Embraer e Lockheed Martin disputam contrato bilionário de transporte militar na Índia: quem levará o prêmio? A disputa por um pacote estimado em US$ 10,5 bilhões coloca frente a frente o C-390 Millennium, da brasileira Embraer, e o C-130J Super Hercules, da norte-americana Lockheed Martin. Mais do que escolher 60 aeronaves para substituir parte de sua frota envelhecida, Nova Délhi busca ampliar a produção nacional, fortalecer sua indústria de defesa e atender a exigências operacionais em uma das regiões mais sensíveis da Ásia.

Uma concorrência de US$ 10,5 bilhões em fase decisiva

A concorrência formal ganhou impulso em agosto, quando o governo indiano enviou uma solicitação de propostas a cinco empresas locais. A etapa abre caminho para que os fabricantes internacionais apresentem suas ofertas em parceria com companhias indianas. As propostas devem ser entregues no início de dezembro e, depois disso, passarão por avaliação técnica.

O programa prevê a aquisição de 60 aeronaves de transporte médio para a Força Aérea Indiana. O objetivo é renovar uma frota que inclui os Antonov An-32, de origem soviética, e ampliar a capacidade de transportar tropas, veículos e munições. Os aviões também são empregados em missões de assistência humanitária e resposta a desastres.

A competição envolve dois modelos com trajetórias distintas. A Embraer concorre com o C-390 Millennium e, ao lado da indiana Mahindra Defence, identificou Nagpur, no centro do país, como possível local para uma instalação de produção caso vença o contrato. As empresas afirmam que pretendem integrar gradualmente fornecedores aeroespaciais indianos ao programa, incluindo atividades de fabricação, treinamento e suporte durante o ciclo de vida das aeronaves.

A Lockheed Martin oferece o C-130J-30 na configuração Block 8.1.2, que descreve como mais avançada do que os exemplares atualmente operados pela Força Aérea Indiana. A companhia propõe fabricar 12 aeronaves nos Estados Unidos e construir as outras 48 na Índia, em parceria com a Tata Advanced Systems Limited. Também apresentou uma proposta para modernizar os 12 C-130J já em serviço no país.

O peso da fabricação local é central para a disputa. Nova Délhi exige que pelo menos 40% do conteúdo das aeronaves seja doméstico e estabeleceu que, após as entregas iniciais em condição de voo, as unidades restantes sejam produzidas na Índia. A vencedora, portanto, não será escolhida apenas pelo equipamento: sua proposta industrial e a capacidade de cumprir os compromissos de produção local também estarão sob escrutínio.

Da dependência externa à construção de uma indústria própria

A busca por uma nova frota de transporte se insere em uma estratégia indiana de longa duração. Há cerca de duas décadas, o país vem tentando ampliar a produção doméstica de material de defesa e atrair transferência de tecnologia, com o propósito de reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros e consolidar capacidades industriais próprias.

Essa política transformou grandes compras militares em instrumentos de política industrial. Para fabricantes internacionais, oferecer aeronaves competitivas é apenas parte do desafio: é preciso demonstrar disposição para compartilhar produção, desenvolver fornecedores locais e manter suporte técnico no país. A exigência de conteúdo nacional mínimo de 40% traduz essa prioridade em uma condição concreta do programa.

A Lockheed Martin parte de uma relação já estabelecida com a Índia. A Força Aérea Indiana opera 12 C-130J, e a empresa mantém atividades industriais no país com a Tata, incluindo a fabricação de componentes importantes e da seção traseira da aeronave. Uma vitória ampliaria essa presença, enquanto a proposta de modernização da frota existente acrescentaria uma dimensão de continuidade operacional ao pacote.

A Embraer, por sua vez, procura ampliar sua inserção por meio da parceria com a Mahindra Defence. A indicação de Nagpur como possível sede de montagem sinaliza que a oferta brasileira também está vinculada à criação de uma base produtiva local. As empresas afirmam que pretendem desenvolver um ecossistema aeroespacial mais amplo, embora a concretização desses planos dependa da vitória na concorrência e dos termos finais do contrato.

O desafio operacional também ajuda a explicar a importância do programa. A Índia exige que os aviões possam atuar em áreas de grande altitude, incluindo zonas próximas à cordilheira do Himalaia, e operar em pistas temporárias ou não pavimentadas. Essas condições, somadas às missões de transporte e apoio humanitário, fazem da avaliação técnica um componente decisivo da seleção.

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Legenda: Um C-130J Super Hercules da Força Aérea Indiana em exposição na base de Hindon, em 2025. | Créditos: Sakib Ali/Hindustan Times via Getty Images

O contrato como peça da estratégia regional indiana

O processo ocorre em um ambiente de segurança marcado pelas extensas fronteiras indianas com Paquistão e China. A capacidade de transportar rapidamente pessoal, veículos e suprimentos para áreas remotas pode reforçar a logística militar e a resposta a crises, embora a aquisição, por si só, não altere o equilíbrio estratégico regional. A exigência de operações em grande altitude reflete diretamente as necessidades geográficas e militares de Nova Délhi.

O programa também evidencia como a Índia procura equilibrar duas prioridades: manter acesso a equipamentos estrangeiros e, ao mesmo tempo, transferir parte do valor econômico e tecnológico das compras para dentro do país. A disputa entre uma empresa brasileira e uma norte-americana mostra que essa estratégia abre espaço para diferentes parceiros, desde que atendam às condições industriais e operacionais estabelecidas pelo governo.

Para Washington, uma vitória da Lockheed Martin aprofundaria uma relação de defesa já marcada pela operação de aeronaves C-130J e pela cooperação industrial com a Tata. Para Brasília, a conquista representaria uma oportunidade de ampliar a presença da Embraer no mercado asiático e consolidar o C-390 como uma opção em um dos maiores programas de transporte militar em disputa na região. Em ambos os casos, o contrato pode gerar vínculos de longo prazo por meio da produção, do treinamento e da manutenção.

A decisão ainda está distante: primeiro, os concorrentes precisam apresentar suas propostas e superar a avaliação técnica. O resultado dependerá da combinação entre desempenho nas condições exigidas, cumprimento da meta de conteúdo local e credibilidade dos planos de fabricação e suporte. Por isso, o prêmio não será apenas a venda de 60 aviões, mas uma posição estratégica na transformação da indústria de defesa indiana.