Negociações de fragatas ASW em risco: Bélgica pode abandonar projeto conjunto com Países Baixos! A Bélgica avalia alternativas para substituir sua frota de fragatas antissubmarino diante dos atrasos no programa desenvolvido em parceria com os Países Baixos. Embora Bruxelas ainda negocie com Haia e não tenha anunciado uma saída, a possibilidade de recorrer a navios italianos ou franceses expõe o impasse entre a urgência operacional belga e o cronograma cada vez mais distante do projeto conjunto.

Atrasos colocam a parceria naval sob pressão

As conversas entre Bélgica e Países Baixos continuam, mas o futuro do programa de fragatas de guerra antissubmarino — conhecidas pela sigla ASW, do inglês anti-submarine warfare — tornou-se incerto. A preocupação de Bruxelas é substituir seus dois navios atuais antes que cheguem ao fim da vida útil, previsto para 2030. O primeiro exemplar do novo modelo, porém, não deverá ser entregue antes de 2033, de acordo com a estimativa mais recente do Ministério da Defesa neerlandês.

O chefe da Defesa da Bélgica, general Frederik Vansina, afirmou que o país não pretende impor condições aos Países Baixos, mas precisa garantir a continuidade de sua capacidade naval. Em declarações à agência de notícias neerlandesa ANP, ele ressaltou que as fragatas são os únicos grandes navios de combate da Marinha belga. A busca por fornecedores alternativos, segundo o general, não deve ser interpretada como um gesto hostil contra o parceiro.

Entre as possibilidades examinadas estão as fragatas FREMM EVO, produzidas pela italiana Fincantieri, e os navios FDI, da francesa Naval Group. Uma análise interna da Marinha belga, divulgada pelo veículo VRT, teria apontado a FREMM EVO como a alternativa mais promissora: a empresa poderia entregar o primeiro navio em 2030, enquanto o custo estimado permaneceria dentro do orçamento belga de 3,2 bilhões de euros para três unidades. A opção francesa também é considerada, mas a disponibilidade de prazos é incerta, devido à carteira de encomendas já assumidas pelo estaleiro.

Bruxelas também conversa com Haia sobre uma solução provisória. Uma das hipóteses noticiadas é a entrega, pela Damen, de uma fragata menor que pudesse atuar como medida temporária enquanto os navios definitivos não ficam prontos. A alternativa não resolveria o atraso estrutural do programa, mas poderia reduzir o risco de uma lacuna na capacidade naval belga após a retirada dos navios antigos.

O secretário de Estado neerlandês da Defesa, Derk Boswijk, discutiu o programa e a cooperação marítima bilateral com o ministro da Defesa belga, Theo Francken, em encontro realizado em Bruxelas em 28 de setembro. Os dois descreveram a conversa como construtiva. Em carta ao Parlamento, Boswijk afirmou que, devido à natureza comercialmente confidencial do processo, os governos haviam concordado em não comentar as notícias sobre a parceria.

De projeto compartilhado a cronograma em atraso

A cooperação começou com a intenção de desenvolver uma nova classe de fragatas para renovar as frotas dos dois países. O plano original previa duas unidades para a Marinha neerlandesa e outras duas para a Bélgica, que seriam construídas pela Damen, com sistemas de radar e controle de fogo associados à Thales Nederland. Em 2018, um memorando de entendimento estabeleceu que os navios belgas deveriam ser entregues até 2030.

Naquele período, a expectativa neerlandesa era que a primeira fragata pudesse entrar em serviço por volta de 2025. A previsão foi sendo revista à medida que o projeto avançou. Em 2020, o Ministério da Defesa indicou que seria necessária uma etapa de projeto detalhado de aproximadamente dois anos antes do início da construção e estimou a entrega do primeiro navio em 2027, com entrada em operação no ano seguinte. Em 2023, a previsão de entrega já havia sido deslocada novamente.

O desenho da embarcação também cresceu. O conceito apresentado em 2020 previa um navio com deslocamento de cerca de 5.500 toneladas; o projeto mais recente aproxima-se de 6.400 toneladas. A mudança de escala e a necessidade de corrigir problemas de estabilidade estrutural contribuíram para revisões do desenho e atrasos. No plano de aquisições de 2026, o governo neerlandês passou a prever a entrega da primeira fragata somente a partir de 2033.

Enquanto o calendário se deteriorava, os dois países ampliaram suas encomendas previstas: os Países Baixos informaram em 2024 que duplicariam seu pedido para quatro navios, e a Bélgica anunciou em 2025 que aumentaria o seu para três. O aumento das quantidades reforça a dimensão estratégica e industrial do programa, mas também torna mais relevante a necessidade de compatibilizar prazos, custos e requisitos operacionais.

As fragatas belgas Leopold I e Louise-Marie são antigas embarcações da classe neerlandesa Karel Doorman. Construídas e lançadas na década de 1980, foram adquiridas de segunda mão pela Bélgica em 2005. A proximidade do limite de uso desses navios explica por que o calendário de substituição se tornou um ponto crítico para o governo e para as Forças Armadas belgas.

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Legenda: A fragata belga Leopold I deixa Londres após visita em julho de 2018. | Créditos: Vickie Flores/In Pictures via Getty Images

Decisão pode redesenhar a cooperação naval europeia

O impasse vai além de uma disputa sobre a escolha de um estaleiro. Para a Bélgica, o principal desafio é evitar que a retirada das fragatas atuais deixe o país sem uma capacidade naval de combate equivalente. Para os Países Baixos, a continuidade do programa preserva uma iniciativa bilateral de longo prazo e a perspectiva de padronizar parte das futuras frotas. A divergência está, sobretudo, entre a necessidade belga de receber navios em prazo mais curto e o calendário atual do projeto liderado pela Damen.

Uma eventual escolha belga por um fornecedor alternativo poderia fragmentar a aquisição originalmente concebida em conjunto. Isso teria implicações para a coordenação de treinamento, manutenção, logística e integração de sistemas entre as duas Marinhas. Não significa, por si só, o fim da cooperação bilateral: os governos ainda mantêm conversas e discutem soluções transitórias. Mas uma mudança de fornecedor reduziria o alcance prático da padronização que orientou o programa desde sua concepção.

O caso também ilustra um dilema recorrente na política de defesa europeia: projetos multinacionais podem ampliar escala e cooperação industrial, mas dependem de cronogramas confiáveis e de requisitos compatíveis entre os participantes. Quando atrasos se acumulam, cada governo precisa equilibrar os benefícios de permanecer no programa com a obrigação de preservar suas próprias capacidades militares. No caso belga, a proximidade de 2030 transforma essa escolha em uma questão operacional imediata, e não apenas em uma decisão de aquisição de longo prazo.

Para a segurança marítima europeia e para os compromissos comuns da OTAN, a capacidade de detectar e acompanhar submarinos tem valor estratégico. Fragatas ASW contribuem para esse tipo de missão, além de apoiar a presença naval e a cooperação entre aliados. A notícia, contudo, não indica que a Bélgica tenha decidido abandonar o programa: por enquanto, o país compara alternativas enquanto mantém negociações com os Países Baixos.

Os próximos passos dependerão da possibilidade de reduzir o intervalo entre a saída dos navios antigos e a chegada dos novos, além de conciliar custos e disponibilidade industrial. Se o programa conjunto conseguir oferecer uma solução confiável — inclusive provisória —, a parceria ainda poderá ser preservada. Caso contrário, a Bélgica poderá priorizar uma aquisição separada para assegurar a renovação de sua frota dentro do prazo considerado necessário por suas autoridades militares.