Acordo Militar dos EUA em Greenland: Confiança em Tempos de Desafios e Oportunidades A assinatura de um novo pacto militar entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia abre caminho para ampliar a presença americana no Ártico e reativar antigas instalações militares. O entendimento reduziu o temor de uma anexação, mas não encerrou a desconfiança local: para muitos groenlandeses, a segurança estratégica precisa avançar sem ameaçar a autonomia, os meios de subsistência e o modo de vida da população.

Pacto reduz tensão, mas não apaga a desconfiança

O acordo firmado em 22 de setembro de 2026, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, prevê a expansão da presença militar dos Estados Unidos na Groenlândia. Entre as medidas anunciadas está a reabertura de instalações da Guerra Fria em Narsarsuaq e Mestersvig, localidades que poderão receber novos investimentos e gerar oportunidades de emprego.

O entendimento foi recebido com alívio por representantes políticos e moradores, sobretudo por afastar, ao menos por ora, o cenário de anexação defendido anteriormente pelo presidente Donald Trump. A justificativa estratégica apresentada por Washington é conter a crescente atuação de Rússia e China no Ártico — região cada vez mais relevante para a segurança e a disputa por influência entre potências.

Na avaliação da deputada groenlandesa Naaja Nathanielsen, o resultado é sensato e traz motivos para satisfação. Ela também reconheceu, porém, que os últimos anos aumentaram o ceticismo da população e que será necessário reconstruir a confiança. A mensagem resume o dilema do pacto: ele oferece garantias de defesa, mas surge depois de declarações americanas que abalaram a relação com a ilha.

A reação da sociedade não é uniforme. Enquanto alguns moradores veem a ampliação militar como uma forma de proteger os cerca de 57 mil habitantes da Groenlândia, outros questionam a necessidade de novas bases, especialmente num momento em que a Dinamarca também reforça sua atuação militar no território. Para parte da população, a presença estrangeira pode trazer segurança, mas também ampliar tensões e preocupações sobre soberania.

Da Segunda Guerra à disputa estratégica no Ártico

A presença militar dos Estados Unidos na Groenlândia tem raízes na Segunda Guerra Mundial e ganhou escala durante a Guerra Fria. Naquele período, Washington manteve 17 instalações militares e mais de 10 mil militares na ilha, posição que permitia acompanhar os movimentos das forças soviéticas no extremo norte.

O cenário atual é bem mais limitado. A base espacial de Pituffik é a única instalação americana em operação, com aproximadamente 150 militares, segundo as informações divulgadas. A retomada de estruturas em Narsarsuaq e Mestersvig representaria, portanto, uma mudança relevante na escala da presença dos Estados Unidos, ainda que o alcance concreto das novas operações dependa de como o acordo será executado.

A importância geopolítica da Groenlândia decorre de sua localização no Ártico, entre a América do Norte e a Europa. O território integra o Reino da Dinamarca, mas possui governo próprio e uma população com interesses e prioridades locais. Essa combinação faz com que qualquer decisão sobre defesa envolva mais do que o cálculo militar de Washington e Copenhague: exige considerar a participação e a confiança dos groenlandeses.

O pacto foi assinado pelo presidente Donald Trump, pela primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen e pelo primeiro-ministro groenlandês Jens-Frederik Nielsen. A cerimônia trilateral, realizada em Nova York, simbolizou uma tentativa de enquadrar a expansão militar em um entendimento negociado entre os governos, em vez de subordiná-la às ameaças de mudança de controle sobre a ilha.

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Legenda: Donald Trump, Mette Frederiksen e Jens-Frederik Nielsen exibem documentos assinados sobre a segurança da Groenlândia. | Créditos: Kylie Cooper/Reuters

Segurança, soberania e custo social no centro do acordo

O alcance geopolítico do acordo vai além da reabertura de bases. Para os Estados Unidos, ampliar a presença na Groenlândia reforça sua posição no Ártico em um momento de competição estratégica com Rússia e China. Para a Dinamarca, o pacto mantém Washington envolvido na defesa da região, ao mesmo tempo que Copenhague amplia suas próprias forças e os investimentos em defesa ártica.

Essa sobreposição de interesses torna essencial esclarecer como a atividade militar será conduzida. A prefeita Malene Vahl Rasmussen, de Kujalleq — município onde fica Narsarsuaq — afirmou que a expansão precisa respeitar o modo de vida groenlandês. O acordo estabelece que as operações devem levar em conta a sociedade local e suas tradições, uma condição que será testada na prática conforme aumentarem os deslocamentos de aeronaves e embarcações.

As preocupações não são abstratas. Comunidades dependem da caça e da pesca para sua subsistência, e moradores temem que o aumento do tráfego militar possa interferir em áreas e atividades tradicionais. Por isso, o debate sobre as bases envolve também o impacto cotidiano das operações, a proteção dos recursos locais e a capacidade das autoridades groenlandesas de participar das decisões que afetam o território.

O reforço militar dinamarquês também influencia a percepção pública. Desde que as ameaças de Trump atingiram seu ponto mais alto, em janeiro, a Dinamarca ampliou sua presença militar, elevou os gastos com defesa do Ártico e recebeu aliados em exercícios na região. Para alguns groenlandeses, essa movimentação oferece proteção adicional; para outros, a expansão simultânea de forças estrangeiras pode aumentar a sensação de militarização.

O principal desafio agora será transformar compromissos diplomáticos em mecanismos concretos de confiança. Isso exigirá diálogo contínuo com as comunidades, transparência sobre as atividades nas instalações e atenção aos efeitos sobre a caça, a pesca e o cotidiano local. Sem esse cuidado, o pacto poderá fortalecer a posição estratégica dos Estados Unidos e da Dinamarca, mas aprofundar a distância entre as decisões de segurança e as prioridades da população groenlandesa.

A Groenlândia entra, assim, em uma nova fase de sua relação com Washington: o acordo reduz a tensão imediata em torno de uma possível anexação e abre oportunidades ligadas à defesa e ao investimento, mas não elimina as dúvidas que marcaram a negociação. No Ártico, onde interesses militares e soberania se cruzam, a estabilidade dependerá não apenas de bases e efetivos, mas também da confiança que os governos conseguirem reconstruir.