Ex-ministro da Defesa da Ucrânia inicia projeto ousado para desenvolvimento de robôs de combate em meio à guerra — Mykhailo Fedorov quer reunir empresas, engenheiros, inteligência artificial e capital para acelerar a criação de sistemas robóticos capazes de assumir tarefas perigosas na linha de frente. Batizada de “Exército de Robôs”, a iniciativa pretende reduzir a exposição de soldados ucranianos e dar ao país vantagem tecnológica sobre a Rússia, mas enfrenta prazos ambiciosos e desafios técnicos, industriais e éticos.

Plano mira robôs na linha de frente

Anunciado em Lviv durante a IT Arena, uma das principais conferências de tecnologia da Ucrânia, o projeto foi apresentado por Fedorov como uma mobilização concentrada de recursos para a defesa. A comparação com o “Projeto Manhattan” — programa liderado pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial para desenvolver a primeira bomba atômica — destaca a escala de urgência pretendida, não a natureza das armas em desenvolvimento.

A meta declarada é fazer com que robôs terrestres, incluindo modelos humanoides, assumam parte das tarefas mais arriscadas atualmente executadas por soldados. Fedorov afirmou que espera obter um primeiro resultado confirmado em campo com um robô de aparência humanoide em até seis meses. Em um horizonte de um ano, a iniciativa busca viabilizar uma operação de assalto na qual máquinas conduzam as etapas mais perigosas sem soldados de infantaria ao lado.

Os prazos são ambiciosos. Para tentar cumpri-los, o ex-ministro disse que o programa não começará por um ciclo extenso de pesquisa básica: a prioridade será investir em empresas cujos produtos já tenham sido testados e demonstrem potencial de aplicação. A proposta prevê reunir equipes especializadas em robótica, inteligência artificial, sensores e sistemas autônomos, além de financiar desenvolvimento, testes com militares e ampliação da produção de soluções consideradas eficazes.

O plano, porém, não se limita a robôs terrestres. Fedorov indicou três frentes principais: sensores e plataformas robóticas; sistemas mais baratos para interceptar drones do tipo Shahed; e drones e mísseis de ataque com recursos de inteligência artificial. A composição sugere uma estratégia voltada tanto a proteger forças e infraestrutura quanto a ampliar a capacidade de vigilância e ataque da Ucrânia.

Segundo o anúncio, o “Exército de Robôs” deverá combinar um fundo de investimento para equipes de tecnologia, empresas próprias de defesa e uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento. Fedorov afirmou que já há recursos para apoiar algumas companhias parceiras, mas não divulgou seus nomes nem detalhes financeiros. O modelo pretende conectar problemas identificados no campo de batalha a equipes capazes de desenvolver, testar e, quando houver resultados, produzir soluções em maior escala.

A iniciativa também se insere em uma disputa por velocidade. Fedorov argumenta que a Rússia tem capacidade de copiar inovações ucranianas e ampliá-las rapidamente, apoiada por forças armadas e base industrial maiores. Para Kiev, portanto, a vantagem não dependerá apenas de criar tecnologias inéditas, mas de transformar protótipos em equipamentos utilizáveis antes que o adversário adapte suas próprias táticas e meios de combate.

Da guerra de drones à automação terrestre

A experiência anterior de Fedorov ajuda a explicar a lógica do novo programa. Em 2022, quando ocupava o cargo de ministro da Transformação Digital, ele lançou o “Exército de Drones”, iniciativa que ajudou a organizar a demanda estatal, estimular fabricantes ucranianos e ampliar o treinamento de operadores e a formação de unidades especializadas. O projeto atual busca aplicar uma abordagem semelhante a um conjunto mais amplo de tecnologias militares.

Essa trajetória acompanha uma transformação acelerada na guerra da Ucrânia. Drones de reconhecimento e ataque tornaram-se parte central das operações, enquanto sensores e comunicações digitais influenciam a localização de alvos e a coordenação das forças. A experiência no campo de batalha também encurtou o caminho entre a identificação de uma necessidade e o teste de uma solução, aproximando desenvolvedores, militares e órgãos de aquisição.

Os robôs terrestres já têm funções práticas, sobretudo em logística e evacuação. De acordo com dados do Ministério da Defesa ucraniano citados na notícia, as tropas realizaram mais de 25 mil missões desse tipo em agosto, número 3,3 vezes superior ao registrado em janeiro. Esses veículos podem transportar suprimentos ou retirar feridos de áreas perigosas, reduzindo a exposição humana sem necessariamente substituir combatentes em todas as tarefas.

