EUA se retiram do Iraque após 20 anos: O que isso significa para a influência do Irã na região? A saída das forças da coalizão internacional das últimas bases no país, prevista para 30 de setembro de 2026, encerra uma presença militar que atravessou diferentes fases de guerra e combate ao terrorismo. A mudança, porém, não representa apenas o fim de uma missão: pode alterar o equilíbrio entre Bagdá, Washington e Teerã, ampliar o espaço político de grupos armados apoiados pelo Irã e testar a capacidade iraquiana de conter ameaças como o Estado Islâmico.

Retirada americana redesenha o equilíbrio em Bagdá

Segundo as informações publicadas pela Reuters, a retirada foi acordada em 2024, durante o governo de Joe Biden, e está sendo concluída pela administração de Donald Trump. O encerramento da presença nas últimas bases ocorre em um momento de forte tensão regional, enquanto os Estados Unidos também estão envolvidos em um conflito com o Irã. A coincidência torna a decisão particularmente sensível: a redução da presença militar americana no Iraque é apresentada por Teerã e por facções aliadas como uma vitória estratégica.

O efeito mais imediato pode ser político. Por anos, a presença dos Estados Unidos funcionou como um contrapeso à influência iraniana no Iraque, embora não tenha impedido Teerã de construir relações estreitas com partidos e grupos armados locais. Com a saída da coalizão, essas facções podem tentar converter o discurso de vitória em maior influência sobre decisões de segurança e sobre a política nacional, segundo avaliações de especialistas iraquianos citados na reportagem.

Esse cenário não significa que o Irã passará a controlar automaticamente o país. O Iraque tem instituições próprias, disputas políticas internas e uma sociedade diversa, além de uma liderança que procura preservar relações com Washington e Teerã. A retirada, contudo, pode alterar o custo e as condições dessa política de equilíbrio, sobretudo se o governo central tiver dificuldade para limitar a autonomia de grupos armados ou garantir a segurança em regiões vulneráveis.

Representantes da chamada Resistência Islâmica no Iraque celebraram a saída como uma derrota do projeto americano. Já analistas e autoridades iraquianas alertam para o risco de um vazio de segurança. A diferença entre essas leituras evidencia o principal dilema de Bagdá: afirmar a soberania nacional e, ao mesmo tempo, evitar que a redução do apoio externo fortaleça atores armados fora do controle efetivo do Estado.

Da invasão de 2003 ao retorno contra o Estado Islâmico

A presença militar dos Estados Unidos no Iraque começou com a invasão de 2003, que derrubou o governo de Saddam Hussein. A ocupação subsequente foi marcada por uma prolongada insurgência, conflitos sectários e uma reorganização profunda das instituições iraquianas. A guerra deixou um legado de instabilidade e perdas humanas: de acordo com os dados citados na reportagem, cerca de 4.500 americanos morreram ao longo de mais de duas décadas de operações relacionadas ao Iraque.

As forças americanas deixaram o país no fim de 2011, mas retornaram menos de três anos depois, quando o Estado Islâmico conquistou territórios extensos no Iraque e na Síria. Entre 2014 e 2017, a coalizão liderada pelos Estados Unidos apoiou as forças iraquianas na campanha que derrotou o grupo como força territorial organizada. A derrota do chamado califado, porém, não eliminou suas redes clandestinas: células remanescentes continuaram a representar uma ameaça.

O histórico ajuda a explicar por que a retirada atual é diferente da saída de 2011. Desta vez, o anúncio ocorre após anos de cooperação contra o Estado Islâmico e em um ambiente regional de confronto entre Washington e Teerã. Além disso, a coalizão oferecia ao Iraque capacidades de inteligência, apoio logístico e vigilância aérea com drones, recursos que autoridades iraquianas e curdas temem ver reduzidos com o encerramento da missão.

O debate também carrega uma dimensão de soberania. A retirada de tropas estrangeiras é amplamente popular entre os iraquianos, mas o apoio à soberania não elimina as preocupações sobre segurança. Líderes tribais e representantes de forças locais argumentam que a transição pode ser prematura se as instituições nacionais ainda não tiverem meios suficientes para assumir todas as responsabilidades operacionais deixadas pela coalizão.

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Legenda: Veículos circulam por uma rua de Fallujah, no Iraque, em meio à transição na presença militar internacional. | Créditos: Thaier Al-Sudani/Reuters

Influência do Irã e risco de novas brechas de segurança

Para Teerã, a saída americana tem valor estratégico e simbólico. O governo iraniano apresenta a retirada como parte de seu objetivo de reduzir a presença militar dos Estados Unidos no Oriente Médio e como um avanço para o chamado “eixo da resistência”, formado por grupos aliados em diferentes países. No Iraque, facções armadas próximas ao Irã podem ganhar margem para pressionar o governo e disputar influência sobre as forças de segurança, embora o alcance desse movimento dependa das decisões de Bagdá e das disputas políticas internas.

O impacto pode ultrapassar as fronteiras iraquianas. O país ocupa uma posição central entre o Irã e o mundo árabe e tem sido, ao mesmo tempo, parceiro político e militar de Washington e de Teerã. Essa condição fez do território iraquiano um espaço de competição indireta, incluindo ataques contra bases americanas e ações de retaliação. A redução da presença dos Estados Unidos pode diminuir um foco de atrito, mas também tornar mais difícil dissuadir ataques e conter a escalada entre atores locais e potências externas.

A reportagem registra que Washington atribuiu a milícias apoiadas pelo Irã participação no conflito regional, incluindo ataques contra países vizinhos. Entre os episódios mencionados está um ataque recente a um importante oleoduto saudita. O governo iraquiano afirma estar tentando conter a influência desses grupos. A distância entre as declarações oficiais e a capacidade de impor controle efetivo será um indicador decisivo da autoridade do Estado após a retirada.

O Estado Islâmico representa outro risco. Autoridades iraquianas e curdas alertam que a redução do apoio de inteligência, logística e vigilância dos Estados Unidos pode criar oportunidades para células adormecidas se reorganizarem. Um comandante curdo relatou ter observado movimentações de integrantes do grupo após o anúncio da saída, enquanto autoridades de segurança iraquianas disseram ter identificado uma célula suspeita que planejava ataques suicidas para coincidir com a transição.

Esses relatos não demonstram, por si só, que o Estado Islâmico esteja em condições de recuperar o território que controlou no passado. Indicam, no entanto, que a organização ainda pode explorar falhas de coordenação, disputas entre forças locais e lacunas de vigilância. A prevenção dependerá da cooperação entre o governo federal iraquiano e as autoridades curdas, da continuidade do compartilhamento de informações e da capacidade das forças nacionais de agir sem depender da presença direta de tropas estrangeiras.

O futuro do equilíbrio regional será definido menos pela partida física das forças americanas do que pela forma como Bagdá preencherá as responsabilidades transferidas. Se o governo consolidar o comando estatal sobre a segurança e mantiver instituições capazes de resistir à pressão de facções armadas, a retirada poderá reforçar a soberania iraquiana. Se essas condições não forem alcançadas, Teerã e seus aliados poderão ampliar sua influência, enquanto o Estado Islâmico e outros grupos exploram as brechas.

Assim, a saída dos Estados Unidos marca uma inflexão importante, mas não encerra a disputa por influência no Iraque. O país continuará sendo um espaço decisivo para a relação entre Washington e Teerã e para a segurança do Oriente Médio. A principal questão agora é se as autoridades iraquianas conseguirão transformar o fim da presença militar da coalizão em maior autonomia nacional, sem permitir que a transição produza um novo ciclo de instabilidade.