Custo e Futuro dos ACVs do Corpo de Fuzileiros Navais Sob Lupa: Impactos Revelados em Relatório do Congresso — O veículo anfíbio de combate dos Estados Unidos enfrenta uma avaliação decisiva: além de custar cerca de US$ 6 milhões por unidade, precisa demonstrar que consegue proteger os fuzileiros contra drones e munições guiadas sem comprometer sua função de levar tropas da água à terra. Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS) reúne dúvidas sobre vulnerabilidade, manutenção e a quantidade de veículos necessária caso o Corpo de Fuzileiros Navais amplie suas forças.
Vulnerabilidade, orçamento e tamanho da frota em debate
O relatório do CRS, divulgado na terça-feira, não determina mudanças no programa, mas apresenta perguntas que pressionam os responsáveis pela aquisição e pelo planejamento militar. Entre elas, está a capacidade de sobrevivência dos Amphibious Combat Vehicles (ACVs) durante operações anfíbias e em combate terrestre, num cenário em que drones e armas guiadas vêm alterando os riscos enfrentados por veículos blindados.
A guerra na Ucrânia é uma referência central para essa discussão. O uso disseminado de sistemas aéreos não tripulados e munições de precisão expôs blindados a ameaças que podem localizar e atacar unidades com rapidez. O CRS questiona se o Corpo de Fuzileiros Navais avalia reforços de proteção para os ACVs com base nessas lições. A preocupação é relevante para uma plataforma concebida para apoiar diretamente fuzileiros desembarcados durante ataques.
Há uma iniciativa em andamento para enfrentar parte desse risco. No mês anterior à publicação da reportagem, os fuzileiros concederam à Anduril um contrato para fornecer o Pulsar-L, conjunto de sensores e interferência destinado a combater drones pequenos dos grupos 1 e 2 que dependem de radiofrequência. Segundo a justificativa contratual, o sistema já é usado pelo Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos e pode atuar tanto com o veículo parado quanto em movimento.
O debate também envolve a escala da frota. O plano inicial previa a aquisição de 1.122 ACVs, mas a configuração atual informada ao CRS prevê 608 unidades: 389 veículos de transporte ACV-P, 33 de comando ACV-C, 152 modelos de apoio de fogo ACV-30, equipados com canhão de 30 milímetros, e 34 veículos de recuperação ACV-R. Com preço aproximado de US$ 6 milhões por unidade, dependendo da variante, uma eventual ampliação teria consequências orçamentárias significativas.
Essa possibilidade ganhou importância após uma revisão da estrutura de forças sugerir a inclusão de mais de 6.500 militares até 2032. A proposta prevê, entre outros aumentos, mais efetivos em 19 batalhões de infantaria e em duas equipes de combate litorâneas. O CRS pergunta se esse crescimento exigiria a compra de ACVs adicionais para equipar as unidades. A resposta dependerá tanto da estrutura final aprovada quanto da quantidade de veículos considerada necessária para cada formação.
O orçamento também reflete a necessidade de aperfeiçoar a plataforma. Para o ano fiscal de 2027, a Marinha solicitou US$ 237 milhões para atualizações dos ACVs. Além disso, a BAE Systems recebeu uma modificação contratual de US$ 230 milhões para fornecer 32 veículos ACV-R, a variante de recuperação que concluirá a família do programa. A entrega está prevista para novembro de 2028.
Da ambição anfíbia aos desafios de operação
O ACV foi desenvolvido para cumprir uma missão histórica dos fuzileiros navais: transportar tropas desde navios até a costa e oferecer mobilidade e apoio em terra. Essa combinação de capacidades torna o veículo uma peça importante na concepção de operações anfíbias, mas também impõe exigências distintas das enfrentadas por blindados destinados exclusivamente a deslocamentos terrestres. O equipamento precisa operar em ambiente marítimo, atravessar a zona de arrebentação e continuar funcional depois de exposto à água salgada.
