A nomeação de um responsável único e com autoridade executiva sobre todos os programas de defesa antimísseis dos Estados Unidos deixou de ser apenas uma discussão burocrática para se tornar uma necessidade estratégica — diante da convergência de ameaças de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e enxames de drones providos por potências rivais e atores regionais, a fragmentação institucional atual compromete a capacidade de proteção das cidades, infraestruturas críticas e forças em campo.

Panorama operacional: fragmentação que expõe a retaguarda

Hoje, a arquitetura de defesa aérea e antimíssil norte-americana está distribuída entre múltiplas agências e ramos das Forças Armadas, com competências, orçamentos e prioridades distintas. Sistemas comprovados em teatros de combate como o Aegis, Patriot, THAAD e o Ground Based Midcourse Defense operam sob jurisdições separadas — Marinha, Exército, Agência de Defesa de Mísseis (MDA) e outros — e dependem de sensores civis como os radares da FAA para vigilância do espaço aéreo doméstico. Essa dispersão cria pontos cegos de comando e controle, duplicação de esforços e lentidão decisória em crises.

O decreto presidencial de 2025 que estabeleceu o programa conhecido como Golden Dome buscou centralizar a ambição: proteger a população e a infraestrutura contra múltiplos vetores aéreos. No entanto, a autoridade formal do diretor do Golden Dome, subordinado ao Subsecretário de Defesa, não foi acompanhada pela atribuição de poderes que permitam reordenar recursos, dirimir conflitos interserviços ou integrar linhas de suprimento e programas de aquisição. Na prática, o sistema permanece — nas palavras da própria Defesa — como um esforço de “equipe”, o que, estrategicamente, equivale a não ter um centro de responsabilidade clara em um domínio onde a velocidade e a coordenação são cruciais.

Sem um único centro de responsabilidade dotado de autoridade executiva, investimentos recentes podem se tornar ineficazes: tempo de resposta fragmentado, incompatibilidades entre sensores e interceptores, e uma cadeia de fornecimento incapaz de aumentar rapidamente a produção de interceptores em caso de conflito prolongado, como já sugeriram análises sobre o impacto das operações no Oriente Médio.

Antecedentes e lições históricas para a consolidação

Ao avaliar soluções institucionais, é imprescindível considerar precedentes do século XX em que a designação de autoridade concentrada acelerou inovações tecnológicas e implantou sistemas críticos. Exempos históricos mostram que quando uma única figura ou escritório recebeu mandato amplo — com responsabilidade sobre projeto, financiamento e implementação — foi possível superar entraves burocráticos e obter resultados operacionais rápidos. Esse modelo, aplicado com sucesso em contextos anteriores como programas nucleares e de mísseis balísticos, aponta para a necessidade de uma autoridade centralizada e legitimada politicamente para coordenar a defesa antimíssil contemporânea.

Do ponto de vista institucional, isso implicaria realocar competências da MDA, integrar programas de interceptores e sensores sob uma liderança comum e estabelecer mecanismos de dual-hatting — atribuições situadas simultaneamente em agências civis e militares quando necessário para garantir acesso a recursos críticos, como os radares da FAA. Tal mudança demandaria alterações regulatórias, reatribuição de verbas e, muito possivelmente, aprovação do Congresso, além de negociações complexas com líderes militares que tradicionalmente defendem autonomia de suas plataformas e programas.

Historicamente, centralizações bem-sucedidas também exigiram estruturas robustas de responsabilização, controle técnico e autonomia operacional para dirimir conflitos entre interesses organizacionais. Sem esses elementos, a unificação de programas permanece apenas formal e corre o risco de perpetuar ineficiências.

Imagem de Capa da Notícia

Legenda: Anúncio presidencial sobre o projeto Golden Dome no Salão Oval. | Créditos: Demetrius Freeman/The Washington Post via Getty Images

Repercussões estratégicas e vetores geopolíticos

Do ponto de vista geopolítico, a existência ou a ausência de um programa integrado de defesa antimísseis tem efeitos de sinalização e dissuasão. Uma autoridade clara e a capacidade demonstrável de proteger o território e as linhas de sustentação logística reduzem a margem de manobra de adversários que buscam desestabilizar por meio de ataques aéreos assimétricos. Se os Estados Unidos conseguirem consolidar e acelerar a produção, integração e posicionamento de interceptores e sensores, isso elevará os custos de ataque para potências revisionistas como Rússia e China e para atores regionais que recorrem a foguetes e drones.

Por outro lado, a centralização também pode provocar reações adversas: rivais podem interpretar a medida como escalada tecnológica e política, acelerando suas próprias capacidades ofensivas e defensivas; aliados podem buscar garantias de interoperabilidade e acesso tecnológico; e as cadeias de fornecimento internacionais podem ficar sujeitas a restrições de exportação mais rígidas. Internamente, uma mudança de autoridade centralizada enfrentará disputas em Washington — entre o Pentágono, agências civis e o Congresso — sobre orçamento, supervisão e riscos de concentração de poder.

Economicamente, um programa unificado pode gerar eficiências e economias de escala, mas também exigirá investimentos massivos e sustentados no tempo para renovar estoques de interceptores, rede de sensores e procedimentos operacionais. No plano industrial, a demanda por rampa de produção pode beneficiar fornecedores domésticos, porém levantará questões sobre dependência de componentes estrangeiros críticos e vulnerabilidades na cadeia de fornecimento.

Em termos operacionais, a consolidação proposta permitiria a criação de um comando unificado de defesa do território que integraria alerta precoce, comando e controle e capacidade de resposta, reduzindo tempos de decisão e aumentando a resiliência cibernética e logística. Para que isso ocorra, entretanto, é preciso que o Executivo e o Legislativo alinhem incentivos, confiram autoridade legal ao novo czar da defesa e criem mecanismos claros de auditoria e responsabilização para evitar excessos e assegurar eficácia.

Conclusão: a transformação institucional em direção a um comando único para defesa antimísseis não é uma panaceia, mas representa o caminho mais plausível para mitigar a vulnerabilidade estratégica dos EUA frente a ameaças emergentes. Sem a decisão política de concentrar autoridade, recursos e responsabilidade, o país corre o risco de manter uma postura reativa, fragmentada e potencialmente insuficiente para proteger sua população e interesses globais em uma era de guerra aérea em massa.