A nova diretriz sobre triagem de testosterona entre militares dos EUA: cuidados adicionais podem ser necessários — Uma pesquisa com soldados do Exército dos Estados Unidos indica que a triagem hormonal em larga escala pode identificar muitos militares com resultados abaixo do parâmetro clínico adotado, mas também ampliar a demanda por exames confirmatórios, consultas e acompanhamento. O tema combina saúde, gestão de pessoal e prontidão militar: detectar uma alteração não significa, por si só, confirmar uma doença nem justificar tratamento.
Triagem ampla pode ampliar a demanda por atendimento
Um estudo publicado na revista médica JAMA analisou dados de militares do Exército e encontrou níveis matinais de testosterona abaixo de 300 nanogramas por decilitro (ng/dL) em uma parcela expressiva dos participantes. Esse é o limite de referência utilizado pela Associação Americana de Urologia. Entre os soldados com menos de 30 anos, 20% ficaram abaixo desse valor; entre os militares de 30 anos ou mais, o índice chegou a 32,8%.
Na análise de uma única medição, 100.691 soldados na ativa apresentaram níveis matinais inferiores ao parâmetro. Os autores, ligados ao Pennington Biomedical Research Center, na Louisiana, e ao Instituto de Pesquisa de Medicina Ambiental do Exército dos EUA, afirmam que os resultados ajudam a antecipar o volume de avaliações clínicas que pode decorrer de um programa de triagem abrangente.
A iniciativa foi anunciada pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, em julho de 2026. Pela diretriz, militares do sexo masculino com 30 anos ou mais devem ser examinados. Para os mais jovens, a avaliação poderá ser solicitada voluntariamente quando houver sintomas, como fadiga, redução da libido, humor deprimido, dificuldade de concentração ou queda no desempenho físico.
O protocolo da Agência de Saúde de Defesa prevê coleta pela manhã em dois dias diferentes. Quem apresentar resultados abaixo de 300 ng/dL poderá ser encaminhado para avaliação adicional. O tratamento, se indicado, não será obrigatório e pode envolver injeções semanais ou quinzenais, medicamentos orais ou gel, conforme a opção clínica adotada.
Os pesquisadores ressaltam uma distinção essencial: um resultado baixo na triagem não equivale automaticamente a hipogonadismo, condição médica associada à produção insuficiente de testosterona. A interpretação exige considerar sintomas, repetir exames e avaliar fatores que possam influenciar os níveis hormonais. Em estudo anterior com homens na ativa, apenas 0,43% — 12.112 de uma população superior a 2,8 milhões — tinham diagnóstico registrado de hipogonadismo, com taxas mais elevadas entre os militares de maior patente e tempo de serviço.
Esse contraste não invalida a nova pesquisa, pois os levantamentos medem coisas diferentes: um identifica resultados abaixo de um limite em uma coleta; o outro contabiliza diagnósticos clínicos. Mas evidencia o desafio operacional da política. Se muitos resultados iniciais levarem a consultas, repetição de exames, aconselhamento e acompanhamento, o sistema de saúde militar precisará absorver uma demanda que não corresponde necessariamente a igual número de casos confirmados.
Da medicina militar à política de prontidão
A pesquisa foi baseada no estudo de Saúde e Nutrição Militar, conduzido em cinco bases do Exército entre agosto de 2024 e janeiro de 2026. A coleta em instalações militares oferece um retrato de grupos de serviço, mas não transforma cada valor laboratorial em diagnóstico. Os próprios autores alertam que a triagem pode gerar consultas e custos adicionais, além de exigir cuidado para evitar tratamentos desnecessários.
A discussão reflete uma mudança mais ampla na maneira como as Forças Armadas tratam a saúde como parte da capacidade institucional. Fatores associados à vida militar — entre eles exposição ambiental, contato com chumbo, combate, lesões físicas, privação de sono e condições de saúde mental — podem influenciar os níveis hormonais. Isso torna a avaliação potencialmente relevante, mas também complexa: resultados podem exigir investigação de causas distintas, e não apenas reposição hormonal.
