Futuro da Defesa Europeia em Jogo: Drones Avançados e Blindagem Pesada no Radar dos Líderes A guerra na Ucrânia está redesenhando as prioridades militares da Europa: governos buscam incorporar drones e sistemas contra drones às forças armadas sem abrir mão de tanques, veículos blindados e capacidade de combate terrestre. No flanco oriental da Otan, a combinação entre inovação tecnológica, produção local e cooperação com Kiev tornou-se parte central dos planos de dissuasão.
Drones e blindados dividem o centro da estratégia
Autoridades europeias reunidas no Fórum de Segurança de Varsóvia defenderam uma modernização militar que não trate drones e blindados como alternativas concorrentes. A avaliação é que os sistemas não tripulados ampliam a vigilância, o reconhecimento e a capacidade de ataque, enquanto veículos pesados continuam essenciais para proteger tropas e sustentar operações terrestres de grande escala.
A ministra da Defesa dos Países Baixos, Dilan Yeşilgöz-Zegerius, destacou a cooperação com a Ucrânia no desenvolvimento e no uso de drones. Segundo ela, as forças armadas neerlandesas treinam com base na experiência ucraniana, enquanto o país também procura fortalecer sua própria indústria de defesa — setor que, em sua avaliação, foi enfraquecido por anos de investimento insuficiente em partes da Europa.
A aproximação entre empresas europeias e ucranianas pode acelerar a adaptação de equipamentos às condições atuais de combate. A guerra tem imposto ciclos rápidos de inovação: sistemas, contramedidas e métodos operacionais precisam ser revistos à medida que o adversário desenvolve novas formas de detectar, interferir ou neutralizar tecnologias não tripuladas.
Esse ritmo também pressiona governos a rever a forma como contratam armamentos. Dovilė Šakalienė, ex-ministra da Defesa da Lituânia e atualmente parlamentar, defendeu contratos que permitam incorporar tecnologias mais recentes durante a produção dos equipamentos, em vez de limitar as forças armadas a especificações que podem ficar defasadas antes mesmo da entrega.
Da experiência ucraniana à modernização do flanco oriental
A atual combinação de sistemas avançados e forças convencionais tem raízes em uma transformação mais ampla da segurança europeia. Desde o fim da Guerra Fria, muitos países reduziram ou reorganizaram suas capacidades terrestres, concentrando recursos em forças menores e mais móveis. A invasão russa em larga escala da Ucrânia, em 2022, recolocou no centro do debate a possibilidade de conflitos prolongados, com consumo elevado de munições, necessidade de reposição de equipamentos e operações envolvendo grandes formações militares.
O campo de batalha ucraniano também demonstrou que a difusão de drones não elimina a importância dos veículos blindados. A tecnologia pode localizar forças, orientar ataques e ampliar a consciência situacional, mas tropas que avançam ou defendem posições continuam expostas a fogo direto, artilharia e ameaças aéreas. Por isso, a proteção dos veículos e a integração de sistemas contra drones passaram a ser consideradas parte da evolução dos blindados.
Na Lituânia, a aquisição planejada de veículos blindados de transporte de pessoal com tração 6x6, fabricados pela finlandesa Patria, ilustra a tentativa de vincular compras militares à participação industrial nacional. O ministro da Defesa, Robertas Kaunas, afirmou que o país deseja ir além da montagem e participar também de atividades de pesquisa e desenvolvimento. Os veículos devem apoiar a Divisão Nacional lituana, principal unidade de combate terrestre do país.
Vilnius também procura garantir que os novos equipamentos acompanhem a evolução tecnológica. O acordo de 2024 para a compra de 44 tanques Leopard 2A8 prevê, segundo Šakalienė, a inclusão de sistemas de defesa contra drones em uma versão disponível na fase de montagem dos veículos. A lógica é reduzir o risco de receber plataformas concebidas com recursos que já não correspondam às ameaças existentes quando forem incorporadas às forças armadas.
Kaunas relacionou a integração entre blindados e drones às lições da guerra na Ucrânia. Ele afirmou que forças ucranianas adaptaram tanques com recursos adicionais de proteção contra drones, usando-os para ampliar a segurança dos soldados próximos à linha de frente. Ainda assim, Šakalienė alertou que manobras terrestres em grande escala não podem depender exclusivamente de sistemas não tripulados.
Legenda: Militares portugueses participam de exercício com tanque e drone no campo de Santa Margarida. | Créditos: Patricia de Melo Moreira / AFP via Getty Images
Indústria de defesa e dissuasão no flanco oriental
Para os países que fazem fronteira com a Rússia, a modernização militar tem uma dimensão que vai além da compra de equipamentos: trata-se de reforçar a capacidade de defesa da Otan no leste europeu e, ao mesmo tempo, consolidar uma base industrial capaz de produzir, manter e adaptar sistemas em território nacional. A participação local pode reduzir dependências externas, gerar conhecimento técnico e facilitar a reposição de equipamentos em períodos de crise.
A Polônia, anfitriã do fórum, procura ampliar seu papel de compradora para se tornar também exportadora de material militar. Esse objetivo atrai empresas estrangeiras interessadas em grandes contratos e em estabelecer uma presença industrial no país. Vince Logsdon, vice-presidente de desenvolvimento internacional de negócios da Boeing Defense, Space and Security, elogiou a força de trabalho polonesa e afirmou que a companhia pretende ampliar sua equipe no país, onde já conta com cerca de mil funcionários.
A Boeing vendeu à Polônia 96 helicópteros de ataque AH-64E Apache em um acordo de aproximadamente US$ 10 bilhões, fechado em 2024. A empresa também oferece o helicóptero pesado CH-47 Chinook às forças armadas polonesas, apresentando-o como complemento aos Apaches para transporte de tropas e apoio logístico. A proposta reforça a tendência de planejar plataformas como parte de conjuntos operacionais, em vez de avaliar cada aquisição de forma isolada.
O debate em Varsóvia revela uma escolha estratégica que não é propriamente entre tecnologia de ponta e armamento convencional. O desafio europeu é combinar drones, meios de defesa contra drones, blindados, helicópteros e capacidade industrial em uma força integrada, capaz de operar em diferentes escalas de conflito. A experiência ucraniana influencia essa agenda, mas cada país ainda precisa equilibrar urgência operacional, custos, produção doméstica e interoperabilidade com os aliados.
Para a Otan, a consequência será medida pela capacidade de transformar anúncios e contratos em forças prontas, abastecidas e coordenadas. Drones podem ampliar o alcance e a velocidade das operações; tanques e veículos protegidos continuam oferecendo mobilidade e proteção às tropas; e a indústria local pode sustentar ambos. A segurança do flanco oriental dependerá, portanto, não de uma tecnologia isolada, mas da integração entre inovação, poder terrestre e cooperação entre aliados.