Europa considera empoderar empresas de utilidade e infraestrutura para combate a drones indesejados — Governos europeus avaliam ampliar os poderes de empresas de energia, transporte e outros setores estratégicos para detectar e neutralizar drones próximos a instalações críticas. A mudança responde ao aumento das incursões aéreas e ao temor de que ataques de baixo custo interrompam serviços essenciais, mas esbarra em dúvidas jurídicas sobre quem pode autorizar uma ação e quem será responsabilizado por danos colaterais.
Infraestruturas críticas entram na linha de defesa
A proteção contra drones está deixando de ser uma atribuição exclusiva de forças armadas e polícias em parte da Europa. Empresas que administram redes elétricas, ferrovias e outras instalações consideradas essenciais buscam acesso a equipamentos e autorização para reagir diretamente a ameaças aéreas. Entre as tecnologias avaliadas estão sensores, bloqueadores eletrônicos e drones interceptadores.
O movimento reflete uma preocupação estratégica: uma aeronave não tripulada relativamente barata pode ameaçar instalações cujo reparo é lento e oneroso. Subestações, transformadores e linhas de transmissão estão entre os alvos vulneráveis. Danos a esses ativos podem interromper o fornecimento de energia e afetar milhões de pessoas, além de exigir meses — ou até anos — para a reposição de componentes especializados.
Na França, uma lei aprovada em agosto de 2026 autorizou operadores credenciados de infraestruturas críticas e empresas contratadas a detectar, interferir e derrubar drones perto de instalações designadas. O governo também pretende equipar, até 2027, uma lista ampliada de locais considerados de importância vital. Entre as empresas que poderiam integrar esse esforço estão a estatal de energia EDF e a companhia ferroviária SNCF.
Testes realizados em Brétigny-sur-Orge, ao sul de Paris, já catalogaram três integradores de sistemas e 17 soluções antidrones, segundo a organização Systematic Paris-Region, responsável pelo programa de avaliação. O objetivo é comparar equipamentos e acelerar possíveis aquisições. A escolha da resposta, porém, dependerá do local, do tipo de ameaça e dos riscos associados a cada sistema.
O debate também avançou na Alemanha e na Áustria. Berlim analisa como operadores de infraestrutura e terceiros poderiam participar legalmente de medidas ativas contra drones, enquanto Viena anunciou planos para conceder poderes semelhantes a empresas estratégicas, incluindo grandes companhias de energia. Na Polônia, algumas operadoras já usam sistemas antidrones e unidades de segurança autorizadas a destruir, desativar ou assumir o controle de aeronaves que entrem em zonas restritas.
As diferenças entre os países revelam que a Europa ainda não dispõe de um modelo comum. Em muitos lugares, a resposta continua sob responsabilidade policial ou militar. A questão central não é apenas se uma empresa terá acesso à tecnologia, mas quem poderá decidir, em poucos segundos, se um drone representa uma ameaça suficiente para justificar uma intervenção.
Da invasão da Ucrânia à defesa do espaço aéreo
A invasão russa da Ucrânia, iniciada em 2022, acelerou a reavaliação europeia sobre a segurança de redes elétricas e demais infraestruturas essenciais. Os ataques russos contra o sistema energético ucraniano demonstraram como danos a instalações dispersas podem comprometer serviços básicos em larga escala. Para governos europeus, o risco não se limita a uma guerra convencional: drones e outras ações atribuídas a operações híbridas podem servir para testar defesas, provocar interrupções ou ampliar a pressão sobre sociedades e governos.
O histórico recente de incursões sobre instalações sensíveis também aumentou a urgência política. Na França, voos não autorizados sobre locais militares e estratégicos — incluindo a base naval de Île Longue, associada à força nuclear francesa, em dezembro de 2025 — contribuíram para a discussão sobre novas medidas de proteção. Na Alemanha, a descoberta, em agosto de 2026, de um drone carregado com explosivos perto de uma aeronave de carga ucraniana no aeroporto de Leipzig/Halle evidenciou a variedade de locais potencialmente expostos. Berlim atribuiu o episódio à Rússia; Moscou negou envolvimento.
Durante anos, muitas empresas de energia concentraram seus planos na resiliência: reforçar redes, manter peças sobressalentes e restaurar o serviço depois de uma interrupção. A nova etapa busca acrescentar capacidade de prevenção, mas não elimina a necessidade de recuperação. Executivos do setor reconhecem que nem todo ataque poderá ser impedido, sobretudo diante da extensão das redes e da quantidade de instalações que precisam ser protegidas.
