Thales avança em negociações com a OTAN para implementação de software de comando impulsionado por IA: o futuro da segurança global em jogo — A empresa francesa Thales afirma estar em estágio avançado de conversas com países da Organização do Tratado do Atlântico Norte para utilizar o HexaForce, uma plataforma de comando e controle apoiada por inteligência artificial. A iniciativa ocorre em meio à disputa por autonomia tecnológica na defesa europeia e à pressão para que as forças aliadas processem volumes crescentes de dados sem comprometer a interoperabilidade nem o controle humano sobre decisões militares.

Negociações avançam, mas sem contratos anunciados

O HexaForce foi apresentado pela Thales como uma camada de comando e controle capaz de se conectar a sistemas nacionais e equipamentos já utilizados pelas forças armadas. Em entrevista publicada em 24 de setembro de 2026, Patrick Moreau, vice-presidente da companhia para operações multidomínio, declarou que as conversas com alguns países da OTAN estão “bastante avançadas”. Ele não revelou quais governos participam das negociações, nem informou prazos, valores ou a existência de acordos firmados.

A plataforma foi testada em junho, na Polônia, durante o exercício NATO Coalition Warrior Interoperability Exercise (CWIX), voltado à avaliação da compatibilidade entre sistemas militares aliados. A Thales afirma que o objetivo foi permitir que usuários militares verificassem como o software se integra a soluções existentes, inclusive tecnologias legadas. O exercício, porém, não equivale à adoção formal do produto pela aliança ou por seus países-membros.

Desenhado para atuar do nível de corpo de exército até o batalhão, o HexaForce pretende reunir informações e apoiar o planejamento operacional. Segundo Moreau, a meta definida com usuários é processar até mil missões de alvos por dia — um volume dez vezes superior ao objetivo inicial mencionado pela empresa. A ferramenta também pode sugerir diferentes cursos de ação diante de ameaças identificadas no nível estratégico e encaminhar missões para unidades táticas.

A Thales descreve o sistema como uma solução de arquitetura aberta, estruturada em torno de padrões da OTAN. Países usuários poderiam conectar ferramentas já instaladas para tarefas como planejamento de missões e escolher os modelos de linguagem que desejam empregar, uma característica apresentada pela companhia como forma de reduzir a dependência de um único fornecedor. A plataforma combina recursos de modelos de linguagem com inteligência artificial agêntica, voltada a tarefas como a preparação de missões de direcionamento de alvos.

O sistema também foi projetado para funcionar de maneira distribuída, por meio de diferentes centros de dados instalados em postos de comando. A proposta é evitar que todas as operações dependam de uma única estrutura central de computação, algo que poderia se tornar vulnerável ou insuficiente em cenários de alta intensidade. A empresa afirma que o HexaForce pode incorporar dados de sistemas militares já em uso, além de informações comerciais de rastreamento marítimo e alertas cibernéticos.

Há, contudo, uma distinção operacional importante: o HexaForce é apresentado como uma plataforma de comando e controle, não como substituto dos sistemas táticos responsáveis por fornecer dados dos sensores. E, segundo Moreau, as recomendações produzidas pela inteligência artificial não autorizam ações automáticas. A decisão de selecionar uma opção e ordenar seu cumprimento permanece com o operador humano, inclusive quando a alternativa envolve o emprego de forças aéreas ou terrestres.

A empresa afirma que o sistema está pronto e já foi disponibilizado às forças armadas. A primeira versão, desenvolvida com participação do Exército francês, teria levado nove meses entre a concepção e a entrega. A rapidez de desenvolvimento é relevante para um setor em que a modernização costuma depender de longos ciclos de integração, testes e certificação, mas a adoção por outros países ainda dependerá de avaliações técnicas, requisitos nacionais e decisões de aquisição.

Da interoperabilidade à autonomia tecnológica europeia

O avanço do HexaForce se insere em uma transformação mais ampla na maneira como as forças armadas organizam e compartilham informações. Sistemas de comando e controle, conhecidos pela sigla C2, conectam dados, planejamento e ordens em diferentes escalões militares. A expansão de sensores, plataformas digitais e fontes de informação ampliou a quantidade de dados disponíveis, mas também tornou mais difícil convertê-los rapidamente em uma visão operacional coerente.

Historicamente, a coordenação entre forças de diferentes países dependeu de procedimentos comuns, redes seguras e padrões compatíveis. Para uma aliança como a OTAN, a interoperabilidade é uma exigência estratégica: equipamentos e unidades nacionais precisam conseguir trocar informações e atuar em conjunto, apesar de terem sido desenvolvidos por diferentes governos e empresas. A arquitetura aberta defendida pela Thales responde a essa necessidade, embora a compatibilidade prática dependa de testes, integração e regras de segurança aplicáveis a cada sistema.

