As eleições regionais em Berlim e Meclemburgo-Pomerânia Ocidental ganharam dimensão que ultrapassa a política doméstica alemã: elas se tornaram um teste de estresse para o governo de Friedrich Merz, um termômetro da força crescente da extrema direita e um indicador do grau de erosão da confiança pública no centro político europeu. Em um cenário marcado por inflação social percebida, crise habitacional, debate migratório e frustração com a capacidade de entrega do Estado, a disputa nas urnas não define apenas governos locais — ela ajuda a projetar o rumo da maior economia da União Europeia e o grau de resiliência das democracias parlamentares diante da ascensão de forças antisistêmicas.
Pressão sobre o centro político alemão
A votação em Berlim e em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental ocorre sob forte carga simbólica e com potencial de abalar a coalizão liderada por Friedrich Merz. O ponto central da disputa não é apenas a renovação dos parlamentos estaduais, mas a interpretação política dos resultados: um bom desempenho da Alternativa para a Alemanha (AfD) consolidaria a percepção de que a extrema direita está deixando de ser um fenômeno periférico para se tornar uma força estrutural no sistema político alemão. No caso de Meclemburgo-Pomerânia, a competição direta entre a social-democrata Manuela Schwesig e o candidato da AfD, Leif-Erik Holm, torna a eleição um embate entre continuidade institucional e ruptura populista. Já em Berlim, a disputa envolvendo a CDU e a Esquerda (Die Linke) reflete a centralidade da crise de moradia e a capacidade de mobilização de propostas radicais em um eleitorado urbano e jovem.
Os números citados por pesquisas recentes reforçam a gravidade do momento. Em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD apareceu muito próxima da SPD, com 36% contra 37%, enquanto a CDU rondava a faixa de 6%, perigosamente perto da cláusula de barreira de 5% para entrar no parlamento estadual. Esse quadro revela mais do que uma simples oscilação eleitoral: ele expõe a fragmentação do voto, a erosão dos partidos tradicionais e a probabilidade de paralisia política local em caso de avanço dos extremos. Para Merz, o impacto vai além do plano regional. Depois de apenas 16 meses no poder, sua aprovação teria despencado para cerca de 14%, segundo as pesquisas mencionadas, ampliando a percepção de desgaste precoce de sua liderança nacional.
Do ponto de vista geopolítico interno, a mensagem é clara: quando o centro político perde capacidade de representar expectativas sociais concretas, o eleitorado passa a premiar alternativas de protesto. Na Alemanha, isso costuma ter efeito multiplicador sobre a política europeia, porque a estabilidade alemã sempre funcionou como âncora para decisões da União Europeia, em especial nas áreas econômica, migratória e de segurança. O avanço da AfD em estados do leste alemão sinaliza uma reorganização do mapa político que pode fortalecer agendas mais restritivas sobre imigração, endurecimento institucional e contestação à política tradicional de consenso.
O longo desgaste do sistema partidário
Para compreender a importância das eleições atuais, é necessário observar o processo histórico que alimenta o crescimento da AfD e o enfraquecimento relativo dos partidos convencionais na Alemanha oriental. Desde a reunificação, os estados do leste alemão carregam assimetrias econômicas, demográficas e simbólicas em relação ao oeste do país. Desindustrialização parcial, menor dinamismo salarial, sensação de distância em relação às elites de Berlim e desconfiança com a globalização produziram um terreno fértil para partidos que se apresentam como defensores do “alemão comum” contra uma suposta classe política desligada da realidade social.
A AfD soube explorar esse ambiente com uma narrativa combinando anti-imigração, crítica ao establishment e apelo identitário. O partido também aprendeu a capitalizar crises sucessivas — da pandemia à inflação, passando pelas tensões em torno da guerra na Ucrânia e pelos debates sobre custo de vida. A institucionalidade alemã reagiu por anos tentando isolar a legenda, evitando alianças e mantendo-a fora das estruturas de poder. No entanto, como apontado por especialistas citados na cobertura, essa estratégia de exclusão não se mostrou suficiente para bloquear sua ascensão. A dificuldade dos demais partidos em oferecer respostas convincentes a temas como migração, desigualdade social e insegurança econômica tem sido um dos motores dessa transformação.