O interesse por testosterona também cresceu fora do ambiente militar, em um mercado estimado em US$ 4,5 bilhões nos Estados Unidos. A substância é frequentemente promovida como recurso para melhorar desempenho físico, libido, concentração e energia. No entanto, a evidência clínica não sustenta benefícios uniformes para todos esses objetivos. Estudos dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA realizados em 2018 com cerca de 800 homens mais velhos observaram melhora em disfunção erétil, libido e humor, mas pouco ou nenhum avanço em aspectos como fadiga, memória e bem-estar geral.
Também há riscos associados à terapia, sobretudo quando o tratamento é prolongado ou utilizado sem indicação clínica adequada. Entre os efeitos adversos descritos estão alterações de humor, irritabilidade, agressividade, coágulos sanguíneos e redução da contagem de espermatozoides, com possível impacto sobre a fertilidade. Por isso, os especialistas defendem separar a identificação de um resultado fora do parâmetro da decisão de tratar.
A proposta do Pentágono foi apresentada também em termos de prontidão: Hegseth afirmou que manter níveis adequados de testosterona ajudaria os militares a preservar suas capacidades e permanecer na “linha de frente da letalidade”. Essa justificativa aproxima a política de saúde da agenda de desempenho das tropas. Ainda assim, o próprio desenho do programa — com repetição de exames, avaliação clínica e tratamento voluntário — reconhece que a prontidão não pode ser reduzida a um único marcador biológico.
Legenda: Soldado do Exército dos EUA participa de uma marcha de 12 milhas em competição no quartel Schofield, no Havaí, em 3 de fevereiro de 2026. | Créditos: Sgt. Nickson Schenk/U.S. Army
Saúde das tropas também é questão estratégica
Do ponto de vista geopolítico, a diretriz não altera diretamente o equilíbrio militar entre os Estados Unidos e seus concorrentes. Sua relevância é institucional: mostra como Washington procura preservar a disponibilidade e o desempenho de uma força armada numerosa, ao mesmo tempo que enfrenta o custo e a complexidade de oferecer acompanhamento médico preventivo em escala nacional.
Em um cenário de competição estratégica prolongada, a capacidade militar depende não apenas de equipamentos, orçamento e treinamento, mas também da condição física e da retenção de pessoal. Uma política de saúde bem calibrada pode ajudar a identificar problemas tratáveis e apoiar a continuidade do serviço. Em contrapartida, uma triagem sem capacidade adequada de confirmação e acompanhamento pode consumir recursos, criar ansiedade entre os militares e incentivar intervenções sem benefício comprovado para cada indivíduo.
O teste central para o Departamento de Defesa será, portanto, transformar a triagem em cuidado clínico responsável. Isso exige distinguir alterações pontuais de condições persistentes, levar em conta sintomas e fatores modificáveis e comunicar com clareza que a reposição hormonal não é automática. Os pesquisadores enfatizam justamente esse ponto: um resultado positivo costuma demandar repetição, avaliação médica e aconselhamento, enquanto a terapia de longo prazo deve ser considerada apenas quando houver indicação.
Os dados também oferecem um alerta para a administração militar: a proporção de resultados abaixo do limite foi semelhante à observada na população geral dos Estados Unidos, segundo os autores. Assim, a questão não deve ser tratada apenas como um problema específico das tropas. A diferença está na escala e no contexto operacional: nas Forças Armadas, a saúde individual pode repercutir sobre escalas, treinamento, prontidão e necessidades de atendimento em bases espalhadas pelo país e pelo exterior.
Com a nova diretriz, o Pentágono aposta na detecção precoce, mas o estudo indica que o rastreamento é apenas a primeira etapa. A eficácia da política dependerá da qualidade dos exames confirmatórios, da prudência nas decisões terapêuticas e da capacidade de absorver a demanda sem confundir um número laboratorial com uma medida completa da aptidão de um militar.