França, Líbano e aliados abriram em Paris uma nova fase de diplomacia voltada a transformar as Forças Armadas Libanesas em pilar de segurança nacional, numa tentativa de prevenir um vácuo militar no sul do país e conter a escalada entre Israel e atores não-estatais; a iniciativa expõe dilemas estratégicos profundos — capacidade operacional limitada do Exército libanês, retirada prevista das tropas da ONU e o risco de maior intervenção regional — que podem redesenhar equilíbrios de poder no Levante.

Situação Atual: Mobilização Internacional para Reforçar o Exército Libanês

Em um encontro em Paris, o presidente francês reuniu o chefe de Estado libanês e outros líderes para articular apoio financeiro, logístico e de treinamento às Forças Armadas Libanesas (LAF) como alternativa à presença da ONU no sul do Líbano. O objetivo declarado é viabilizar um plano de implantação “claro, credível e realista” que permita ao Exército retomar autoridade territorial, substituir gradualmente a missão da UNIFIL e criar condições de segurança sem recorrer a confrontos diretos com atores armados como o Hezbollah. Ao mesmo tempo, a continuidade dos ataques israelenses e a ocupação de uma faixa ao longo da fronteira expõem a fragilidade do quadro de segurança: enquanto o acordo-quadro mediado pelos EUA prevê desdobramentos e desarmamento, sua implementação permanece parcial e dependente de garantias externas que ainda não se concretizaram.

Contexto Histórico: Meia-idade de Operações Internacionais e Fragmentação do Estado

Desde a criação da UNIFIL em 1978, o sul do Líbano tem sido palco de intervenções multilaterais intercaladas por conflitos com Israel e pela ascensão de milícias locais que preencheram lacunas do Estado. A década e meia recente consolidou o Hezbollah como ator militar e político central, ao passo que instituições estatais, notadamente as forças regulares, permaneceram cronicamente subequipadas e politicamente condicionadas. A decisão do Conselho de Segurança de encerrar o mandato da UNIFIL no final de 2026, pressionada por atores como os EUA, abre uma janela de risco: sem uma força sucessora robusta, o vácuo favorecerá atores armados ou provocará novas incursões. O contexto regional — marcado por um conflito ampliado desde um ataque contra o Irã e pela presença de poderes externos com agendas concorrentes — intensifica a urgência por uma solução que combine soberania libanesa e garantias multilaterais.

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Legenda: Macron, o presidente Joseph Aoun e o rei Abdullah II em Paris durante reunião de apoio às Forças Armadas Libanesas | Créditos: Gonzalo Fuentes/Pool Photo via AP

Impacto Geopolítico: Cenários, Riscos e Janela de Oportunidade para o Levante

O desfecho das negociações em Paris tem potencial para alterar três eixos geopolíticos. Primeiro, se o apoio internacional for substancial e coordenado, as LAF podem melhorar sua capacidade dissuasória e administrativa, fortalecendo a autoridade do Estado e reduzindo a janela operacional para grupos armados; isso, por sua vez, poderia estabilizar a fronteira e diminuir o risco de campanhas militares israelenses de grande escala. Segundo, se o apoio for insuficiente ou fragmentado, a retirada da UNIFIL criará um vácuo de segurança que pode acelerar confrontos localizados, deslocamentos populacionais e uma maior intervenção de potências regionais — ampliando a militarização do Líbano e a polarização interna. Terceiro, a proposta de uma força multinacional sucessora traz implicações para a influência europeia no Mediterrâneo oriental e para as relações transatlânticas: um papel europeu mais ativo pode complementar ou competir com iniciativas norte-americanas e sauditas, afetando estratégias de contenção do Irã e do Hezbollah.

Por fim, a viabilidade política interna é determinante: a afirmação do presidente Aoun de que só o Estado deve deter armas cria um discurso de soberania convidativo a doadores, mas enfrenta resistências práticas e riscos de provocar fricções que poderiam degenerar em confrontos se a transição de controle sobre ferramentas de violência não for gerida com escalonamento e garantias multilaterais. Em suma, Paris ofereceu uma plataforma técnica e política — a sua eficácia dependerá da velocidade, coerência e amplitude do apoio externo e da capacidade libanesa de transformar recursos em presença efetiva nas zonas sensíveis.