Forças Armadas dos EUA buscam parcerias inovadoras com a indústria em áreas de teste militar — O Exército norte-americano já abriu cinco instalações de teste a empresas autorizadas, e a Força Aérea avalia adotar iniciativa semelhante. A aproximação pretende acelerar a avaliação de tecnologias militares, mas também exige controles rigorosos para proteger capacidades sensíveis contra vigilância e vazamento de informações.
Força Aérea avalia ampliar o acesso a campos de teste
A Força Aérea dos Estados Unidos está estudando como permitir que empresas privadas utilizem suas áreas de teste, seguindo o modelo que o Exército começou a implementar. A possibilidade foi apresentada pelo brigadeiro-general Mark Massaro, comandante do Centro de Testes da Força Aérea, durante um fórum do Mitchell Institute for Aerospace Studies, realizado na terça-feira, 6 de outubro.
Segundo Massaro, a Força Aérea mantém conversas com autoridades do Comando de Testes e Avaliação do Exército para compreender como o acesso empresarial foi estruturado e quais oportunidades podem ser adaptadas ao serviço aéreo. A declaração indica que a proposta está em avaliação: até o momento, não foi anunciada uma decisão de abrir instalações da Força Aérea de forma ampla à indústria.
O general afirmou que a experiência acumulada em uma função anterior, como comandante da 96ª Ala de Testes na Base Aérea de Eglin, na Flórida, incluiu acordos de menor escala para permitir que contratadas realizassem testes específicos. Esse trabalho, segundo ele, produziu aprendizados que podem orientar uma eventual expansão do modelo.
A lógica por trás da iniciativa é reduzir obstáculos entre o desenvolvimento de uma tecnologia e sua avaliação em condições militares relevantes. Empresas do setor de defesa já investem em pesquisa e desenvolvimento próprios; o acesso a instalações especializadas poderia ajudá-las a testar soluções com maior rapidez e a apresentar ao governo tecnologias mais maduras para possível uso pelas Forças Armadas.
O Exército disponibilizou cinco locais para empresas aprovadas por meio de um portal de inscrição. Nos Estados Unidos, a lista inclui o Dugway Proving Ground, em Utah; o West Cibola Range, parte do Yuma Proving Ground, no Arizona; o Camp Shelby Joint Forces Training Center, no Mississippi; e o Camp Grayling Joint Maneuver Training Center, em Michigan. A quinta instalação é o complexo de treinamento multidomínio do Africa Multidomain Training and Experimentation Center, no Marrocos.
A abertura, anunciada pelo Exército neste ano, busca encurtar o caminho entre a concepção de um equipamento e sua validação em campo. O ex-secretário do Exército Dan Driscoll afirmou que o processo tradicional de testes poderia levar até 18 meses, enquanto o novo arranjo teria potencial para reduzir esse prazo a cerca de 30 dias. A estimativa foi apresentada por Driscoll como objetivo da iniciativa, e não como garantia de que todos os testes terão a mesma duração.
Entre os recursos destacados pelo ex-secretário estão ambientes que empresas dificilmente conseguiriam reproduzir por conta própria, como áreas configuradas para simular condições de um campo de batalha na Ucrânia e espaços destinados a testar armas hipersônicas e tecnologias contra interferência eletrônica. A proposta é oferecer às companhias condições mais realistas para avaliar desempenho, limitações e integração operacional.
Da experiência pontual à cooperação estruturada
A relação entre forças armadas e indústria de defesa não é nova, mas a iniciativa sinaliza uma mudança na forma de organizar parte dessa cooperação. Em vez de depender exclusivamente de processos centralizados e demorados para acessar instalações militares, empresas aprovadas poderiam solicitar entrada por um canal dedicado e testar soluções em ambientes controlados pelas próprias Forças Armadas.
A experiência relatada por Massaro em Eglin mostra que já havia iniciativas específicas de colaboração entre militares e contratadas. A novidade em discussão é a possibilidade de transformar práticas pontuais em um modelo mais abrangente, com regras de acesso e procedimentos capazes de atender a diferentes empresas e projetos. O precedente do Exército oferece à Força Aérea um caso concreto para avaliar benefícios, custos e riscos antes de avançar.
