Inovação na Guerra: Como a IA Está Transformando a Comunicação entre Drones no Campo de Batalha da Ucrânia — Uma empresa neerlandesa está usando inteligência artificial para integrar radares, sensores e drones em uma mesma plataforma de comando, uma capacidade que pode acelerar a resposta a ataques russos e expõe uma das disputas centrais da guerra: quem consegue conectar e adaptar seus sistemas militares com maior rapidez.
IA integra sensores e acelera a defesa aérea
Em um teste realizado no fim de setembro em uma antiga base aérea neerlandesa, a empresa de software Intelic demonstrou o Nexus, sistema que reúne informações de diferentes radares, sensores e câmeras. A plataforma identificou um objeto como possível ameaça e usou reconhecimento de imagem, com apoio de um drone de reconhecimento, para verificar se o alvo simulado era hostil. Em seguida, um drone interceptador foi lançado contra ele.
Na demonstração, a decisão final de disparar permaneceu nas mãos de um operador humano. Segundo Maurits Korthals Altes, fundador e executivo-chefe da Intelic, o sistema pode oferecer apoio à decisão em situações nas quais os comandantes dispõem de poucos segundos para avaliar uma ameaça. A empresa também afirma que determinadas funções poderiam operar de forma autônoma, embora o teste descrito tenha mantido a autorização humana para o lançamento.
A diferença é importante: o Nexus não substitui, por si só, os sensores ou as armas. Seu papel é servir como uma camada de integração entre equipamentos de diferentes fabricantes, organizando dados e permitindo que operadores acompanhem e acionem componentes por meio de uma interface comum. Na prática, busca reduzir atrasos causados por sistemas que não compartilham informações de maneira direta.
A plataforma está sendo implementada na Ucrânia e complementa o Delta, sistema de gestão do campo de batalha desenvolvido pelo próprio país. A integração também responde a uma realidade operacional: decisões sobre ameaças ainda podem circular por aplicativos de mensagens ou chamadas telefônicas. Em um cenário de ataques rápidos, encurtar o intervalo entre detecção, identificação e resposta pode ser decisivo — sem eliminar, porém, os riscos de erro, falha técnica ou identificação incorreta.
A Intelic tem um contrato de 30 milhões de euros com o Ministério da Defesa dos Países Baixos para modernizar capacidades de defesa aérea. A iniciativa insere a empresa em um esforço europeu mais amplo de desenvolvimento de tecnologias para a Ucrânia, país que enfrenta ataques combinados de drones e mísseis e depende de defesas capazes de acompanhar a evolução das ameaças.
Da invasão em 2022 à corrida por interoperabilidade
Desde a invasão em larga escala da Rússia, em 2022, drones passaram a desempenhar funções cada vez mais relevantes na vigilância, no reconhecimento e nos ataques. A expansão de seu uso acelerou a inovação militar e transformou a capacidade de detectar, compartilhar dados e responder a alvos móveis em parte essencial da defesa. O desafio não é apenas produzir mais equipamentos, mas fazê-los funcionar em conjunto sob pressão e em condições de combate.
Esse desafio é particularmente visível na Europa, onde há centenas de fabricantes de drones e sistemas distintos. Anika Kempter, engenheira sênior de software da Intelic, afirmou que o continente conta com mais de 700 empresas do setor. Para as forças ucranianas, a variedade pode significar acesso a diferentes capacidades fornecidas por aliados, mas também a necessidade de lidar com aparelhos, interfaces e redes que nem sempre são compatíveis.
A interoperabilidade tornou-se, assim, uma questão estratégica. Se cada equipamento opera isoladamente, operadores podem perder tempo alternando entre telas, transmitindo informações manualmente ou confirmando dados por canais separados. Uma plataforma que conecte sistemas diversos pode simplificar o comando e ampliar a velocidade de reação. O benefício, contudo, depende da confiabilidade da rede, da qualidade dos dados e da capacidade de proteger comunicações em um ambiente sujeito a interferência e ataques cibernéticos.
O apoio neerlandês à Ucrânia combina essa dimensão tecnológica com assistência material. Desde 2022, os Países Baixos forneceram mais de 12,5 bilhões de euros em ajuda militar, incluindo quase 1 milhão de drones, segundo o Ministério da Defesa do país. O governo também destinou cerca de 1,4 bilhão de euros ao programa ucraniano de drones, de acordo com os dados citados pelo Instituto Kiel, centro alemão que acompanha a assistência à Ucrânia.
