O retorno da Escola de Selva ao litoral panamenho e a realização do exercício final conhecido como "Green Mile" revelam uma iniciativa militar que combina treino tático, diplomacia de defesa e presença estratégica dos Estados Unidos na América Central — um esforço que reforça prontidão em ambientes tropicais, capitaliza parceria bilateral com o Panamá e influencia dinâmicas regionais de segurança em um contexto histórico sensível.

Green Mile em Panamá: objetivos, formato e resultados do curso

O exercício culminante da Jungle Operations Training Course — o chamado Green Mile — opera como um teste prático de capacidades em ambiente de manguezais, selva e litoral: infiltração, reconhecimento, evacuação médica, sobrevivência e combate em terreno saturado. Conduzido em 18 dias na versão multinacional (12 dias quando executado apenas em inglês), o curso enfatiza técnicas adaptadas à realidade tropical — colunas de movimento, seleção de pontos de infiltração, improvisação logística (por exemplo, macas e pontes de corda feitas com material local) e coordenação aero-médica para evacuação em zonas sem pouso. Além dos aspectos físicos e médicos, o treinamento expõe participantes a riscos ambientais concretos (hipertermia, insetos, fauna agressiva, flora cortante e efeitos gastrointestinais por alimentação local), que são incorporados como variáveis operacionais a serem gerenciadas em planejamento e execução.

Raízes históricas da Escola de Selva e o retorno a Fort Sherman

Historicamente, instalações como a antiga Fort Sherman foram palco de treinamentos americanos na região, refletindo ciclos de presença e retirada vinculados a interesses estratégicos e à soberania panamenha. A reabertura do curso em 2025 em Base Aeronaval Cristóbal Colón representa tanto uma retomada de competências tradicionais de guerra na selva quanto uma adaptação contemporânea: agora com liderança compartilhada e instrutores panamenhos, o formato sinaliza respeito pela autoridade local e busca integrar lições práticas de veteranos regionais que lidaram com conflitos e operações de baixa intensidade. Esse arranjo responde a duas necessidades históricas — a preservação de conhecimento operacional em ambientes tropicais e a recomposição de laços militares que, no passado, geraram controvérsia quando associados a projeção direta de poder sem coordenação civil.

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Legenda: Participantes cruzam ponte de corda durante o exercício final da Green Mile | Créditos: Pfc. Oshon Trowbridge/U.S. Army

Impacto geopolítico: influência dos EUA, cooperação regional e riscos estratégicos

Do ponto de vista geopolítico, a presença operacional e pedagógica dos EUA em um programa com comando panamenho cumpre múltiplas funções: aumenta a prontidão norte-americana para operar em climas tropicais; fortalece interoperabilidade com forças regionais (já atendidas no curso por tropas do Panamá e possivelmente de países como Colômbia); e funciona como instrumento de diplomacia militar que contrabalança a penetração de atores extrarregionais no hemisfério ocidental. A ênfase em instrutores panamenhos e em exercícios conjuntos reduz percepção de imposição externa e pode facilitar aceitação política local, transformando um centro de treinamento em plataforma de construção de confiança.

Contudo, há riscos que exigem gestão política e comunicacional: memória histórica sobre bases e intervenções americanas no Panamá tende a sensibilizar opinião pública e atores políticos; militares estrangeiros em atividades territoriais podem ser interpretados como sinal de re-militarização da região; e a atividade constante em ecossistemas frágeis (manguezais) impõe custos ambientais que, se não mitigados, alimentarão críticas. Além disso, o caráter dual do treinamento — aplicável tanto a missões humanitárias quanto a operações de contraterrorismo ou antipirataria/antinarco — pode gerar ambiguidades sobre finais estratégicos, exigindo clareza sobre objetivos, limites e mecanismos de supervisão binacional.

Recomenda-se que políticas associadas ao programa priorizem: 1) transparência pública e cooperação civil-panamenha para reduzir tensões políticas; 2) extensão gradual do acesso a parceiros regionais para solidificar um mecanismo multilateral de resposta a ameaças transnacionais; 3) salvaguardas ambientais e planos de remediação para minimizar impacto nos manguezais; e 4) ênfase em capacitação para missões não-kinéticas (resposta a desastres, saúde pública, logística em áreas remotas), ampliando o valor diplomático do centro e atenuando percepções exclusivas de projeção de poder.