Governo do Iémen inicia ofensiva decisiva para retomar áreas dominadas pelos Houthis apoiados pelo Irã — O governo iemenita internacionalmente reconhecido anunciou uma ampla operação militar para tentar recuperar territórios controlados pelos Houthis, em meio a uma escalada que ameaça ampliar o conflito no Oriente Médio e pressionar uma das rotas marítimas mais importantes do planeta. A ofensiva, porém, começa em um cenário desfavorável às forças governistas: os rebeldes avançaram recentemente pelo litoral do Mar Vermelho e reivindicaram ataques contra instalações petrolíferas na Arábia Saudita.
Ofensiva busca reverter avanço rebelde
O Conselho de Liderança Presidencial do Iêmen, apoiado por Riad e reconhecido internacionalmente, anunciou em 4 de outubro de 2026 uma campanha militar para retomar as áreas sob controle dos Houthis, também conhecidos como Ansar Allah. Em pronunciamento televisionado, o presidente iemenita, Rashad al-Alimi, afirmou que as forças do governo continuariam a ofensiva até libertar o país do domínio do grupo. Um porta-voz militar também pediu que os combatentes houthis depusessem as armas.
Al-Alimi declarou que a decisão foi tomada depois de esgotadas as possibilidades de reduzir a tensão por meio de negociações. O presidente agradeceu o apoio saudita e pediu ajuda de aliados regionais e parceiros internacionais às forças e às instituições do governo. A declaração sinaliza uma mudança de postura: de uma trégua que, embora frágil, havia contido parte dos combates, para uma tentativa de recuperar território pela força.
O anúncio ocorreu no mesmo dia em que os Houthis afirmaram ter lançado mísseis balísticos e drones contra instalações da Saudi Aramco em Riad e na região de Khurais. O grupo disse que os ataques responderam a cerca de 50 bombardeios sauditas contra alvos no Iêmen nas 12 horas anteriores. Até a publicação das informações, não havia confirmação imediata das autoridades sauditas sobre os danos ou a extensão dos ataques reivindicados.
A iniciativa governista surge após uma rápida ofensiva houthi no mês anterior, que, segundo a notícia, levou à captura do estreito de Bab el-Mandeb e de aproximadamente 145 quilômetros da costa do Mar Vermelho. O avanço teria provocado o colapso de posições governistas e ampliado a capacidade dos rebeldes de influenciar a navegação internacional. Nos dias que antecederam o anúncio, forças houthis também teriam conquistado posições elevadas próximas a Taiz, avançando em direção à estrada que liga a cidade a Áden.
O controle dessa via pode isolar Taiz, terceira maior cidade do país, onde vivem centenas de milhares de civis e estão posicionadas tropas governistas. A importância da localidade é militar e política: além de sua localização, ela é a região de origem de Al-Alimi. Um cerco poderia enfraquecer ainda mais a autoridade do governo e agravar uma crise humanitária que já afeta milhões de pessoas.
Da revolta de 2011 à divisão territorial
A atual guerra tem raízes na crise política que se seguiu aos levantes da Primavera Árabe, em 2011. Os Houthis, movimento armado formado principalmente por muçulmanos xiitas zaiditas, ganharam força durante o período de instabilidade e tomaram a capital, Sanaa, em 2014. Desde então, mantêm o controle da cidade e de extensas áreas do noroeste, onde se concentra grande parte da população iemenita.
A tomada de Sanaa fragmentou o país. O Conselho de Liderança Presidencial, reconhecido pelas Nações Unidas e apoiado pela Arábia Saudita, estabeleceu sua base em Áden e manteve influência sobretudo no sul e no leste. A disputa não se resume, contudo, a dois lados: diferentes facções armadas e forças locais operam no território, muitas vezes apoiadas por potências regionais e internacionais com interesses distintos.
Em 2015, a Arábia Saudita liderou uma coalizão árabe que interveio na guerra em apoio ao governo. Apesar de anos de ataques e da participação de aliados, a campanha não conseguiu derrotar os Houthis, que conservaram Sanaa e ampliaram suas capacidades militares, com apoio iraniano segundo autoridades e relatos internacionais. Uma trégua acordada em 2022 reduziu os combates em várias frentes e permaneceu, em grande medida, vigente até a nova escalada descrita nas informações mais recentes.
