artilharia francesa se adapta a novas ameaças: como drones estão mudando a guerra moderna A presença constante de drones de vigilância e o risco de ataques de contrabateria estão levando o Exército francês a rever a maneira como emprega sua artilharia. O 68º Regimento de Artilharia Africano está reorganizando suas unidades de obuses Caesar, criando uma seção dedicada à preparação e à proteção de posições de tiro. A mudança reflete uma transformação mais ampla no campo de batalha: sobreviver depende tanto da mobilidade e da dispersão quanto da capacidade de localizar alvos e responder rapidamente.
França dispersa os obuses Caesar para reduzir vulnerabilidades
O 68e RAA, uma das unidades francesas equipadas com o obuseiro autopropulsado Caesar, está substituindo a organização de duas seções com quatro peças cada por três seções menores, com dois obuses por grupo. O tamanho total da frota do regimento permanece inalterado por enquanto, mas a distribuição dos meios e das responsabilidades está sendo reformulada.
Segundo o comandante da unidade, coronel Rémy Jaillet, a divisão em grupos menores pode ampliar a disponibilidade e a prontidão do apoio de fogo, ao mesmo tempo que reduz a concentração de equipamentos em um único local. A intenção é manter a capacidade de coordenar disparos por meio do sistema de controle de tiro Atlas, mesmo com as peças mais dispersas.
A reorganização também cria uma seção de apoio responsável por reconhecer posições de tiro, preparar locais de reabastecimento de munição e instalar chamarizes. A proposta concentra em uma equipe especializada tarefas que antes eram realizadas de forma mais autônoma por cada seção de obuses. O objetivo é coordenar deslocamento, proteção e logística como partes de uma mesma manobra.
Nas áreas de operação, os Caesar devem aguardar em posições camufladas, descritas pelo comandante como “bolhas de opacidade”, com baixa assinatura para dificultar a detecção. A seção de apoio poderá montar posições falsas e instalar estruturas metálicas de proteção, nas quais os veículos podem recuar. A dispersão, a camuflagem e o uso de chamarizes buscam dificultar que um adversário transforme a observação por drone em um ataque preciso.
O regimento testou o modelo no campo militar de Canjuers, no sul da França, e durante o exercício de grande escala Orion 2026. A primeira bateria deverá adotar permanentemente a nova estrutura em 2027, com as demais previstas para seguir depois. O comando ressalta, porém, que se trata de uma iniciativa do 68e RAA, e não de uma configuração já estabelecida como padrão para todo o Exército francês.
Da contrabateria à transparência do campo de batalha
A mudança francesa se insere em uma revisão das práticas militares impulsionada por conflitos recentes. Na guerra da Ucrânia, drones ampliaram a vigilância sobre posições, rotas e movimentos de tropas. Quando uma peça de artilharia é localizada, o adversário pode tentar responder com fogo de contrabateria, reduzindo o tempo disponível para disparar e abandonar a posição.
Entre as respostas observadas no conflito estão a dispersão dos canhões, a redução do tempo de permanência após os disparos, a camuflagem e a separação entre unidades de fogo e estoques de munição. Essas medidas procuram limitar os danos caso uma posição seja identificada e dificultar a formação de um alvo concentrado. Para as forças da OTAN, a experiência ucraniana tornou mais urgente a revisão de procedimentos concebidos para ambientes em que a localização de unidades era menos imediata.
O comandante francês também aponta a guerra de Nagorno-Karabakh, em 2020, como um marco na demonstração da integração entre sensores e armas. O emprego de drones para localizar alvos e transmitir informações a unidades de ataque acelerou o intervalo entre a detecção e o disparo. Essa conexão, frequentemente descrita como ciclo sensor-atirador, tornou-se um elemento central da competição militar contemporânea.
A adaptação não significa, contudo, que a artilharia deva permanecer fixa em posições fortificadas. Durante um exercício na Romênia, militares franceses dispararam Caesar a partir de posições escavadas, mas Jaillet caracterizou essa situação como específica, e não como regra geral. A mobilidade continua sendo uma característica essencial do sistema: a capacidade de deslocar o obuseiro após uma missão pode ser tão importante quanto a proteção física de uma posição.
O 68e RAA também está ampliando a composição de suas equipes de ligação, observação e coordenação. Em vez de depender apenas de grupos concentrados em veículos, a unidade busca combinar meios terrestres, radares e drones. Entre os equipamentos citados pelo regimento estão o radar de vigilância terrestre Murin, da Thales, e o drone de reconhecimento DT46, da Delair. A integração desses recursos pode ampliar a consciência situacional, embora dependa de comunicações confiáveis e de sistemas capazes de compartilhar informações.
Legenda: Obuses Caesar em demonstração de artilharia no campo militar de Canjuers, no sul da França, em outubro de 2025 | Créditos: Frederic Dides/AFP via Getty Images
Impactos para a OTAN e a defesa europeia
A reorganização do regimento francês revela um desafio estratégico para os países da OTAN: preservar o poder de fogo sem concentrar unidades de modo que possam ser detectadas e atacadas com facilidade. A artilharia continua sendo decisiva para apoiar forças terrestres, mas seu emprego exige cada vez mais coordenação entre mobilidade, reconhecimento, comunicações, camuflagem e logística.
O caso também mostra que a modernização militar não se limita à compra de novos armamentos. O Caesar segue como peça central da unidade, mas a forma de organizar os grupos, escolher posições e preparar o reabastecimento está sendo adaptada. Em um ambiente de vigilância persistente, mudanças doutrinárias e organizacionais podem ser tão relevantes quanto melhorias técnicas nos próprios sistemas de armas.
Para a França, a iniciativa pode oferecer lições para o planejamento de brigadas e para exercícios conjuntos, embora ainda não represente uma diretriz geral do Exército. O modelo de brigada citado pelo Exército francês prevê um regimento de artilharia com 16 obuses Caesar e oito morteiros MEPAC; a experiência do 68e RAA poderá ajudar a avaliar como essas capacidades operam quando distribuídas em unidades menores e apoiadas por equipes especializadas em proteção e manobra.
Persistem, no entanto, limites importantes. A dispersão pode melhorar a sobrevivência, mas aumenta a necessidade de comunicações, coordenação e abastecimento eficientes. A integração de sensores e armas precisa funcionar mesmo em um ambiente degradado, no qual interferências ou falhas de conexão possam atrasar a transmissão de dados. O próprio comandante francês defende ampliar a capacidade de conectar sensores e sistemas de ataque em diferentes escalões do campo de batalha.
O movimento francês sinaliza, portanto, uma adaptação a um campo de batalha mais transparente, sem abandonar a mobilidade como princípio. Drones tornam mais difícil esconder forças por longos períodos, enquanto a contrabateria encurta o tempo para agir. Nesse cenário, a sobrevivência da artilharia dependerá de combinar dispersão, rapidez, dissimulação e coordenação — uma mudança que pode influenciar a preparação militar europeia nos próximos anos.