CENTCOM transforma-se em laboratório de inovação em sistemas não tripulados: o futuro das batalhas começa aqui — A guerra em curso contra o Irã está levando drones marítimos e outras plataformas autônomas dos exercícios para operações reais. No Oriente Médio, o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) testa como esses sistemas podem ampliar a vigilância, apoiar resgates e atacar alvos, ao mesmo tempo que expõe os riscos e os limites de uma tecnologia ainda em evolução.
Da experimentação ao combate real
O emprego de embarcações não tripuladas em missões distintas resume a rapidez dessa mudança. Em junho, uma embarcação Corsair, operada pela Força-Tarefa 59 da Marinha dos Estados Unidos, participou da busca por integrantes de uma tripulação após a queda de um helicóptero do Exército perto do Estreito de Ormuz. Dois militares foram resgatados.
Um mês depois, três unidades Corsair foram usadas em um ataque contra instalações de manutenção de submarinos e navios na base naval iraniana de Bandar Abbas. O CENTCOM descreveu a ação como a primeira vez que forças norte-americanas empregaram drones marítimos em operações de combate.
Os episódios mostram que sistemas não tripulados já cumprem funções variadas no teatro regional: da busca e salvamento à vigilância e ao ataque. Segundo um funcionário norte-americano citado na reportagem, os Estados Unidos utilizam essas plataformas na superfície, no ar e debaixo d’água. Uma das vantagens apontadas é reduzir a exposição de militares a situações de risco.
Para Joshua Tallis, diretor de Assuntos de Segurança de Aliados e Parceiros do Centro de Análises Navais (CNA), o uso operacional oferece à Marinha uma oportunidade rara de aprender a comandar, empregar e sustentar sistemas robóticos. A experiência em campo pode ajudar a ajustar procedimentos e identificar limitações que não aparecem com a mesma clareza em exercícios.
Uma década de preparação operacional
A transformação não começou com os ataques recentes. Em 2021, a Marinha dos Estados Unidos criou a Força-Tarefa 59 para acelerar a integração de sistemas não tripulados e inteligência artificial nas operações do Oriente Médio. A missão inicial era ampliar a percepção do ambiente marítimo e trabalhar em conjunto com navios e aeronaves tripulados.
Em um exercício de 2022, embarcações autônomas identificaram alvos de treinamento e transmitiram informações para centros de comando em terra. A proposta era usar sensores adicionais para melhorar a consciência situacional e permitir que plataformas tripuladas respondessem com maior rapidez.
Em 2024, a Marinha estabeleceu o Grupo-Tarefa 59.1, voltado à implantação operacional de sistemas não tripulados em coordenação com operadores humanos. De acordo com a instituição, integrantes da Força-Tarefa 59 participaram de mais de 30 exercícios e operações sob o comando anterior da unidade.
As diretrizes de combate da Marinha publicadas em fevereiro de 2026 detalharam funções para diferentes plataformas. Embarcações de superfície não tripuladas de médio porte foram associadas a tarefas de reconhecimento, proteção e ataque. Veículos subaquáticos autônomos foram relacionados a missões de levantamento, guerra contra minas e controle de áreas marítimas.
O documento também prevê o uso de embarcações não tripuladas projetadas para serem repostas com relativa facilidade, parte de um desenho de força que busca combinar meios tripulados e autônomos. As diretrizes defendem diferentes níveis de autonomia: unidades poderiam executar tarefas sem aguardar autorização constante de escalões superiores, conforme sua capacidade de perceber o ambiente, avaliar informações e produzir efeitos.
Em paralelo à iniciativa naval, o CENTCOM passou a estruturar unidades voltadas diretamente ao combate. Em dezembro de 2025, criou a Força-Tarefa Scorpion Strike, descrita como o primeiro esquadrão militar dedicado a drones de ataque de uso único no Oriente Médio. A unidade empregou essas aeronaves de baixo custo durante a Operação Epic Fury.
Em agosto, o comando anunciou planos para a Força-Tarefa Falcon Strike, uma iniciativa multinacional e multidomínio que deverá reunir drones de ataque de uso único capazes de operar no ar, na superfície e debaixo d’água. A proposta é ampliar as capacidades com a participação de parceiros regionais.
Legenda: Embarcações autônomas de superfície da Saronic ilustram a expansão dos sistemas não tripulados nas operações militares. | Créditos: Saronic
Vantagem estratégica, riscos e limites
A consolidação do CENTCOM como campo de teste em combate tem implicações geopolíticas que vão além da inovação tecnológica. A experiência acumulada pode influenciar a forma como os Estados Unidos organizam suas forças, distribuem tarefas entre pessoas e máquinas e cooperam com aliados na região. Também oferece dados concretos sobre o desempenho de plataformas autônomas em um ambiente onde adversários podem tentar neutralizá-las.
Mas a operação real impõe exigências que os exercícios não reproduzem plenamente. Os sistemas precisam manter comunicações, navegar por períodos prolongados, operar em águas disputadas e continuar úteis quando há interferência ou ação deliberada do oponente. Seu valor, portanto, não depende apenas da capacidade de cumprir uma missão, mas também da resistência a interrupções e da integração com redes de comando.
O custo é outra questão estratégica. Estimativas de fontes abertas citadas por Tallis situam uma embarcação Corsair em cerca de US$ 1,1 milhão. Embora o valor possa ser inferior ao de plataformas tripuladas, isso não torna o sistema automaticamente barato ou descartável. A definição de quando uma tecnologia é “consumível” ou “expendável” envolve avaliar o custo de aquisição, a missão cumprida e as consequências de sua perda.
Os acontecimentos recentes também ilustram a possibilidade de captura ou destruição. Em setembro, o Irã afirmou ter apreendido um veículo subaquático autônomo Dive-LD, da Anduril, que teria apresentado uma falha durante um levantamento na região. O CENTCOM declarou que se tratava de um modelo antigo, sem dados sensíveis ou equipamentos classificados de sonar ou radar.
Em outro episódio, segundo o comando norte-americano, duas embarcações iranianas tentaram tomar posse de um veículo de superfície não tripulado Saildrone que operava no Estreito de Ormuz. As forças dos Estados Unidos disseram ter destruído os barcos. O caso ressalta que plataformas sem tripulação continuam expostas a disputas físicas, mesmo quando reduzem o risco direto para operadores.
Para Tallis, os exemplos disponíveis devem ser tratados como etapas de aprendizado, e não como uma visão definitiva da guerra futura. Embora sistemas não tripulados sejam particularmente adequados à vigilância — função que os Estados Unidos já exploram há décadas —, ainda não há evidências suficientes para concluir que embarcações autônomas de superfície tenham provocado uma mudança ampla na forma de realizar ataques.
O mesmo cuidado se aplica a missões de busca e salvamento. Para responder rapidamente a emergências, seria necessário posicionar plataformas em diferentes pontos do teatro de operações, mas essa rede de reação ainda não parece estar amplamente implantada. A tecnologia pode ampliar a cobertura, mas sua utilidade depende de presença, disponibilidade e coordenação.
O avanço do CENTCOM aponta, assim, para uma mudança gradual na condução das operações militares, não para a substituição imediata de forças tripuladas. A principal disputa será definir o equilíbrio entre autonomia e controle humano, capacidade e custo, inovação e vulnerabilidade. No Oriente Médio, cada missão fornece novos dados para esse debate — e ajuda a determinar até que ponto sistemas não tripulados poderão alterar o cálculo estratégico das próximas guerras.