo regras, investimentos e alianças para administrar riscos de proliferação e garantir estabilidade operacional.