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Safran e MBDA avaliam entrega da nova artilharia de foguetes francesa em 2029 como viável

Redação
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maio 02, 2026

A França avança rumo à modernização de sua artilharia de foguetes com o sistema Thundart, desenvolvido por Safran e MBDA, cujo primeiro disparo de prova e cronograma de entrega — potencialmente operacional já em 2029 — redefinem prazos, capacidades e debates sobre soberania tecnológica e dissuasão no contexto europeu contemporâneo.

Resumo executivo: prazos, capacidades e atores-chave

O projeto Thundart reúne competências industriais francesas para oferecer um foguete terrestre com alcance declarado em 150 km, ogiva de aproximadamente 100 kg, alta velocidade supersônica e resistência a contramedidas eletrônicas. O sistema prevê um lançador 8x com até oito foguetes, montado sobre chassi Scania, adota tática de "shoot and scoot" e usa propulsão da unidade Roxel (MBDA) combinada com um kit de guiagem derivado do AASM da Safran. Safran e MBDA indicam capacidade de entrega operacional já em 2029 caso o DGA (Direção Geral de Armamentos) comande a aquisição, alinhando-se ao objetivo francês de ter uma capacidade operacional plena até 2030 e adquirir, até 2035, 26 sistemas e cerca de 300 munições.

Do ponto de vista industrial e programático, as empresas estudam a formalização de uma joint venture para acelerar desenvolvimento e produção em massa; ambas afirmam estar preparadas para escalonar a produção. A oferta doméstica concorre com propostas estrangeiras e prontos-para-uso como Chunmoo (Hanwha), PULS (Elbit), HIMARS (Lockheed Martin) e possivelmente o Pinaka (Índia). A ministra das Forças Armadas reforçou que a opção soberana será avaliada segundo efetividade, preço e capacidade de entrega.

Contexto histórico: tendência de alcance e busca por autonomia

Desde a década de 2010, e com aceleração após os ensinamentos operacionais recentes em conflitos de alta intensidade, potências militares priorizam sistemas de tiro de longo alcance para dissuasão, interdição e apoio ao combate. A substituição do Lance-Roquettes Unitaire (LRU) por sistemas modernos faz parte de um movimento mais amplo na Europa para reduzir dependências externas em capacidades sensíveis e garantir liberdade de emprego operacional sem restrições de controle de exportação — ponto explicitamente destacado por Safran ao afirmar que o Thundart não está sujeito às restrições do ITAR estadunidense.

Historicamente, a França combinou investimento estatal, indústria nacional estratégica e parcerias europeias para preservar uma base industrial de defesa robusta. Projetos como o Thundart representam continuidade dessa política: responder a ameaças contemporâneas (alcance, precisão, resistência a guerra eletrônica) ao mesmo tempo em que se mantém uma opção de fornecimento soberana para apoio político-militar em operações e para eventuais exportações.

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Legenda: Disparo de um sistema múltiplo de foguetes durante exercício em Capu Midia, Romênia, em fevereiro de 2023 | Créditos: Daniel Mihailescu/AFP via Getty Images

Impacto geopolítico: autonomia estratégica, mercado e riscos

A entrada operacional do Thundart reforçaria a autonomia estratégica francesa ao oferecer uma capacidade de longo alcance não condicionada por controles externos — elemento crítico para decisões políticas de emprego e para interoperabilidade seletiva com aliados. Isso aumenta a margem de manobra de Paris em cenários de crise e amplia opções diplomáticas e militares no flanco europeu oriental, em especial perante a contínua preocupação com a Rússia.

No plano industrial e comercial, um sistema plenamente soberano pode reduzir compras de fornecedores terceiros, pressionar concorrentes externos a ajustar preços e ofertas, e abrir espaço para exportações controladas por Paris, fortalecendo a posição da indústria francesa no mercado global de artilharia de foguetes. Ao mesmo tempo, a possível adoção pela França de soluções estrangeiras, caso o DGA opte por comparar custo-benefício, manterá competição e incentivará melhorias tecnológicas e comerciais.

Existem, contudo, riscos operacionais e geopolíticos: a escalada do alcance de mísseis convencionais gera preocupações de estabilidade regional e pode acelerar cursos de rearmamento entre vizinhos; prazos apertados (entrega operacional em 2029) exigem gestão rigorosa de cadeia de suprimentos, certificações e integração com sensores e comando e controle, sob risco de atrasos ou excedentes de custo. Finalmente, decisões sobre estoque de munições, regras de emprego e coordenação com aliados da OTAN serão determinantes para maximizar o efeito dissuasório do programa sem provocar tensões desnecessárias.

Recomendações sintéticas: monitorar o processo de decisão do DGA e os resultados comparativos com ofertas estrangeiras; priorizar integração com sistemas C4ISR e doutrinas de emprego de fogo profundo; assegurar provisão industrial e logística para cumprir cronogramas; e conduzir avaliações de risco regional e de exportação que equilibrem autonomia estratégica e responsabilidades internacionais.