A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão a esse desafio. Em vez de apenas transmitir informações, plataformas desse tipo podem ajudar a organizar dados, acelerar análises e apresentar opções aos comandantes. Em operações que envolvam formações maiores — do nível de brigada a corpos de exército com mais de 100 mil militares — a promessa é reduzir o tempo de planejamento e ampliar a consciência situacional. Esses ganhos, entretanto, dependem da qualidade dos dados, da confiabilidade das redes e da capacidade dos operadores de compreender as recomendações recebidas.

A discussão também tem uma dimensão de soberania. A OTAN já opera um sistema de comando e controle fornecido pela norte-americana Palantir Technologies, enquanto a União Europeia busca acelerar o desenvolvimento e a adoção de capacidades europeias. O debate não se resume à origem de um fornecedor: envolve quem controla os dados, quais modelos de inteligência artificial podem ser utilizados, como as atualizações são governadas e até que ponto os países conseguem manter suas decisões operacionais sem dependência excessiva de tecnologia externa.

Esse contexto ajuda a explicar a ênfase da Thales na possibilidade de escolha dos modelos de linguagem e na integração com sistemas nacionais. Para governos europeus, ampliar a autonomia tecnológica pode fortalecer a capacidade de defesa e reduzir riscos de dependência. Ao mesmo tempo, a padronização dentro da aliança continua essencial. Uma solução soberana que não se comunique com as demais pode criar novos obstáculos justamente onde a coordenação militar é mais necessária.

A França também desenvolve seu próprio sistema soberano de comando e controle, chamado Arcadia. Moreau afirmou que o HexaForce poderia se tornar uma peça importante dessa iniciativa, mas ressaltou que a decisão cabe às autoridades francesas, não à empresa. A relação entre as duas plataformas ainda não está definida publicamente, e a coexistência entre sistemas nacionais e soluções de uso multinacional será um dos pontos a acompanhar na evolução do projeto.

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Legenda: A ministra da Defesa francesa, Catherine Vautrin, ao lado do presidente-executivo da Thales, Patrice Caine, na feira Eurosatory, em junho de 2026. | Créditos: Guillaume Baptiste / AFP via Getty Images

IA militar, poder de decisão e desafios para a OTAN

Se for adotado por países aliados, o HexaForce poderá fortalecer a capacidade de coordenação entre diferentes escalões e sistemas militares. Para a OTAN, a integração de ferramentas de inteligência artificial pode representar uma vantagem operacional quando a velocidade de análise se torna decisiva. Mas a possível expansão dessas plataformas também coloca em evidência questões geopolíticas: a proteção de informações sensíveis, a dependência de fornecedores, a governança dos algoritmos e a preservação da autoridade humana em decisões de alto impacto.

O compromisso declarado de manter um operador no controle é central para a proposta da Thales. A empresa afirma que o software pode recomendar alternativas e encaminhar uma missão, mas não executar automaticamente uma ação de combate. Na prática, a efetividade dessa salvaguarda dependerá dos procedimentos militares, da clareza das interfaces e da capacidade de supervisão em condições de pressão, quando decisões precisam ser tomadas rapidamente e os dados disponíveis podem ser incompletos.

Outro desafio é a resiliência. Uma arquitetura distribuída pode reduzir a dependência de um centro único, mas a operação ainda exige redes seguras, comunicação entre postos de comando e proteção contra interferência ou ataques cibernéticos. A incorporação de dados comerciais e de diferentes fontes também pode ampliar a visão dos comandantes, ao mesmo tempo que aumenta a necessidade de verificar a confiabilidade, a atualidade e a origem das informações utilizadas.

As negociações mencionadas pela Thales sinalizam interesse, mas não confirmam uma mudança na estrutura de comando da aliança. O futuro do HexaForce dependerá de decisões soberanas dos países envolvidos, de sua compatibilidade com sistemas já em operação e dos resultados de avaliações militares. A adoção de inteligência artificial em defesa não é apenas uma escolha tecnológica: é também uma decisão sobre confiança, autonomia estratégica e divisão de responsabilidades entre governos, forças armadas e empresas.

Por enquanto, o principal significado geopolítico do projeto está na disputa para definir quem fornecerá as ferramentas digitais que sustentam as operações militares do futuro. A Thales busca posicionar uma solução europeia, interoperável e configurável num ambiente em que a OTAN já utiliza tecnologias de outros fornecedores e em que os governos procuram preservar controle nacional. O avanço das conversas poderá indicar se essa proposta consegue conciliar dois objetivos muitas vezes difíceis de equilibrar: integração entre aliados e soberania sobre capacidades críticas.