Berlim, por sua vez, adiciona uma camada distinta ao cenário. A capital alemã reúne população jovem, elevada pressão sobre o mercado imobiliário e forte polarização entre distritos de perfis sociais contrastantes. Nesse ambiente, a Die Linke encontra espaço para propostas mais duras de intervenção no setor habitacional, enquanto a CDU tenta se posicionar como alternativa de gestão responsável. A disputa, portanto, não se limita a direita versus esquerda; ela expressa o contraste entre a política de administração moderada e a demanda crescente por soluções radicais para problemas concretos que se acumulam há anos.
Historicamente, as eleições regionais alemãs costumam ser lidas como eventos de segunda ordem, mas o momento atual quebra essa lógica. O impacto da vitória da AfD em Saxônia-Anhalt, citada como um divisor de águas, alterou a percepção de risco em todo o sistema partidário. Se um partido antes tratado como inegavelmente periférico consegue vencer em um estado relevante e ameaçar maiorias absolutas, o efeito sobre a cultura política alemã é profundo. Não se trata apenas de mais um resultado regional, mas de uma possível mudança de era, com consequências para a governabilidade em nível federal.

Legenda: Placas de campanha em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental refletem a disputa acirrada entre partidos tradicionais e a extrema direita na Alemanha oriental | Créditos: John MacDougall/AFP
Repercussões para a Europa
O impacto geopolítico dessas eleições extrapola a fronteira alemã porque a Alemanha é o principal eixo de estabilidade política, industrial e fiscal da União Europeia. Qualquer fortalecimento expressivo da AfD em nível estadual intensifica o efeito de contágio sobre outras forças identitárias e eurocéticas no continente. Em um momento em que vários países vivem tensões sobre imigração, custo de vida, desindustrialização e perda de confiança em elites tradicionais, um avanço da extrema direita na Alemanha serviria como validação simbólica para movimentos semelhantes em outras capitais europeias.
Além disso, a fragilidade de Merz tem implicações diretas para a capacidade da Alemanha de sustentar liderança europeia. Um chanceler em queda de popularidade tende a operar com menor margem para coordenar posições duras e coerentes em temas como defesa comum, política industrial, financiamento da transição energética e resposta migratória. Em termos históricos, a força da Alemanha na Europa sempre esteve ligada à previsibilidade doméstica. Quando esse elemento vacila, a arquitetura de decisões da União Europeia se torna mais lenta, mais negociada e mais vulnerável a vetos cruzados.
Há também um componente estratégico na leitura de longo prazo. O avanço da AfD é acompanhado com atenção por aliados e adversários da Alemanha porque pode alterar a postura do país em debates internacionais sensíveis, incluindo relação com a União Europeia, política de sanções, prioridades orçamentárias e grau de abertura para compromissos multilaterais. Mesmo que governos regionais tenham escopo limitado, eles funcionam como laboratórios políticos e como caixas de ressonância de tendências futuras. O desempenho da AfD nestas eleições pode influenciar o comportamento de doadores, líderes partidários e eleitores indecisos nas eleições federais de 2029.
Por fim, o que está em disputa não é apenas quem administrará Berlim ou Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, mas qual narrativa conseguirá capturar o imaginário político alemão: a da governabilidade tradicional, baseada em coalizões e incrementalismo, ou a da ruptura, apoiada no cansaço social com as instituições. Se a extrema direita avançar de forma significativa, a Alemanha entrará em uma nova fase de sua história política recente, com impactos diretos sobre o equilíbrio europeu e sobre a própria capacidade do sistema democrático de responder ao mal-estar social sem ceder à radicalização.