O afastamento das maiores petroleiras norte-americanas do acordo que cede ao governo Trump o “controle” de campos venezuelanos revela um choque entre oportunidade energética e cálculo de risco: por trás da promessa de acesso a cerca de 65 bilhões de barris estão dúvidas jurídicas, políticas e de reputação que empresas como ExxonMobil e ConocoPhillips preferem evitar por ora.
Ausência das gigantes: avaliação pragmática do risco
O anúncio de um pacto que coloca 17 campos venezuelanos sob um arranjo favorável aos EUA parecia, à primeira vista, uma oportunidade sem precedentes para integrar reservas enormes ao maior mercado consumidor do mundo. Ainda assim, as principais petrolíferas privadas americanas optaram por não se comprometer. A decisão combina fatores concretos: insegurança jurídica sobre a legitimidade dos atos do governo interino, histórico de expropriações da era Chávez, sentenças arbitrais pendentes e um horizonte de retorno de investimento que se estende por mais de uma década.
Executivos do setor têm sinalizado que, sem garantias legais robustas e um regime estável de regras fiscais e contratuais, qualquer exposição a ativos venezuelanos representa risco sistêmico para acionistas e órgãos reguladores. Além disso, há custos reputacionais e de conformidade: a escolha da North American Blue Energy Partners (Nabep) — uma firma de histórico pouco conhecido — como operadora principal e a vinculação dessa companhia a figuras controversas aumentam o receio das grandes companhias em vincular suas marcas a um projeto cuja governança é incerta.
Por fim, o modelo do acordo — que prevê participação do governo dos EUA na Nabep e preferência na compra de parte da produção a preço de custo — redefine o perfil comercial da operação, afastando o formato tradicional de parcerias com majors e exigindo estruturas contratuais e garantias políticas que hoje não existem. Para as grandes petrolíferas, acostumadas a contratos com previsibilidade regulatória e mecanismos sólidos de resolução de disputas, isso é suficiente para suspender decisões de investimento.
Raízes históricas e a crise da indústria venezuelana
A relação entre empresas petrolíferas internacionais e a Venezuela tem longa trajetória: do papel pioneiro da Standard Oil no século XX às nacionalizações e mudanças de regime dos últimos 30 anos. A virada mais traumática ocorreu a partir de 2007, quando o governo venezuelano elevou a participação estatal em projetos-chave, levando empresas como ExxonMobil e ConocoPhillips a deixarem o país e a buscarem indenizações em arbitragem internacional.
O declínio operacional da PDVSA e da produção venezuelana — de mais de 3 milhões de barris por dia na virada do milênio para pouco mais de 1 milhão nos anos recentes — transformou as reservas geológicas em um desafio econômico: seria necessário um aporte estimado em torno de US$ 100 bilhões ao longo de cerca de oito anos para recuperar volumes históricos. Essa necessidade explica o apelo estratégico do acordo, mas também ilumina por que operadores privados exigem marcos legais e segurança política antes de aportar capital substancial.
Em termos institucionais, a legitimidade do atual governo interino e da Assembleia Nacional que aprovou alterações legais é questionada por amplos setores domésticos e por atores internacionais. Normas constitucionais que invalidam atos de autoridades “usurpadas”, lacunas em licitações públicas e o uso de instrumentos legais criados para contornar sanções (como a chamada Lei Antibloqueio) complicam a base jurídica do acordo e alimentam contestações potenciais em tribunais e fóruns internacionais.
Legenda: Delcy Rodríguez e o secretário de Energia dos EUA em coletiva no Palácio de Miraflores | Créditos: Getty Images
Consequências regionais e implicações estratégicas
No curto prazo, a ausência das grandes petrolíferas reduz a probabilidade de uma reativação rápida e em escala das capacidades de produção venezuelanas. A escolha por um parceiro menor e uma estrutura que dá ao governo dos EUA influência direta busca acelerar resultados visíveis antes de ciclos eleitorais domésticos, mas deixa em aberto a sustentabilidade técnica e financeira do plano.
Geopoliticamente, o arranjo sinaliza ambições de Washington em recuperar influência energética na América Latina, contrapondo-se a parceiros alternativos (como China e Rússia) que nos últimos anos estreitaram laços com Caracas. Contudo, essa aproximação tem limites: uma mudança de administração nos EUA ou um realinhamento político interno na Venezuela podem anular cláusulas do acordo e criar novos litígios, afetando a previsibilidade do fornecimento e impondo riscos à segurança energética norte-americana.
Para as próprias petrolíferas, a decisão de ficar de fora mantém intacta a opção de ingresso futuro em consórcios, desde que observadas garantias claras: regime jurídico estável, mecanismos de proteção contra expropriação, resolução credível de disputas e um parceiro local com histórico limpo e capacidade operacional. Caso tais condições surjam, é provável que majors entrem como financiadoras e operadoras, diluindo riscos e trazendo tecnologia e escala necessários para explorar reservas pesadas da Faixa do Orinoco.
Por fim, o episódio expõe um dilema padrão em políticas de energia: o equilíbrio entre ganhos estratégicos imediatos e a necessidade de regras duradouras que protejam investimentos. A Venezuela oferece volumes e proximidade logística que fazem do mercado estadunidense um destino natural para seu petróleo, mas transformar potencial geológico em fluxo comercial confiável depende de decisões político-institucionais que, até agora, permanecem incertas.