A Europa vive um ponto de inflexão estratégico: tensões militares, dependências energéticas e ataques digitais elevaram o risco de um conflito que, ainda que improvável em forma de invasões em massa, pode provocar perturbações profundas e duradouras na vida cotidiana, na economia e na ordem internacional — exigindo respostas que vão além das defesas tradicionais e tocam diretamente a resiliência social e psicológica das populações.

Risco imediato e percepção pública

Nos últimos anos, a descrição do risco europeu mudou: a ameaça não se limita mais a forças convencionais cruzando fronteiras, mas incorpora ações híbridas — ciberataques, sabotagem de infraestruturas críticas e campanhas de desinformação — que podem paralisar serviços essenciais sem um único disparo de artilharia. Autoridades militares e analistas têm sinalizado que a escalada no comportamento agressivo de Moscou após 2014 e, sobretudo, após 2022, criou um ambiente em que ataques localizados ou operações de pressão política podem se multiplicar e transbordar para países da OTAN.

Essa nova configuração confronta sociedades que, em muitos casos, reduziram seus estoques estratégicos e capacidades de mobilização após o fim da Guerra Fria. A iniciativa, por exemplo, de reavaliar planos de contingência — como o chamado "livro de guerra" do Reino Unido — reflete reconhecimento oficial da necessidade de preparar civis, redes de abastecimento e serviços públicos para choques. Ainda assim, há uma lacuna entre avisos técnicos e a percepção pública: muitos cidadãos tendem a subestimar ameaças assimétricas e a resistir a mudanças de longo prazo em políticas de defesa e comportamentos cotidianos.

Linhas do tempo históricas e heranças militares

A memória coletiva europeia carrega duas lições contraditórias: as cicatrizes das grandes guerras do século XX e a crença pós‑1991 de que a Europa havia entrado em uma era de paz duradoura. O choque provocado pela Primeira Guerra Mundial redefiniu totalmente a narrativa sobre a guerra — tornando-a sinônimo de destruição em massa e sofrimento civil — e alimentou um compromisso cultural com a prevenção de conflitos.

O colapso da União Soviética levou a décadas de desarmamento e interdependência econômica, em especial em relação à energia. Gasodutos como o Nord Stream exemplificam como ligações econômicas foram preferidas às soluções de segurança coletiva, criando vulnerabilidades que hoje são exploradas politicamente. A invasão da Crimeia em 2014 e a ofensiva maior de 2022 na Ucrânia romperam a complacência, forçando países tradicionalmente neutros a revisitar políticas de defesa e cooperação transatlântica.

Na esteira desses eventos, modelos nacionais de preparação social se destacam. A Finlândia, com conscrição universal e uma engrenagem de reservistas e capacitação civil integrada ao Estado, representa um paradigma: alta prontidão militar, confiança nas instituições e rotinas de gestão de crises disseminadas entre líderes civis e setores privados. A Suécia, que abandonou a neutralidade e reforçou seu recrutamento, e as repúblicas bálticas, com memória direta da dominação soviética, também mostram níveis elevados de vigilância e engajamento público.

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Legenda: Grupo de soldados em marcha, imagem que simboliza a ênfase atual em prontidão e defesa nacional | Créditos: Getty Images

Impacto geopolítico e recomendações para política pública

Uma escalada controlada ou um conflito assimétrico na Europa teria efeitos multilaterais: 1) segurança coletiva da OTAN colocada à prova em domínios não convencionais; 2) mercados energéticos e cadeias de suprimento sujeitos a choques prolongados; 3) polarização interna e erosão de confiança em instituições se governos falharem em comunicar riscos e planos de mitigação de forma transparente; 4) difusão de tensões para além do teatro europeu, afetando alianças globais e prioridades de potências externas.

Do ponto de vista estratégico, três linhas de ação são centrais. Primeiro, reforçar a defesa híbrida: investimentos concentrados em cibersegurança, proteção de cabos submarinos, equipamentos de detecção e defesa aérea de baixa altitude, além de inteligência para antecipar operações de influência. Segundo, ampliar a resiliência civil: estoques estratégicos, planos de contingência para água e energia, formação de líderes locais em gestão de crise e sistemas de comunicação pública robustos para evitar pânico e desinformação. Terceiro, reexaminar modelos de mobilização: estruturas de reservistas e programas de treinamento cívico-militar podem aumentar a capacidade de resposta sem sacrificar liberdades civis, desde que integrados a salvaguardas democráticas.

Também é imperativo que governos traduzam avaliações técnicas em narrativas públicas honestas. A experiência de países como Finlândia e Suécia mostrou que comunicar riscos e incorporar a população em exercícios de prontidão gera confiança e reduz choques psicológicos durante crises. Por outro lado, discursos excessivamente simplistas que transformam ameaças complexas em maniqueísmos de "inimigos e heróis" podem corroer o debate democrático e aumentar resistência a políticas necessárias.

Em termos de cenários, o mais plausível nos próximos anos é uma continuidade de enfrentamentos localizados e surtos de atividade cibernética e de desestabilização — combinados com esporádicos episódios militares convencionais de menor escala em áreas periféricas. Um cenário mais grave envolveria confrontos entre forças estatais e milícias proxy em regiões limítrofes, forçando a OTAN a decidir entre respostas militares e medidas escalonadas de contenção político-diplomática.

Conclusivamente, a Europa enfrenta uma dupla necessidade: modernizar capacidades militares e, simultaneamente, reconstruir a resiliência social. Sem esse duplo movimento — material e psicológico — as sociedades estarão mais vulneráveis não apenas às armas tradicionais, mas às formas sutis de coerção que hoje definem a geopolítica contemporânea. Políticas realistas, comunicação transparente e exercícios intersetoriais serão determinantes para transformar o choque potencial em uma resposta eficaz e legítima.