Exército dos EUA se prepara para criar segundo batalhão cibernético em breve: entenda a importância dessa movimentação — O Exército dos Estados Unidos pretende iniciar nos próximos meses a formação de uma segunda unidade expedicionária dedicada a operações cibernéticas e de guerra eletromagnética. A iniciativa amplia uma capacidade ainda recente nas forças terrestres americanas: atuar no espectro digital e de rádio junto às tropas em campo, em um cenário no qual comunicações, sensores e sistemas não tripulados se tornaram elementos centrais das operações militares.
Nova unidade deve ampliar a atuação cibernética em campo
O novo batalhão deverá reproduzir a missão do 11º Batalhão de Guerra Cibernética, conhecido como Leviathans. Segundo o tenente-general Christopher Eubank, comandante do Exército para operações cibernéticas, a unidade começará a ser estabelecida “em ritmo efetivo” nos próximos meses. A expectativa é que alcance capacidade operacional inicial dentro de aproximadamente um ano e, depois, avance até sua capacidade plena.
A decisão representa uma expansão da estrutura que o Exército utiliza para preparar e mobilizar equipes expedicionárias de ciberespaço e guerra eletromagnética. Na prática, essas equipes podem apoiar unidades terrestres em operações que envolvam redes digitais, frequências de rádio e outros elementos do ambiente eletromagnético. A notícia, porém, não informa o efetivo previsto para o novo batalhão, onde ficará sediado nem qual será seu orçamento.
O 11º Batalhão está atualmente apoiando a Força-Tarefa Conjunta da Fronteira Sul. De acordo com Eubank, a unidade fornece efeitos cibernéticos habilitados por radiofrequência conforme orientação do comandante de divisão. A informação aponta para o emprego dessas capacidades em apoio a uma estrutura operacional específica, mas não detalha quais sistemas ou ações estão envolvidos.
O valor militar dessa abordagem está na integração entre efeitos digitais e operações convencionais. Em um campo de batalha conectado, interferências em comunicações, sensores ou sistemas de controle podem afetar a percepção da situação e a coordenação das forças. Ao levar equipes especializadas para mais perto das unidades terrestres, o Exército busca inserir essas ferramentas no planejamento tático, em vez de tratá-las apenas como recursos remotos ou separados da manobra.
O caráter expedicionário também é relevante: significa preparar equipes capazes de acompanhar forças em diferentes ambientes de operação. Isso não equivale, por si só, a uma capacidade irrestrita de ataque digital. A descrição oficial destaca efeitos não letais e não cinéticos, associados a atividades no ciberespaço e à guerra eletrônica. O alcance concreto das missões dependerá de autorizações, objetivos operacionais e regras de emprego que não foram detalhados no anúncio.
Da unidade experimental à expansão da capacidade
A trajetória do 11º Batalhão ajuda a explicar por que sua duplicação é significativa. A estrutura que o antecedeu foi ativada em junho de 2018 como 915º Batalhão de Guerra Cibernética. Em 16 de outubro de 2022, a unidade foi rebatizada e ativada como o 11º Batalhão, apresentado pelo Exército como uma capacidade expedicionária escalável para atender a necessidades cibernéticas presentes e futuras.
Desde a criação, a unidade foi concebida para desenvolver e levar ao terreno recursos que combinam operações no ciberespaço e guerra eletromagnética. O plano anunciado pelo Exército previa formar 12 equipes expedicionárias vinculadas ao batalhão até setembro de 2027. A criação de uma segunda unidade pode ampliar a capacidade de treinamento, experimentação e mobilização, embora as informações disponíveis não indiquem como as equipes serão divididas entre os dois batalhões.
O trabalho do 11º também se conecta à modernização mais ampla das forças terrestres. Entre julho de 2025 e julho de 2026, desenvolvedores ligados à unidade colaboraram com especialistas da 780ª Brigada de Inteligência Militar em um projeto de tecnologia para drones. A iniciativa fazia parte do programa “Transforming in Contact”, que busca colocar novas tecnologias não tripuladas nas mãos dos soldados e recolher avaliações durante o uso em campo.
Em agosto, o batalhão participou ainda de uma demonstração em Aberdeen Proving Ground, Maryland, na qual foram empregados simultaneamente três sistemas desenvolvidos pelo Exército. O exercício teve como foco demonstrar recursos para enfrentar ameaças eletromagnéticas. Esses episódios mostram uma lógica de desenvolvimento baseada em testar equipamentos junto às tropas e ajustar as soluções conforme as condições observadas, embora não revelem o desempenho detalhado nem a disponibilidade operacional dos sistemas.
Legenda: Desenvolvedores da 780ª Brigada de Inteligência Militar e integrantes do 11º Batalhão de Guerra Cibernética trabalham em um projeto de guerra com drones em Fort Gordon, Geórgia. | Créditos: Steven Stover/U.S. Army
Espectro eletromagnético ganha peso estratégico
A expansão ocorre em meio à crescente importância do espectro eletromagnético para as forças armadas. Comunicações, navegação, sensores e drones dependem de sinais e redes que podem ser degradados, interrompidos ou explorados. Por isso, a disputa militar contemporânea não se limita ao domínio físico: envolve também a capacidade de manter os próprios sistemas funcionando e de reduzir a eficácia dos recursos usados pelo adversário.
Para Washington, a criação de outro batalhão pode contribuir para incorporar esse tipo de capacidade de forma mais regular às operações terrestres. Uma estrutura maior tende a oferecer mais espaço para treinamento, desenvolvimento de conceitos e apoio a diferentes formações, mas o anúncio não confirma quantas equipes estarão disponíveis nem se a nova unidade atuará em regiões ou missões distintas daquelas do 11º.
O movimento também se insere em uma transformação doutrinária: recursos cibernéticos e de guerra eletrônica passam a ser considerados parte do poder de combate no nível tático. A declaração de que o novo batalhão será uma réplica do 11º sugere continuidade do modelo, não necessariamente uma mudança imediata de missão. O desafio será converter a expansão organizacional em equipes treinadas, equipamentos confiáveis e integração efetiva com comandantes e unidades apoiadas.
Há, ainda, limites importantes para avaliar o anúncio. A formação de uma unidade não significa que ela estará pronta para operar em plena capacidade desde o início. O próprio cronograma distingue o começo da organização, a capacidade operacional inicial e a capacidade plena. Além disso, não foram divulgados detalhes sobre efetivo, financiamento, localização ou calendário específico de implantação. Esses fatores serão decisivos para medir o alcance real da expansão.
Historicamente, a mudança marca uma passagem da experimentação institucional para a tentativa de ampliar uma capacidade que o Exército considera útil no campo de batalha moderno. O 11º Batalhão foi criado como uma estrutura pioneira; agora, a proposta de estabelecer uma segunda unidade indica que o serviço pretende dar maior escala a esse modelo. O impacto estratégico dependerá menos do número de batalhões anunciado do que da capacidade de operar em coordenação com tropas, sistemas não tripulados e demais recursos militares.
Em termos geopolíticos, a decisão sinaliza que os Estados Unidos tratam o ciberespaço e o espectro eletromagnético como componentes cada vez mais integrados da competição militar entre Estados. A iniciativa, isoladamente, não altera o equilíbrio de poder nem comprova uma vantagem operacional específica. Mas revela uma prioridade: preparar forças terrestres para atuar em ambientes nos quais a conectividade pode ser disputada e em que a proteção — ou a interrupção — dos fluxos de informação pode influenciar o ritmo e a eficácia das operações.