Relatório Analítico: Em 2025 houve uma queda dramática no efetivo de tropas dedicadas a operações de paz multilaterais, cenário que revela uma convergência perigosa entre crise de financiamento, polarização geopolítica e enfraquecimento das capacidades institucionais — fatores que, se não revertidos, prometem ampliar conflitos locais, agravar risco humanitário e redesenhar a arquitetura de gestão de crises internacionais.
Queda histórica das tropas de operações de paz em 2025 — SIPRI sinaliza ruptura no sistema multilateral
Dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) mostram que o contingente internacional em missões de paz terminou 2025 com 78.633 militares e policiais — uma redução de 17% em relação a 2024 e 49% desde 2016. A retração é resultado principalmente de um colapso financeiro no sistema das Nações Unidas: contribuições atrasadas ou não pagas por doadores-chave geraram um rombo orçamentário estimado em US$ 2 bilhões no meio de 2025, forçando cortes imediatos de pessoal em operações sensíveis. Esse declínio concentra-se sobretudo na África Subsaariana (70% do total de efetivos), onde as missões mais numerosas e complexas — como UNMISS e MINUSCA — foram diretamente afetadas.
Além da dimensão fiscal, o relatório associa a redução a vetos políticos e disputas no Conselho de Segurança, bem como a uma mudança de atitudes de atores centrais — incluindo ações dos Estados Unidos em 2025 para desmantelar ou pressionar missões e agências da ONU — e ao crescente protagonismo de potências como Rússia, cuja atuação em teatros africanos tem enfraquecido a governança de segurança regional. O resultado é uma combinação de fatores que ameaça transformar cortes temporários em recalibragem permanente do papel das Nações Unidas em gestão de conflitos.
Origens e evolução: financiamento, decisões políticas e realinhamento regional desde 2016
O quadro atual é fruto de uma tendência acumulada ao longo da última década: embora a ONU ainda organize a maioria das missões mais intensas (18 operações responsáveis por 67% do pessoal), observou‑se expansão de iniciativas regionais — 34 operações lideradas por organizações regionais e alianças em 2025 — sem que essas estruturas tivessem capacidade financeira, logística e política para substituir plenamente a ONU. Desde 2016, alterações no padrão de contribuição e no perfil dos doadores, combinadas com crises políticas internas em países financiadores, reduziram a previsibilidade orçamentária. Em 2025, a aprovação orçamentária da ONU para paz foi reduzida a US$ 5,38 bilhões, o menor valor em ao menos uma década.
Legenda: Tropas indianas da UNMISS em patrulha na cidade de Akobo, Sudão do Sul, demonstrando o papel contínuo de contribuintes do Sul Global | Créditos: Luis Tato/AFP via Getty Images
Consequências geopolíticas: vácuo de segurança, maior risco para civis e reconfiguração da governança global
A redução abrupta de pessoal em operações de paz tem impactos imediatos e estruturais. No curto prazo, a retirada ou diminuição de contingentes abre lacunas de proteção para civis, reduz capacidade de monitoramento de cessar-fogos e enfraquece mecanismos de contenção de violência intercomunitária. Isso tende a beneficiar atores armados locais e externos que exploram vácuos de segurança, elevando a probabilidade de recombinação e internacionalização de conflitos.
No plano estratégico, o enfraquecimento da ONU como plataforma central para gestão de crises favorece soluções bilaterais ou por blocos regionais — opções que podem carecer de legitimidade universal e de padrões operacionais compartilhados. A rivalidade entre potências (mencionada pelo SIPRI no contexto de ações russas na África e da postura norte‑americana contra certas missões) agrega um componente geopolítico: com menor consenso no Conselho de Segurança e menor disposição de financiamento coletivo, a resolução de crises tende a ficar mais fragmentada, politizada e sujeita a interesses estratégicos concorrentes.
Para mitigar esses riscos, as opções plausíveis de política incluem: reformular o modelo de financiamento da paz para reduzir vulnerabilidade a atrasos, promover acordos de partilha de encargos entre Estados e blocos regionais, investir em capacitação regional (forças africanas e parcerias civis‑militares), e renovar esforços diplomáticos para restaurar consensos no Conselho de Segurança. Sem essas medidas, o cenário mais provável é o de aumento de conflitos de média e alta intensidade com consequente aumento de crises humanitárias e pressão migratória, além da erosão de normas que sustentam a intervenção multilateral em favor da paz.