Os desafios surgiram durante a entrada em serviço. Em 2022, dois ACVs tombaram ao operar em ondas de até três metros. Na sequência, o Corpo de Fuzileiros suspendeu temporariamente as operações em mar aberto e retomou a atividade sob restrições relacionadas à altura das ondas: a operação depende de que a altura significativa de arrebentação não ultrapasse quatro pés, aproximadamente 1,2 metro. O episódio evidenciou a dificuldade de equilibrar segurança, disponibilidade e a necessidade de treinar para condições marítimas variadas.
O peso é outro fator operacional. O ACV pesa cerca de 35 toneladas, e uma iniciativa de pesquisa e desenvolvimento da Marinha, aberta em 2025, buscou soluções para reduzir pelo menos 2 mil libras — aproximadamente 907 quilos — por veículo. A solicitação apontou componentes como rampas, eixos de transmissão, tampas de acesso ao motor, escotilhas, tanques externos, suspensão e partes de blindagem entre as áreas que poderiam ser avaliadas.
Reduzir massa pode contribuir para a eficiência de combustível e alterar o centro de gravidade e o centro de flutuabilidade, aspectos importantes para um veículo que precisa se deslocar tanto em terra quanto na água. No entanto, qualquer redução precisa preservar proteção e resistência estrutural. O desafio é mais pronunciado nas variantes ACV-30 e ACV-R, descritas na solicitação como particularmente pesadas.
A corrosão causada pela água salgada acrescenta uma frente de manutenção. Um aviso publicado em janeiro de 2026 buscou informações sobre mais de 5 mil suportes de suspensão resistentes à corrosão. O documento apontou que o ritmo de deslocamentos e a intensidade do treinamento dos fuzileiros criam para o ACV um ambiente corrosivo especialmente severo. A iniciativa de redução de peso também exigia que as soluções propostas considerassem o uso em torno de água salgada.
Legenda: Fuzileiros navais dos Estados Unidos realizam exercício de travessia costeira com um ACV em Okinawa, no Japão, em novembro de 2024. | Créditos: Lance Cpl. Kendrick Jackson/U.S. Marine Corps
Implicações para a estratégia militar dos EUA
A revisão dos ACVs ultrapassa uma questão de aquisição. Para Washington, a capacidade de projetar forças a partir do mar continua sendo um instrumento estratégico, especialmente em regiões onde a geografia insular e as distâncias marítimas têm peso militar. O veículo precisa apoiar essa postura, mas seu valor depende de conseguir operar em ambientes nos quais drones, sensores e armas de precisão tornam mais difícil aproximar forças convencionais de uma costa defendida.
A experiência ucraniana reforça uma transformação mais ampla: blindagem, mobilidade e poder de fogo continuam relevantes, mas já não bastam, por si sós, para assegurar sobrevivência no campo de batalha. A proteção contra drones, a capacidade de interferir em sinais e a integração de sensores passam a fazer parte do debate sobre veículos terrestres. A adoção do Pulsar-L indica uma resposta inicial a esse desafio, embora o relatório do CRS deixe em aberto se serão necessárias outras modificações.
Há também uma tensão entre expansão e eficiência. Se o plano de ampliar o efetivo dos fuzileiros avançar, a demanda por veículos poderá crescer justamente quando o programa ainda enfrenta questões de custo, peso, corrosão e desempenho no mar. A decisão de comprar mais unidades, portanto, não depende apenas do número de novos militares: exige avaliar disponibilidade da frota, necessidades de cada unidade e custos de operação e modernização ao longo do tempo.
O cronograma da variante ACV-R e a solicitação de recursos para atualizações mostram que o programa continua em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a diferença entre a ambição inicial de 1.122 veículos e o plano atual de 608 evidencia uma aquisição mais restrita do que a prevista originalmente. O relatório do Congresso recoloca em pauta se essa quantidade será suficiente diante dos planos de força e das exigências de operações litorâneas.
O futuro do ACV dependerá, assim, de uma combinação de decisões técnicas e estratégicas: melhorar a defesa contra drones, reduzir peso sem sacrificar proteção, controlar a corrosão e garantir segurança nas operações anfíbias. Para os Estados Unidos, o resultado ajudará a definir não apenas o tamanho de uma frota, mas também como os fuzileiros navais pretendem manter sua capacidade de desembarque em um cenário de competição militar cada vez mais marcado por sistemas não tripulados e ataques de precisão.