Em meio a uma dramática redução da violência nas ruas, El Salvador convive com uma face menos visível e crescente: o desaparecimento social de dezenas de milhares de pessoas presas sob um estado de exceção que dura há mais de quatro anos. A narrativa emergente — de mães que buscam informações, enfrentam custos e incertezas e organizam um movimento coletivo de denúncia — revela não só o custo humano da política de segurança de Nayib Bukele, mas também desafios institucionais e riscos geopolíticos que extrapolam fronteiras.
Panorama atual: mães, prisões e lacunas de informação
O atual quadro penal salvadorenho combina prisões em massa, detenções quase indiscriminadas e uma opacidade institucional que deixa famílias sem respostas. Desde abril de 2022, quando o governo instituiu o decreto de estado de exceção, as forças de segurança detiveram dezenas de milhares de pessoas acusadas de "associações ilícitas". Organizações independentes contabilizam mais de 91 mil detenções relacionadas a essa política; o próprio presidente declarou que cerca de 7 mil pessoas já foram liberadas após revisão, mas decisões judiciais individuais que ordenaram solturas têm, em muitos casos, sido ignoradas ou não efetivadas.
O resultado é uma população carcerária esmagadora, com julgamentos coletivos — por vezes reunindo centenas de réus num mesmo processo — e um sistema judicial pressionado ao limite. Essas dinâmicas provocam um vácuo de informação sobre a situação real dos detidos: transferências não comunicadas, negativas de visita e relatos de famílias que só reconhecem parentes por fotos ou vídeos oficiais. No centro dessa crise humanitária está um movimento liderado majoritariamente por mulheres, muitas delas do meio rural e em situação de vulnerabilidade econômica, que se organizaram sob o nome "Mães pela Liberdade" para exigir transparência, visitas e julgamentos justos e individuais.
Raízes históricas e cronologia das medidas
O endurecimento da política de segurança em El Salvador tem raízes profundas. Décadas de dominância de gangues e um histórico de altíssimos índices de homicídio criaram um terreno fértil para medidas de exceção que prometiam recuperação da ordem pública. Em abril de 2022, o Executivo promulgou um decreto de emergência que suspendeu garantias constitucionais e ampliou poderes de detenção. A partir dali, o aparato de segurança acelerou prisões em massa e a construção de megaprisões, como o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), símbolo do novo modelo penal.
Paralelamente, reformas legais — incluindo alterações à Lei contra o Crime Organizado — estenderam prazos de detenção provisória e formalizaram práticas de julgamento coletivo, justificadas pelo governo como resposta à sobrecarga judicial. A política rendeu dividendos políticos a Bukele: à medida que os homicídios caíam e a sensação de segurança aumentava, ele foi reeleito com ampla margem em fevereiro de 2024. Entretanto, críticos locais e internacionais passaram a alertar para a erosão de garantias processuais, riscos de detenções arbitrárias e a falta de mecanismos efetivos de controle e transparência.
Legenda: Mães e familiares de detidos protestam e exigem informações sobre entes mantidos em prisões de El Salvador | Créditos: Natalia Alberto
Impacto geopolítico: estabilidade, imagem internacional e precedentes regionais
As políticas internas de segurança têm efeitos diretos sobre o posicionamento geopolítico de El Salvador. Internacionalmente, o governo de Bukele ganhou visibilidade como um caso de "eficiência autoritária": redução da violência em curto prazo combinada com medidas de exceção que atraem elogios de setores políticos conservadores e críticas de organismos de direitos humanos. Esse duplo efeito cria uma dinâmica de exportação de modelos — governos e grupos políticos na América Latina observam com atenção — e pressiona parceiros diplomáticos e multilaterais a recalibrar respostas que conciliem cooperação em segurança com exigências por respeito a direitos humanos e Estado de Direito.
No âmbito bilateral e multilateral, persistem tensões. Países ocidentais e instituições de direitos humanos denunciam detenções arbitrárias e julgamento colectivo, o que pode repercutir em condicionamentos de cooperação judicial, de segurança e até financeira. Ao mesmo tempo, ganhos econômicos recentes — como o crescimento do PIB em 2025 estimado em 3,9% pelo FMI e projeções positivas para 2026 — oferecem ao Executivo capital político para resistir a pressões externas, sobretudo se o discurso público privilegia a recuperação da ordem e o desenvolvimento.
Regionalmente, a experiência salvadorenha pode produzir dois efeitos contrários: servir de modelo adiante para governos que priorizam resultados de segurança a qualquer custo, ou atuar como alerta, evidenciando custos jurídicos, sociais e migratórios a serem considerados. Um impacto crítico é a dimensão migratória: comunidades rurais desestruturadas pela detenção em massa e famílias empobrecidas têm menor capacidade de subsistência, potencialmente alimentando fluxos de migração regional e pressão sobre países vizinhos e destinos tradicionais.
Por fim, há risco de fragilização institucional a médio prazo. A repetida suspensão de garantias, a sobrecarga prisional e o recurso a julgamentos massificados corroem a confiança nas cortes e no processo penal. Isso abre margem para militarização prolongada das políticas de segurança e para a normalização do estado de exceção, com implicações para a governança democrática, para a proteção de minorias e para a atração de investimentos que dependem de previsibilidade jurídica.
Conclusão analítica: o caso salvadorenho é um teste contemporâneo sobre o trade-off entre resultados de segurança imediatos e preservação de liberdades civis. A greve silenciosa de centenas de mães que hoje clamam por informação denunciando o "desaparecimento social" de seus filhos é também um indicador de que, sem mecanismos transparentes e correções judiciais efetivas, a estabilidade alcançada pode ser frágil e gerar custos geopolíticos e sociais duradouros. Para atores externos — governos, organismos multilaterais e ONGs — a resposta mais eficaz combina pressão diplomática por cumprimento de decisões judiciais e apoio técnico para restaurar capacidade processual e mecanismos de verificação que reduzam detenções arbitrárias, sem desestabilizar políticas legítimas de combate ao crime organizado.