O conflito iemenita passou a se conectar ainda mais diretamente à rivalidade regional após o início, em fevereiro, da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, conforme relatado pela notícia. Nesse contexto, os Houthis lançaram ataques com mísseis e drones e avançaram em áreas costeiras estratégicas. A disputa local tornou-se, assim, parte de uma crise mais ampla, na qual ações contra infraestrutura energética e rotas marítimas podem repercutir muito além das fronteiras do Iêmen.
O estreito de Bab el-Mandeb, na saída sul do Mar Vermelho, é um corredor essencial para o transporte entre o Mediterrâneo e a Ásia. Sua relevância aumentou ainda mais diante das perturbações no estreito de Hormuz, do outro lado da Península Arábica. Qualquer ameaça à passagem de navios pode elevar custos de seguro e frete, alterar rotas comerciais e ampliar a pressão sobre mercados de energia e cadeias de abastecimento.
Legenda: Forças do governo iemenita patrulham uma estrada próxima à linha de frente com combatentes houthis. | Créditos: Ebrahim Al-Suhaibi/Reuters
Riscos para a região e para a navegação
A ofensiva anunciada por Sanaa pode abrir uma nova etapa da guerra, mas não significa que o governo esteja perto de recuperar o território perdido. Os Houthis demonstraram capacidade de mobilização e mantêm posições estratégicas no norte e no litoral. Além disso, o fracasso de campanhas anteriores lideradas pela Arábia Saudita recomenda cautela diante de declarações de vitória antecipada: a superioridade aérea ou o apoio externo, por si só, não garantem controle duradouro sobre áreas disputadas.
De acordo com informações citadas pela Reuters, autoridades regionais e ocidentais vinham discutindo uma operação contra os Houthis, com a Arábia Saudita assumindo a condução dos ataques aéreos e forças iemenitas atuando em terra. Os Estados Unidos estariam fornecendo inteligência para apoiar as operações de Riad, enquanto países europeus e da região ofereceriam principalmente assistência defensiva ao reino. Esse envolvimento pode reforçar as capacidades do governo, mas também aumenta o risco de que a guerra se transforme em um confronto regional mais amplo.
Para a Arábia Saudita, a segurança de sua infraestrutura petrolífera e das rotas comerciais está diretamente em jogo. Os ataques reivindicados pelos Houthis contra instalações da Aramco, ainda sem confirmação saudita no momento do relato, mostram como o conflito pode alcançar ativos econômicos críticos. Para Washington e seus parceiros, a questão envolve tanto a proteção da navegação quanto o risco de comprometer recursos militares em um momento de tensão simultânea com o Irã.
O impacto mais imediato recai sobre a população civil. O avanço dos combates já deslocou dezenas de milhares de pessoas e interrompeu o abastecimento de milhões, segundo os dados apresentados na notícia. O Programa Mundial de Alimentos alertou que três em cada quatro famílias em algumas áreas do Iêmen enfrentam fome. Um eventual cerco a Taiz poderia agravar a escassez de alimentos, dificultar o acesso a serviços essenciais e elevar o número de pessoas obrigadas a deixar suas casas.
O resultado da campanha dependerá não apenas do desempenho militar, mas também da capacidade do governo de coordenar facções aliadas, sustentar suas posições e impedir que disputas internas enfraqueçam a ofensiva. Do lado houthi, o controle de corredores costeiros e de pontos de passagem oferece instrumentos de pressão que podem ser usados tanto no campo de batalha quanto em negociações. Sem um arranjo político capaz de reduzir a fragmentação do país, ganhos territoriais poderão ser temporários e acompanhados por novos ciclos de violência.
O anúncio de Al-Alimi representa, portanto, uma aposta de alto risco: recuperar iniciativa e legitimidade enquanto o governo enfrenta um adversário fortalecido e uma crise humanitária profunda. A evolução dos combates em torno de Bab el-Mandeb e Taiz será decisiva para medir se a operação pode alterar o equilíbrio interno ou se, ao contrário, ampliará a instabilidade no Iêmen e as ameaças à navegação no Mar Vermelho.