O desafio operacional é considerável. A operadora polonesa PSE, por exemplo, administra cerca de 16.500 quilômetros de linhas de alta tensão e já patrulha trechos da rede com helicópteros. Nos países bálticos e na Polônia, medidas de proteção incluem reforçar subestações, instalar redes antidrones e armazenar componentes difíceis de substituir. A Lituânia também constrói uma subestação fortificada perto da fronteira russa, enquanto os governos da região ampliam planos de defesa de infraestrutura.
Ao mesmo tempo, sistemas antidrones estão se tornando mais automatizados. Eles podem integrar sensores, softwares de comando e controle e diferentes contramedidas para identificar, classificar e responder a uma ameaça em segundos. Essa rapidez é importante porque não é viável manter equipes especializadas em todos os locais. No entanto, a automação torna ainda mais delicada a definição de quem autoriza uma resposta e sob quais critérios.
Legenda: Soldados dos Estados Unidos carregam um interceptador AS3 do sistema antidrones MEROPS durante apresentação na Polônia, em novembro de 2025. | Créditos: Reuters/Kacper Pempel/Foto de arquivo
Autodefesa privada amplia dilemas estratégicos
A transferência de poderes para empresas privadas ou estatais representa uma mudança relevante na concepção de segurança europeia. Tradicionalmente, o uso de força para neutralizar uma ameaça aérea é atribuição do Estado. Ao permitir que operadores civis participem da resposta, governos tentam cobrir uma lacuna prática: autoridades públicas talvez não consigam proteger, ao mesmo tempo, todas as instalações dispersas que sustentam a economia e a vida cotidiana.
Essa descentralização, porém, pode fragmentar a cadeia de comando. Uma decisão equivocada para derrubar um drone pode causar ferimentos, mortes ou danos materiais. Também há o risco de uma aeronave ser identificada incorretamente, de uma contramedida interferir em comunicações legítimas ou de destroços atingirem áreas habitadas. Por isso, empresas do flanco oriental da Otan pedem maior clareza sobre responsabilidade civil e criminal, além de garantias sobre quem responderá por danos colaterais.
A incerteza jurídica pode atrasar investimentos justamente quando a tecnologia amadurece. A empresa alemã Rheinmetall relatou aumento acentuado do interesse de operadores privados e afirmou que a demora entre a detecção de um drone e a autorização para agir é um dos principais obstáculos. Na França, autoridades estudam automatizar parte do processo para que equipes de segurança possam iniciar uma resposta com um comando simples, sem exigir especialistas militares em cada instalação.
Nem todos os operadores defendem essa transferência de atribuições. A finlandesa Fingrid sustenta que a proteção contra ameaças a infraestruturas críticas deve permanecer sob responsabilidade das autoridades e das Forças Armadas. A empresa Fortum também afirma preferir concentrar-se na produção de energia, deixando a segurança para a polícia e os militares. A divergência expõe uma questão política central: ampliar a resiliência nacional não significa necessariamente privatizar a decisão sobre o uso de contramedidas.
O debate tem implicações para a cooperação europeia e para a segurança da Otan. Drones podem atravessar fronteiras, sobrevoar áreas civis e se aproximar de instalações com importância militar ou econômica. Diferenças entre legislações nacionais podem criar lacunas de proteção e dificultar a coordenação em situações de crise. Uma resposta mais integrada exigiria protocolos compatíveis de identificação, comunicação e autorização, além de regras claras sobre responsabilidade e compartilhamento de informações.
Há ainda um efeito de dissuasão. A ampliação das defesas pode elevar o custo de uma operação clandestina e reduzir a vulnerabilidade de setores essenciais. Mas a proliferação de sistemas capazes de interferir ou derrubar aeronaves também aumenta a necessidade de evitar erros de identificação e escaladas acidentais. A proteção do espaço aéreo de baixa altitude passa, assim, a combinar tecnologia, legislação e coordenação entre governos, forças de segurança e empresas.
Para a Europa, o desafio não é apenas comprar equipamentos antidrones. É construir um sistema em que a rapidez de reação não comprometa a segurança pública nem dilua a responsabilidade estatal. A experiência francesa, as revisões em curso na Alemanha, os planos austríacos e as medidas já adotadas na Polônia indicam que o continente procura respostas nacionais para uma ameaça transnacional. O equilíbrio entre defesa descentralizada e controle público deverá definir os próximos passos.