Há, contudo, uma diferença importante entre o uso atual e a visão apresentada por Fedorov. A maioria dos sistemas terrestres em operação ainda é controlada por pessoas, muitas vezes à distância por meio de conexões via Starlink. Já os modelos humanoides e outras plataformas futuristas exibidos em um vídeo produzido com inteligência artificial não representam, segundo a reportagem, equipamentos que estejam hoje sendo empregados em combate na Ucrânia. A apresentação descreve uma ambição, não uma capacidade já comprovada.

Essa distinção é decisiva para avaliar o projeto. Um veículo terrestre remoto pode executar transporte ou reconhecimento sob comando humano; uma máquina capaz de se deslocar em terrenos complexos e realizar tarefas de combate exige avanços em mobilidade, percepção, comunicação e resistência a interferências. Quanto maior a autonomia concedida ao sistema, mais delicadas se tornam as questões de supervisão humana, identificação de alvos e responsabilização por decisões tomadas durante uma operação.

A urgência também decorre do ambiente militar imediato. A Ucrânia se preparava para outro inverno de ataques russos, em meio à escassez de interceptadores de defesa aérea. No período em que o projeto foi anunciado, ataques russos com drones atingiram edifícios civis e instalações em Kiev e arredores, segundo o relato publicado. Nesse contexto, a busca por sistemas mais baratos de interceptação e por equipamentos não tripulados tem dimensão operacional: preservar vidas, ampliar a capacidade de resposta e aliviar a pressão sobre recursos escassos.

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Legenda: Mykhailo Fedorov apresenta, em Lviv, a iniciativa ucraniana para acelerar o desenvolvimento de robôs militares. | Créditos: Katie Livingstone

Disputa tecnológica e consequências geopolíticas

O “Exército de Robôs” reflete uma mudança na forma como a Ucrânia procura equilibrar a desvantagem numérica e industrial diante da Rússia. Sistemas não tripulados podem ampliar a vigilância, transportar equipamentos e executar missões perigosas sem expor diretamente tantos soldados. Se forem produzidos em escala e integrados às operações, também podem ajudar Kiev a preservar efetivos humanos para tarefas que ainda exigem julgamento, adaptação e controle territorial.

O projeto, entretanto, não elimina a assimetria entre os dois países. A Rússia dispõe de maior capacidade industrial e, conforme a avaliação apresentada por Fedorov, tem demonstrado aptidão para reproduzir e ampliar tecnologias observadas no campo de batalha. A resposta ucraniana depende, assim, de ciclos rápidos de inovação, mas também de financiamento estável, cadeias de componentes, treinamento, manutenção e capacidade de produzir equipamentos em volume suficiente.

Esse esforço pode aprofundar a integração entre o setor de tecnologia e a defesa ucraniana. Startups, fornecedores de componentes, desenvolvedores de software e unidades militares passariam a compor um ecossistema voltado a transformar necessidades operacionais em produtos. O modelo oferece potencial para acelerar adaptações, mas também torna a coordenação entre o Estado e empresas privadas um tema estratégico: compras, propriedade intelectual, segurança de dados e continuidade do financiamento serão determinantes para a sustentabilidade do programa.

Há ainda implicações para a segurança internacional. A expansão de veículos terrestres autônomos e de sistemas de ataque com inteligência artificial reforça o debate sobre o grau de controle humano necessário no uso da força. A reportagem descreve metas de automação e emprego de robôs, mas não afirma que a Ucrânia já tenha implantado máquinas capazes de selecionar e atacar alvos sem intervenção humana. A diferença entre automação de tarefas e autonomia para decidir sobre um ataque precisa permanecer clara, tanto na avaliação militar quanto no debate jurídico e diplomático.

Para Kiev, o objetivo imediato é evitar que a inovação russa acompanhe ou supere a ucraniana e reduzir o custo humano de uma guerra prolongada. Para os demais países, a iniciativa funciona como um sinal de que a competição militar está avançando para além dos drones aéreos: robôs terrestres, sensores conectados, inteligência artificial e defesa contra ataques de baixo custo tendem a ocupar espaço crescente nos planejamentos de segurança.

O sucesso do projeto não será medido apenas pelo anúncio de protótipos ou pela aparência futurista das máquinas. A prova estará na capacidade de operar em condições reais, resistir a interferências, receber manutenção e cumprir tarefas sem comprometer a segurança das tropas. Se conseguir converter essa visão em sistemas confiáveis e produzidos em escala, a Ucrânia poderá influenciar a próxima etapa da guerra tecnológica. Até lá, o “Projeto Manhattan” de Fedorov permanece uma aposta de alto risco: relevante para a estratégia do país, mas ainda dependente de resultados que precisam ser demonstrados no campo de batalha.