Pentágono investe bilhões em Raytheon para ampliar produção de mísseis AMRAAM em tempo recorde. Um contrato plurianual de até US$ 20,7 bilhões busca quase dobrar a fabricação de um dos principais mísseis ar-ar dos Estados Unidos, em uma iniciativa que combina recomposição de estoques, preparação militar e atendimento a aliados. O alcance do acordo, porém, dependerá da aprovação dos recursos pelo Congresso.

Acordo bilionário mira expansão da produção

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos concedeu à Raytheon, subsidiária da RTX, um contrato plurianual para produzir mísseis Advanced Medium-Range Air-to-Air Missile (AMRAAM). O acordo tem valor máximo de US$ 20,7 bilhões e duração inicial de cinco anos, com possibilidade de dois anos adicionais por meio de opções. Segundo o Pentágono, a iniciativa deverá quase dobrar a capacidade de produção do armamento.

A contratação foi concedida em 25 de setembro e anunciada publicamente no dia 28. Trata-se de uma compra conjunta da Força Aérea e da Marinha dos Estados Unidos, além de países aliados. O formato plurianual permite que o governo consolide encomendas previstas para vários exercícios, em vez de negociar a aquisição de forma isolada a cada ano, mecanismo que pode dar maior previsibilidade à indústria e à cadeia de fornecedores.

O valor anunciado representa um salto expressivo em relação ao contrato anterior de grande porte para o AMRAAM, de US$ 3,5 bilhões, concedido em 2025. Ainda assim, o teto financeiro não equivale necessariamente a uma despesa já integralmente autorizada ou a um número definido de mísseis. O Pentágono e a RTX não divulgaram quantas unidades serão compradas nem estabeleceram uma taxa anual de produção vinculada especificamente ao novo acordo.

Há também uma ressalva orçamentária importante: o Congresso ainda não aprovou todo o financiamento necessário para cobrir o contrato. Por isso, a contratação foi descrita como provisória em relatos da imprensa. A diferença entre anunciar uma capacidade industrial e assegurar recursos para sustentá-la é central: empresas podem hesitar em ampliar fábricas, contratar trabalhadores ou encomendar componentes de longo prazo enquanto a verba não estiver garantida.

O acordo integra a campanha do Pentágono chamada Arsenal of Freedom, voltada a acelerar a produção de armamentos. Em fevereiro, a RTX havia firmado cinco acordos-quadro com o departamento, estabelecendo metas de longo prazo para diferentes sistemas. Entre elas estavam a produção anual de pelo menos 1.900 AMRAAMs, mais de 1.000 mísseis Tomahawk e mais de 500 interceptadores Standard Missile-6. Essas metas oferecem uma referência para a expansão pretendida, mas não substituem os termos ainda não divulgados do contrato atual.

Estoque de mísseis e transformação industrial

O anúncio reflete uma mudança mais ampla na política de defesa americana: além de desenvolver sistemas avançados, Washington tenta recuperar capacidade de fabricar munições em volumes compatíveis com conflitos prolongados. A guerra com o Irã contribuiu para reduzir os estoques militares dos Estados Unidos, segundo análises citadas na notícia, e a reposição desses arsenais pode levar anos. Nesse cenário, a disponibilidade de mísseis passa a ser um componente estratégico tão relevante quanto o desempenho de aeronaves e sistemas de defesa.

O AMRAAM ocupa posição importante nessa arquitetura. É um míssil ar-ar de médio alcance amplamente utilizado por forças aéreas e, de acordo com a RTX, está em serviço em 44 países. Também é o principal interceptador do sistema de defesa aérea terrestre NASAMS, empregado pelos Estados Unidos e por diversos outros governos. Essa dupla função — equipar aeronaves e integrar defesas baseadas em terra — amplia a relevância do programa para a segurança americana e para a interoperabilidade com parceiros.

