A demonstração pública de armas a laser pela Coreia do Sul, em que sistemas desenvolvidos pela Hanwha abateram três drones durante um exercício do Exército em 14 de outubro de 2026, marca um ponto de inflexão prático na defesa antidrone — combinando redução de custos operacionais, incremento das capacidades de dissuasão territorial e aceleração de um novo mercado de exportação de sistemas de energia dirigida.
Avanço Sul‑Coreano: Lasers abatem drones em exercício e mostram custo‑efetividade
A ação realizada no exercício "Future Warfare Integrated Combat Exercise" apresentou dois sistemas a laser — o estacionário Cheongwang (Laser Air Defense Weapon Block‑I) e uma versão veicular de ~30 kW — que, segundo o fabricante, neutralizaram três alvos em voo. Além da ação direta dos lasers, o evento integrou jamming eletrônico e tiro cinético de um veículo blindado K21, ilustrando a preferência por uma arquitetura de defesa em camadas para neutralizar ameaças aéreas de baixo custo.
Do ponto de vista operacional e econômico, a afirmativa de que cada disparo do Cheongwang sai por cerca de US$ 1,50 realça a assimetria de custos entre sistemas de energia dirigida e interceptadores tradicionais. Esse fator torna lasers atraentes contra drones de baixo preço usados para reconhecimento e ataques por saturação — desde que as condições ambientais, disponibilidade de energia e limitações de alcance sejam gerenciadas.
Apesar do sucesso público, informações-chave permanecem não divulgadas: quais drones foram abatidos por qual sistema, alcance efetivo em diferentes condições meteorológicas e capacidade de resistência a ataques em massa. Esses pontos são relevantes para avaliar performance tática frente a cenários reais, especialmente contra incursões coordenadas ou uso de drones resistentes a dano térmico.
Origens e evolução: Cheongwang, implantação inicial e trajetória tecnológica
O programa Cheongwang foi desenvolvido sob coordenação da Agência para o Desenvolvimento de Defesa da Coreia do Sul e teve sua primeira implantação operacional em dezembro de 2024. Até meados de 2026, o sistema foi instalado em instalações governamentais críticas, segundo fontes locais, consolidando um emprego inicial focalizado em proteção de pontos sensíveis.
Em 2026, a Hanwha exibiu iterações sucessivas: além da versão estacionária operada no exercício, a empresa demonstrou um laser veicular de 30 kW e anunciou projeto de um veículo blindado com laser de 50 kW destinado a clientes externos, com objetivo de iniciar produção até o fim de 2027. Paralelamente, o orçamento de defesa de 2027 prevê recursos para pesquisa de uma versão móvel Block‑II do Cheongwang, indicando continuidade na priorização dessa capacidade.
Legenda: Demonstração do sistema a laser "Cheongwang" durante exercício do Exército sul‑coreano. | Créditos: Hanwha Systems
Repercussões regionais e globais: segurança, exportação e riscos de proliferação
Geopoliticamente, a operacionalização de armas a laser pela Coreia do Sul influencia o equilíbrio regional de várias maneiras. No curto prazo, melhora a capacidade de defesa contra incursões de drones vindas da Coreia do Norte, cujo histórico de violações aéreas suscita vulnerabilidades nas defesas convencionais. O resultado é uma amplificação do efeito dissuasório sobre operações de baixa intensidade e de propaganda por meio de UAS (Unmanned Aerial Systems).
No médio prazo, a oferta comercial planejada pela Hanwha para Europa, Ásia e Oriente Médio pode acelerar a difusão dessa tecnologia, estimulando concorrência em mercados de defesa e fomentando respostas tecnológicas por atores regionais — incluindo aquisição de contramedidas, modernização de defesas e, possivelmente, desenvolvimento de capacidades ofensivas por países em conflito assimétrico.
Há, entretanto, limites e riscos: sistemas a laser dependem de fornecimento de energia, condições atmosféricas (chuva, fumaça, neblina) e de uma cadeia logística para manutenção e integração com sensores e guerra eletrônica. Além disso, a proliferação pode provocar uma corrida por contramedidas — drones revestidos, designs redundantes, emprego de enxames para saturar pontos de defesa — elevando complexidade e custos operacionais.
Para atores aliados e potenciais compradores, a lição estratégica é que a incorporação de lasers exige uma abordagem integrada: combinar energia dirigida com ISR (inteligência, vigilância e reconhecimento), EW (guerra eletrônica) e interceptores cinéticos para obter resiliência frente a diversos perfis de ameaça. Para os formuladores de política, recomenda‑se monitorar exportações, estabelecer normas técnicas e operacionais, e prever cooperação entre fornecedores e parceiros para mitigar riscos de escalada e usos maliciosos.