F-35 dos EUA Farão Estreia Marcante em Exercício Aéreo Multinacional na Índia: O Que Esperar? A participação inédita dos caças furtivos norte-americanos em missões táticas realizadas a partir de uma base indiana coloca Nova Délhi diante de uma oportunidade estratégica: observar de perto como uma aeronave de quinta geração pode operar em conjunto com forças aéreas de diferentes países. O exercício Tarang Shakti começa neste sábado, em Jodhpur, e também ocorre em meio à competição militar crescente no Indo-Pacífico.
Estreia do F-35 amplia o alcance do exercício
Os F-35 da Força Aérea dos Estados Unidos participarão pela primeira vez de missões táticas com caças indianos em território da Índia. A atividade integra o Tarang Shakti, exercício multinacional que será realizado na base aérea de Jodhpur, no estado do Rajastão, a cerca de 200 quilômetros da fronteira com o Paquistão. As manobras estão previstas para começar no sábado e terminar em 12 de outubro.
O encontro reúne forças de oito países, enquanto outros 32 acompanharão as atividades como observadores. Além dos Estados Unidos, França e Emirados Árabes Unidos levarão aeronaves de combate: os franceses participarão com caças Rafale, e os emiradenses, com F-16. Alemanha, Austrália, Bangladesh, Sri Lanka e Grécia também enviarão recursos aéreos, incluindo aeronaves de vigilância e transporte.
A Índia participará com alguns de seus principais modelos de combate, entre eles Rafale, Su-30MKI, Tejas e Mirage 2000. O país ainda não possui um caça de quinta geração em operação, o que torna a presença dos F-35 especialmente relevante para a Força Aérea Indiana. O exercício não significa, por si só, uma decisão de Nova Délhi de adquirir o modelo norte-americano: o destaque está na oportunidade de treinamento e intercâmbio operacional.
Durante as manobras, os participantes poderão testar procedimentos conjuntos, comparar métodos de emprego do poder aéreo e avaliar a interoperabilidade entre forças que operam aeronaves e sistemas distintos. Para a Índia, a convivência operacional com um caça furtivo avançado também pode oferecer referências sobre integração de sensores, compartilhamento de informações e coordenação em redes de combate — aspectos importantes da guerra aérea contemporânea.
O vice-chefe do Estado-Maior da Força Aérea Indiana, marechal do ar Ashutosh Dixit, afirmou que o objetivo do Tarang Shakti é permitir que os participantes identifiquem lacunas e aperfeiçoem suas práticas. Segundo ele, exercícios realistas ajudam a colocar pressupostos à prova e a compreender diferentes formas de empregar o poder aéreo.
Da exposição à operação: a aproximação militar
A participação no Tarang Shakti marca uma nova etapa na presença do F-35 na Índia. O caça já havia sido exibido duas vezes em eventos de defesa no país, e a Força Aérea Indiana operou ao lado de aeronaves do mesmo modelo durante exercícios realizados na Austrália dois anos antes. A novidade agora é a execução de missões táticas com caças indianos a partir de uma base aérea indiana.
O contexto regional ajuda a explicar a atenção dada ao exercício. A China amplia sua frota de caças de quinta geração, enquanto a Índia ainda não dispõe de uma aeronave dessa categoria. Nesse cenário, treinar ao lado de um F-35 pode proporcionar aos militares indianos uma experiência prática sobre como integrar plataformas avançadas a operações combinadas e como a furtividade pode dificultar a detecção por radares adversários. O exercício, contudo, não substitui o desenvolvimento de capacidades próprias nem revela, por si só, os planos de aquisição da Índia.
As manobras também ocorrem após uma breve confrontação entre Índia e Paquistão em maio de 2025, na qual os dois países mobilizaram caças. Dixit disse que a Força Aérea Indiana pretende aproveitar os exercícios para testar aprendizados decorrentes daquele episódio. A proximidade de Jodhpur com a fronteira paquistanesa confere relevância estratégica ao local, embora o Tarang Shakti seja apresentado como treinamento multinacional, e não como uma operação dirigida contra um país específico.
A agenda de cooperação aérea de Nova Délhi inclui ainda a aproximação com o Japão. Entre 9 e 22 de setembro, os dois países realizaram exercícios bilaterais na Índia, nos quais Tóquio levou pela primeira vez ao país seus caças Mitsubishi F-2A. A sequência de atividades com parceiros distintos indica o esforço indiano para ampliar a experiência operacional e diversificar os vínculos de defesa no Indo-Pacífico.
Legenda: F-35 da Força Aérea dos EUA decola durante a exposição Aero India 2025, em Bengaluru. | Créditos: Idrees Mohammed/AFP via Getty Images
Indo-Pacífico, interoperabilidade e sinal diplomático
Geopoliticamente, a presença dos F-35 no exercício envia um sinal de continuidade na cooperação de defesa entre Washington e Nova Délhi. Essa parceria mantém-se ativa apesar de tensões mais amplas relacionadas a disputas comerciais e às compras indianas de petróleo russo. A realização de atividades conjuntas não elimina divergências, mas mostra que os dois governos preservam canais de colaboração militar considerados importantes.
Para os Estados Unidos, participar do Tarang Shakti fortalece a interação com uma potência central do Indo-Pacífico e amplia o contato entre suas forças aéreas e parceiros regionais. Para a Índia, o exercício oferece acesso a experiências operacionais de países com diferentes doutrinas e equipamentos, sem exigir alinhamento automático a uma única potência. Essa estratégia de cooperação diversificada é coerente com a busca de Nova Délhi por maior capacidade de ação e margem de decisão próprias.
A interoperabilidade será um dos aspectos mais concretos a observar. Em uma operação multinacional, não basta que aeronaves de diferentes origens voem lado a lado: é necessário coordenar procedimentos, comunicações e troca de informações. O Tarang Shakti cria um ambiente de treinamento para que os participantes avaliem esses desafios. A presença de um F-35 pode tornar mais visível o papel de sensores e dados integrados nas operações aéreas, mas os resultados específicos das missões dependerão do que for efetivamente exercitado e divulgado.
O exercício também deve ser interpretado à luz da competição estratégica com a China, sem reduzi-lo a uma demonstração de força contra Pequim. A expansão das capacidades aéreas chinesas é uma preocupação para a Índia, e a cooperação com Estados Unidos, Japão, França, Austrália e outros participantes contribui para ampliar o repertório de treinamento de Nova Délhi. Ao mesmo tempo, a presença de Bangladesh, Sri Lanka e outros países evidencia o caráter multinacional da iniciativa.
O principal resultado do Tarang Shakti poderá estar menos na imagem de caças avançados reunidos em uma base indiana e mais nas lições extraídas da operação conjunta. Para a Força Aérea Indiana, a estreia tática do F-35 representa uma oportunidade de observar, comparar e aperfeiçoar procedimentos em um ambiente internacional. Para Washington e Nova Délhi, é também uma demonstração prática de que a cooperação militar segue em curso, mesmo diante de diferenças políticas e econômicas.