A Alemanha dará início em 2027 à formação de seu primeiro regimento dedicado a sistemas não tripulados, numa mudança que busca transformar as lições da guerra na Ucrânia em capacidade militar permanente. A unidade reunirá drones aéreos, veículos terrestres robóticos, guerra eletrônica e defesas contra aeronaves não tripuladas — uma aposta que também reforça a preparação de Berlim para as responsabilidades da OTAN no flanco oriental.
Berlim acelera a reorganização das forças terrestres
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, anunciou em 1º de outubro que o Exército começará a formar o regimento no próximo ano. A decisão foi apresentada durante exercícios e avaliações militares no campo de treinamento de Bergen, no norte da Alemanha, em meio a um esforço mais amplo para incorporar tecnologias não tripuladas à estrutura das forças armadas.
O plano prevê que a unidade comece com aproximadamente 300 a 350 militares em 2027. A meta é ampliar sua força para até 600 integrantes e alcançar capacidade operacional plena em 2029, segundo o chefe do Exército alemão, tenente-general Christian Freuding. O regimento ficará subordinado à 10ª Divisão Panzer, formação de alta prontidão que também supervisiona a Brigada Panzer 45, posicionada na Lituânia.
A estrutura planejada deverá incluir cinco ou seis companhias, com funções que vão do reconhecimento e combate a curta distância a ataques em profundidade. Também estão previstas capacidades de guerra eletrônica, proteção contra drones inimigos e uma companhia dedicada a testes, criada para acelerar a avaliação de equipamentos e sua adaptação às necessidades operacionais.
Entre as tecnologias consideradas estão munições vagantes — armamentos que podem permanecer sobre uma área antes de atingir um alvo — e sistemas não tripulados terrestres. Drones de longo alcance também fazem parte do conceito, com distâncias de até 500 quilômetros mencionadas como possibilidade, condicionada à disponibilidade de equipamentos comerciais adequados. Os contratos para essas plataformas ainda não foram definidos, e o Ministério da Defesa não anunciou a localização permanente da unidade.
O novo regimento não será a única iniciativa alemã nessa área. O Exército planeja começar a distribuir sistemas táticos não tripulados diretamente a unidades de infantaria leve, reconhecimento e blindados. A estratégia combina, assim, uma formação especializada com a disseminação de drones e recursos associados por diferentes ramos da força terrestre.
Da cautela à adaptação militar
A criação do regimento representa uma mudança institucional para a Alemanha, país que, como outras forças armadas ocidentais, enfrentou obstáculos para ampliar o uso militar de drones. Processos de aquisição demorados, estruturas concebidas para períodos de paz e debates políticos sobre armamentos autônomos e sistemas armados contribuíram para retardar a adaptação, segundo a análise publicada pela imprensa especializada em defesa.
A guerra na Ucrânia acelerou essa revisão. Desde a invasão russa em larga escala, em 2022, drones de diferentes portes passaram a desempenhar funções de vigilância, identificação de alvos, ataque e apoio às tropas. A experiência do conflito também evidenciou a rapidez com que sistemas relativamente acessíveis podem ser modificados, substituídos ou neutralizados, impondo às forças militares um ciclo contínuo de inovação e contramedidas.
As avaliações realizadas pelo Exército alemão foram influenciadas por intercâmbios operacionais com unidades ucranianas que atuam na linha de frente. Nos exercícios, foram testados tanto drones aéreos quanto sistemas terrestres não tripulados. A inclusão de robótica terrestre como pilar operacional, ao lado dos meios aéreos, sugere que Berlim busca evitar uma abordagem limitada apenas à compra de aeronaves remotamente pilotadas.
O desafio não é simplesmente colocar mais drones em campo. É integrar sensores, operadores, comunicações, análise de dados e meios de ataque a uma estrutura de comando capaz de reagir sob interferência eletrônica e diante de perdas de equipamentos. A companhia de testes prevista para o regimento poderá ajudar a reduzir o intervalo entre a identificação de uma necessidade e a avaliação de uma solução, embora sua eficácia dependa de recursos, treinamento e rapidez nas aquisições.
Legenda: Militar alemão opera um drone de reconhecimento durante exercício na Lituânia, em junho de 2026. | Créditos: Kay Nietfeld/picture alliance via Getty Images
Reforço à OTAN e ao flanco oriental
A vinculação do regimento à 10ª Divisão Panzer confere à iniciativa importância que vai além da modernização tecnológica. A divisão integra os planos alemães de prontidão para a OTAN, enquanto a Brigada Panzer 45, subordinada à formação, está baseada na Lituânia. O posicionamento conecta a nova capacidade a uma região central para a defesa aliada no leste europeu, próxima das fronteiras da Rússia e de Belarus.
Para a aliança, a relevância dos drones está tanto na capacidade de observar o campo de batalha quanto na possibilidade de ampliar a precisão e a velocidade das operações. Sistemas não tripulados podem apoiar o reconhecimento, identificar ameaças e complementar unidades convencionais. Ao mesmo tempo, a dependência desses meios cria vulnerabilidades: interferência eletrônica, ataques às comunicações e defesas antidrone podem reduzir sua eficácia.
Por isso, a decisão alemã de reunir guerra eletrônica e proteção contra drones na mesma estrutura é significativa. Ela reconhece que a expansão de sistemas não tripulados exige também meios para enfrentar os equipamentos adversários. Em conflitos modernos, a vantagem pode depender menos de possuir uma plataforma específica e mais da capacidade de atualizar táticas, proteger redes e substituir rapidamente sistemas perdidos ou comprometidos.
O projeto também tem implicações para a indústria de defesa europeia. A ausência de contratos definidos para as plataformas de longo alcance indica que escolhas de aquisição ainda poderão determinar o ritmo e o formato da unidade. A busca por equipamentos disponíveis comercialmente pode acelerar a introdução de capacidades, mas também levanta questões sobre padronização, segurança de componentes, manutenção e dependência de fornecedores.
O anúncio, portanto, estabelece uma direção, mas não garante por si só uma transformação concluída. A formação inicial está prevista para 2027 e a capacidade plena, para 2029; entre esses marcos, a Alemanha precisará selecionar equipamentos, treinar pessoal, definir a base permanente e integrar o regimento às demais unidades. O teste decisivo será converter a experiência observada na Ucrânia em doutrina, logística e capacidade operacional sustentáveis para a Bundeswehr e para a defesa coletiva da OTAN.