Neros e Autonomia Perene: A Corrida Decisiva dos Drones do Pentágono que Pode Mudar o Futuro da Guerra Duas startups norte-americanas conquistaram posições de destaque na mais recente etapa da competição de drones do Pentágono, em uma disputa que vai além de desempenho técnico: Washington busca ampliar rapidamente o acesso a aeronaves não tripuladas de baixo custo, produzidas em escala e capazes de operar em ambientes onde as comunicações podem ser interrompidas.
Pedidos ampliam a vantagem das líderes
A Neros Technologies liderou os testes realizados em ambientes confinados, enquanto a Perennial Autonomy ficou em primeiro lugar na categoria de ataques de longo alcance, chamada de “deep-strike”. A classificação tem consequências diretas: o Departamento de Defesa dos Estados Unidos usa os resultados para orientar a distribuição de encomendas, favorecendo as empresas com melhor desempenho.
Com base nessa etapa, o Pentágono encomendou 14 mil drones da Neros e 8 mil da Perennial. A Neros também ficou em terceiro lugar na avaliação de longo alcance, consolidando presença entre as três primeiras colocadas em duas modalidades distintas. Os testes avaliaram capacidades relevantes para operações militares: atuação em espaços restritos e ataques lançados além do alcance das defesas adversárias.
Fundada em 2023 por competidores de corridas de drones, a Neros apresentou o Archer AI, um modelo de dez polegadas com orientação terminal. Segundo a empresa, o sistema pode conduzir o drone até um alvo selecionado pelo operador, um recurso pensado para situações em que a comunicação com a aeronave seja limitada ou negada. O diretor-executivo e cofundador Soren Monroe-Anderson afirmou que a modularidade do equipamento permite adaptá-lo às necessidades dos usuários militares.
A Perennial, também criada em 2023, afirmou que seu sistema foi testado em missões de busca, identificação e engajamento a diferentes distâncias além da linha de visão, tanto durante o dia quanto à noite. A empresa declarou que os testes envolveram condições contestadas e avaliaram a confiabilidade operacional e a capacidade de engajamento autônomo. Essas afirmações refletem a descrição divulgada pela companhia sobre seu desempenho na competição.
As encomendas do programa Drone Dominance não devem ser confundidas com outros acordos firmados pelo Departamento de Defesa. No início de 2026, a Perennial recebeu um contrato de US$ 500 milhões por meio da Joint Interagency Task Force 401, estrutura encarregada de pesquisa, testes e aquisição de tecnologias contra drones. A empresa desenvolveu o Merops, interceptador empregado por forças ucranianas contra drones russos de ataque unidirecional.
Da expansão dos drones à competição industrial
A iniciativa Drone Dominance foi lançada em dezembro de 2025 com a meta de direcionar US$ 1 bilhão ao mercado doméstico de drones e reforçar os estoques militares dos Estados Unidos. O programa procura acelerar a identificação de fornecedores capazes de combinar custo reduzido, qualidade e produção em volume — uma resposta às exigências de um campo de batalha em que aeronaves não tripuladas podem ser empregadas em grande número e substituídas com rapidez.
Essa transformação tem raízes em uma mudança mais ampla na guerra contemporânea. Durante décadas, capacidades aéreas avançadas estiveram associadas sobretudo a plataformas caras, complexas e produzidas em quantidades limitadas. A disseminação de componentes comerciais, sistemas de controle compactos e sensores acessíveis ampliou o universo de atores capazes de operar drones e reduziu algumas barreiras de entrada. O resultado é uma disputa entre tecnologia, escala industrial e capacidade de adaptação.
Os conflitos recentes, em particular a guerra na Ucrânia, deram visibilidade estratégica a essa evolução. Drones de reconhecimento, ataque e interceptação passaram a integrar operações em diferentes escalas, enquanto a defesa contra aeronaves não tripuladas se tornou uma prioridade crescente. A experiência ucraniana também reforçou a importância de sistemas que possam ser produzidos, atualizados e repostos rapidamente — uma lógica que ajuda a explicar o interesse do Pentágono por fornecedores comerciais e por testes comparativos.
O programa norte-americano já concluiu uma fase e meia, conhecida como “Gauntlet”, além de três avaliações operacionais. A Neros terminou em segundo, terceiro e primeiro lugar nas disputas anteriores, e as encomendas acumuladas renderam à companhia aproximadamente US$ 100 milhões, segundo a reportagem original. A próxima etapa, Gauntlet 2.5, começa em outubro e avaliará plataformas de bombardeio. A terceira fase é prevista para a primavera de 2027, com encerramento da competição esperado para o outono do mesmo ano.
Legenda: Fuzileiro naval dos Estados Unidos lança um drone de ataque Archer, da Neros, próximo a Okinawa, no Japão, em setembro de 2026. | Créditos: Lance Cpl. Oscar Ocampo/U.S. Marine Corps
Autonomia, escala e poder estratégico
O avanço da Neros e da Perennial aponta para uma prioridade estratégica de Washington: tornar os drones parte de uma capacidade militar escalável, e não apenas de projetos experimentais ou sistemas especializados. A possibilidade de comprar milhares de unidades sugere que o Pentágono considera o volume um componente central da prontidão, especialmente diante de adversários capazes de empregar aeronaves não tripuladas em grande quantidade.
Essa mudança também tem implicações para a base industrial de defesa. Ao vincular encomendas a resultados de testes, o Departamento de Defesa cria incentivos para que empresas jovens concorram com fornecedores tradicionais e aperfeiçoem rapidamente seus produtos. O modelo pode acelerar a inovação, mas também exige atenção à continuidade da produção, à segurança das cadeias de suprimento, à manutenção e à integração dos equipamentos com as forças armadas.
A orientação terminal e a autonomia em ambientes com comunicações degradadas são particularmente relevantes porque reduzem a dependência de um vínculo constante entre operador e aeronave. Ainda assim, desempenho em testes não equivale automaticamente a eficácia comprovada em todos os cenários de combate. A confiabilidade em campo, a resistência a interferências, a precisão e o controle humano sobre decisões de engajamento permanecem questões centrais para a avaliação militar e política desses sistemas.
Para os Estados Unidos, a competição combina objetivos operacionais e industriais: ampliar estoques, diversificar fornecedores e acelerar a incorporação de tecnologia. Para outras potências, o programa é um sinal de que a corrida por drones não se limita ao desenvolvimento de modelos sofisticados; envolve também a capacidade de fabricar em escala, adaptar projetos com rapidez e sustentar operações prolongadas. Nesse sentido, o resultado da disputa poderá influenciar não apenas quais empresas recebem contratos, mas também como Washington prepara suas forças para conflitos cada vez mais marcados por sistemas não tripulados.