Historicamente, a velocidade com que uma força consegue testar e incorporar novas capacidades influencia sua preparação militar. No cenário atual, em que sistemas não tripulados, sensores, comunicações e métodos de guerra eletrônica evoluem rapidamente, a distância entre desenvolvimento comercial e emprego militar pode se tornar decisiva. O acesso a campos de teste busca diminuir essa distância sem dispensar a avaliação operacional e os mecanismos de segurança.
O modelo, contudo, não elimina as etapas de aquisição nem significa que uma tecnologia testada será automaticamente comprada ou incorporada. A finalidade descrita pelas autoridades é permitir que empresas demonstrem o funcionamento de seus produtos e avancem no desenvolvimento. A decisão sobre adoção militar continua sujeita às necessidades das forças, às avaliações técnicas e aos processos de contratação.
Também há diferenças entre os ambientes do Exército e da Força Aérea. Instalações de teste aéreo podem envolver aeronaves, sistemas de vigilância, espaço aéreo controlado e capacidades cuja exposição teria consequências próprias. Por isso, a experiência do Exército pode servir como referência, mas não necessariamente será reproduzida sem ajustes. As declarações públicas de Massaro apontam para uma fase de análise e intercâmbio institucional, não para um plano já definido.
Legenda: Enxame de drones retorna de uma missão em Fort Bragg, na Carolina do Norte, em 15 de setembro de 2026. | Créditos: Pfc. Iliana Lopez/U.S. Army
Vantagem tecnológica e riscos de exposição
Do ponto de vista geopolítico, a aproximação entre forças armadas e empresas responde a uma disputa por velocidade de inovação. Ao facilitar testes em escala e em condições realistas, os Estados Unidos procuram ampliar a capacidade de transformar pesquisa privada em soluções potencialmente úteis para suas tropas. O objetivo estratégico é fortalecer o fluxo de inovação, sem depender apenas dos ciclos tradicionais de desenvolvimento militar.
Essa abertura também pode ampliar o número de empresas capazes de contribuir para projetos de defesa. Companhias com tecnologias promissoras, mas sem acesso a campos de teste complexos, poderiam demonstrar suas soluções em instalações que reproduzem desafios militares. Se os processos forem eficientes, a iniciativa poderá tornar mais rápido o reconhecimento de tecnologias relevantes e ajudar as Forças Armadas a identificar limitações antes de considerar sua adoção.
O ganho potencial vem acompanhado de uma vulnerabilidade: a exposição de atividades de teste. Massaro reconheceu que adversários podem obter imagens e informações a partir de plataformas aéreas, um risco ampliado pela presença crescente de drones. Instalações militares e testes de tecnologias sensíveis podem se tornar alvos de observação, tornando a proteção de dados e a gestão do espaço aéreo elementos centrais de qualquer parceria.
O comandante afirmou que a Força Aérea considera ameaças à segurança da informação e procura desenhar procedimentos de teste que levem esses riscos em conta. Na prática, isso exige equilibrar acesso empresarial e proteção operacional: permitir que contratadas trabalhem em ambientes úteis sem revelar capacidades, métodos ou vulnerabilidades que possam beneficiar potenciais adversários.
Há ainda um desafio de governança. Um sistema de acesso mais simples pode reduzir a burocracia, mas precisa definir critérios para selecionar empresas, limitar a exposição de informações e estabelecer responsabilidades durante os testes. A promessa de acelerar a inovação depende não apenas da disponibilidade de campos de prova, mas também de regras capazes de preservar a segurança e garantir avaliações tecnicamente confiáveis.
A decisão da Força Aérea será observada porque pode indicar se a experiência do Exército se tornará uma política mais ampla de abertura de instalações militares à indústria. Por ora, o movimento permanece em estudo. Seu resultado dependerá da capacidade de conciliar três prioridades: acelerar a inovação, manter o controle sobre tecnologias sensíveis e converter testes bem-sucedidos em capacidades efetivamente relevantes para as forças norte-americanas.