Os números indicam uma expansão acelerada do investimento europeu. Conforme o Instituto Kiel, a ajuda europeia destinada a drones passou de 400 milhões de euros em 2022 para 1,2 bilhão em 2025. Nos primeiros quatro meses de 2026, chegou a 1,6 bilhão de euros. Alemanha e Reino Unido também estão entre os principais contribuintes europeus, em um esforço que combina apoio à defesa ucraniana e fortalecimento da indústria militar do continente.
O teste neerlandês ilustra uma transição mais ampla: da aquisição de plataformas isoladas para a construção de redes capazes de integrar sensores, sistemas de comando e meios de interceptação. A guerra na Ucrânia tornou essa adaptação urgente, porque equipamentos e táticas podem perder eficácia à medida que o adversário muda altitude, velocidade, trajetória ou perfil de ataque. A Intelic sustenta que o software pode facilitar a incorporação de novas armas à plataforma, reduzindo a dependência de substituir todo o conjunto a cada mudança tecnológica.
Legenda: Engenheiro segura um drone interceptador durante teste do sistema de inteligência artificial Nexus nos Países Baixos. | Créditos: Piroschka van de Wouw/Reuters
Autonomia, soberania e a disputa pela defesa aérea
O avanço do Nexus tem implicações que vão além de uma ferramenta de comando. Para a Ucrânia, integrar sistemas de diferentes origens pode ampliar o valor operacional dos equipamentos recebidos de aliados e reduzir o tempo necessário para coordenar uma resposta. Para os países europeus, a experiência reforça a necessidade de desenvolver padrões comuns e manter capacidade própria de inovação, em vez de depender exclusivamente de tecnologias externas.
Essa busca por autonomia industrial, no entanto, precisa conciliar diversidade e padronização. Uma base ampla de fornecedores pode estimular concorrência e acelerar soluções, mas a falta de compatibilidade cria custos de integração e pode gerar pontos frágeis na cadeia de comando. A capacidade de conectar sistemas sem comprometer a segurança das comunicações tende a ser tão estratégica quanto o desempenho individual de cada drone ou radar.
O fator tempo está no centro dessa disputa. A empresa afirma que a automação pode reduzir minutos entre a detecção de um drone e a tentativa de interceptá-lo. Esse ganho potencial é relevante diante de alvos velozes, mas não significa que a inteligência artificial garanta uma interceptação bem-sucedida. A eficácia depende de sensores, comunicação, regras de engajamento, treinamento dos operadores e disponibilidade de interceptadores — além da precisão com que a ameaça é classificada.
A preocupação ganhou dimensão com o uso russo de drones de ataque a jato e de mísseis. Segundo o primeiro-ministro ucraniano Sergii Koretskyi, nas três primeiras semanas de setembro a Rússia lançou 2.100 drones desse tipo e 136 mísseis contra a Ucrânia, em ataques que, segundo ele, mataram 288 pessoas. Os dados foram atribuídos ao premiê e evidenciam a pressão sobre as defesas ucranianas, sem que uma única tecnologia possa, isoladamente, resolver o problema.
Do ponto de vista geopolítico, o apoio europeu à Ucrânia também funciona como um teste para a capacidade de cooperação militar do continente. A guerra estimula governos e empresas a desenvolver soluções que possam ser atualizadas rapidamente e operadas em conjunto. Se a integração funcionar em condições reais, poderá influenciar futuras aquisições e padrões de interoperabilidade europeus; se falhar, ficará evidente que conectar sistemas diferentes exige mais do que uma interface comum.
O avanço da inteligência artificial no campo de batalha traz, ainda, uma questão de responsabilidade. A automatização pode apoiar decisões sob pressão, mas a classificação de um alvo e a autorização do uso da força envolvem riscos humanos e estratégicos. No teste neerlandês, a decisão final permaneceu com uma pessoa. A eventual ampliação da autonomia exigirá critérios claros sobre supervisão, confiabilidade e responsabilização, especialmente em um ambiente no qual segundos podem separar uma interceptação de um erro com consequências graves.
Por ora, a principal transformação promovida pelo Nexus é a tentativa de fazer diferentes sistemas “falarem” entre si. Na guerra da Ucrânia, essa capacidade pode reduzir atrasos e tornar mais flexível a defesa aérea, enquanto expõe um novo eixo da competição militar: não apenas quem dispõe de mais drones, mas quem consegue combinar dados, operadores e equipamentos em uma rede adaptável. A velocidade de inovação, e não somente o volume de armamentos, será determinante para responder a ameaças que mudam continuamente.