A história recente da indústria de defesa dos Estados Unidos ajuda a explicar a urgência. Durante décadas, a produção militar foi organizada, em grande medida, para atender a demandas planejadas em tempos de paz, com contratos e linhas industriais calibrados para volumes relativamente previsíveis. Guerras e operações de alta intensidade, porém, podem consumir munições em ritmo superior ao da reposição. Quando a demanda cresce de forma abrupta, gargalos em componentes, fornecedores especializados, mão de obra e instalações fabris tornam-se obstáculos à expansão rápida.

O governo tenta reduzir essa vulnerabilidade usando contratos de maior duração e metas de produção antecipadas. Para fabricantes como a Raytheon, compromissos plurianuais podem justificar investimentos em instalações, equipamentos e trabalhadores. Para o Pentágono, a estratégia busca diminuir o intervalo entre a identificação da necessidade militar e a entrega de armamentos. Mas o resultado depende da continuidade do financiamento público e da capacidade de fornecedores menores acompanharem o aumento das encomendas.

A RTX afirmou que quase dobrou, em 2025, a produção de AMRAAM e de outras munições em comparação com 2024, e que avalia possibilidades de coprodução internacional. A empresa também declarou estar investindo em pessoal, cadeia de suprimentos e instalações. Essas medidas apontam para uma tentativa de ampliar a base industrial, embora a notícia não detalhe quais países poderiam participar da coprodução nem em que condições.

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Legenda: Bandeira dos Estados Unidos diante de uma instalação da Raytheon em Woburn, Massachusetts. | Créditos: Elise Amendola/AP, arquivo

Rearmamento dos EUA amplia implicações para aliados

Do ponto de vista geopolítico, a decisão sinaliza que Washington considera necessário elevar a capacidade de sustentação de suas forças e das de seus parceiros. A aquisição conjunta pode facilitar a padronização de armamentos e a coordenação entre países que operam equipamentos compatíveis. Em uma crise, essa convergência pode favorecer o compartilhamento de estoques, treinamento e procedimentos; ao mesmo tempo, aumenta a importância de garantir que a oferta de mísseis acompanhe a demanda de todos os compradores.

O contrato também evidencia a interdependência entre estratégia militar e política industrial. A capacidade de dissuasão não depende apenas de possuir sistemas modernos, mas de demonstrar que eles podem ser repostos em escala e permanecer disponíveis durante uma emergência. Um acordo de até US$ 20,7 bilhões pretende dar à indústria um horizonte mais longo, mas a ausência de financiamento integral confirmado deixa uma incerteza sobre o ritmo e a dimensão efetiva da expansão.

Outro elemento é a transição tecnológica. O Pentágono prepara o desenvolvimento do AIM-260 Joint Advanced Tactical Missile, destinado a oferecer maior alcance e, no futuro, substituir o AMRAAM. Um acordo-quadro com a Lockheed Martin para ampliar a produção do novo míssil foi assinado neste mês. A coexistência dos programas indica que os Estados Unidos não veem a substituição como imediata: enquanto a nova geração é desenvolvida, o AMRAAM continua necessário para equipar aeronaves, apoiar defesas terrestres e atender usuários internacionais.

Essa sobreposição representa um desafio de planejamento. O Pentágono precisa manter uma capacidade robusta para o sistema atual sem comprometer a transição para o sucessor, evitando tanto lacunas de estoque quanto investimentos industriais desalinhados com as necessidades futuras. Para aliados, a continuidade do AMRAAM oferece acesso a uma tecnologia já disseminada, mas também os vincula às decisões de produção, financiamento e exportação tomadas em Washington.

Em perspectiva histórica, o anúncio se insere em uma fase de reavaliação das cadeias de abastecimento militares, impulsionada pelo consumo de munições em conflitos recentes e pela preocupação com a capacidade de sustentar operações de alta intensidade. O resultado do contrato dependerá menos do valor máximo anunciado isoladamente e mais da transformação desse compromisso em verbas aprovadas, componentes disponíveis e entregas concretas. A quase duplicação da produção é a meta declarada; sua execução será um teste para a estratégia americana de reconstruir estoques e reforçar a base industrial de defesa.