O recente pronunciamento do general Xavier Brunson durante o Land Forces Pacific Symposium em Honolulu resume uma mudança estratégica: a paz no Indo-Pacífico depende tanto de poderio militar quanto de uma cadeia industrial robusta e de um compartilhamento real de encargos entre aliados; sustentação logística e capacidade de reparo localizados tornam-se elementos centrais da dissuasão em face da crescente competição regional.
Indústria em Ascensão e Compartilhamento de Encargos Moldam a Dissuassão no Indo-Pacífico
O quadro atual revela uma combinação entre reforço militar e expansão da capacidade industrial aliada como ferramentas complementares de política de defesa. A ênfase de Brunson em que “sustentament o não é a cauda, é os dentes” traduz a prioridade por plataformas industriais capazes de manter operações prolongadas e de alta intensidade sem depender de rotas logísticas transoceânicas vulneráveis. Exemplos práticos como os estaleiros coreanos que realizaram manutenção em navios da USNS ilustram o modelo operacional desejado: hubs regionais de reparo e reabastecimento que aceleram o retorno ao combate e complicam os cálculos de adversários.
Paralelamente, a pressão norte-americana por maior contribuição financeira e operacional de aliados, combinada com aumentos significativos de gastos militares em países do Pacífico e Ásia (Japão, Taiwan, Coreia do Sul, Austrália, Filipinas), demonstra que o fardo da defesa regional está sendo realocado. Essa dinâmica muda o papel de várias potências locais de meros consumidores de segurança para produtores ativos dela, ampliando interoperabilidade e capacidades conjuntas.
Evolução Histórica: Da Presença Naval à Cadeia Industrial Regional
Historicamente, a segurança do Indo-Pacífico assentou-se sobre a presença naval e aérea dos Estados Unidos desde o pós‑Segunda Guerra até a Guerra Fria, com redes de bases e acordos bilaterais garantindo projeção. A ascensão econômica e militar da China, a revalorização das rotas marítimas e crises recentes — além do desgaste da base industrial ocidental e choques como a pandemia — evidenciaram vulnerabilidades logísticas e produtivas que tornam obsoleta a dependência exclusiva em reparos a longa distância.
O conceito de “cadeia industrial regional” surge, então, como resposta: ao longo da última década, programas de transferência de tecnologia, investimentos em estaleiros, manutenção e munições regionais e exercícios multinacionais (como a evolução do Balikatan de bilateral para um ensaio multinacional) consolidaram um arcabouço prático. A insistência por compartilhamento de custos, visível nas políticas recentes de Washington, remete a debates anteriores do pós‑Guerra Fria sobre equilíbrio entre apoio americano e responsabilidade aliada, mas agora com foco na resiliência industrial e na capacidade de sustentação próxima ao teatro operacional.
Legenda: UH-60 Black Hawk sobre o Estreito de Luzon durante o Exercício Balikatan 2026 | Créditos: Sgt. Olivia Cowart/U.S. Army
Consequências Geopolíticas: Dissuassão, Autonomia Regional e Risco de Escalada
Do ponto de vista geopolítico, o fortalecimento industrial aliado e o realinhamento do peso financeiro tornam a dissuasão mais sustentável e distribuída, reduzindo a vulnerabilidade logística americana e aumentando a prontidão regional. Isso eleva os custos de agressão para potências revisionistas, pois uma rede de reparo e reabastecimento próximo ao teatro reduz janelas de oportunidade e aumenta o risco operacional para qualquer atacante.
Entretanto, há efeitos colaterais relevantes: a aceleração do rearmamento e da industrialização militar pode intensificar uma dinâmica de corrida armamentista no Pacífico, pressionar economias emergentes e criar tensões políticas internas em países que enfrentam escolhas entre gasto militar e prioridades domésticas. Além disso, iniciativas de transferência tecnológica e produção conjunta exigem governança confiável para evitar vazamentos, dependência tecnológica ou fragmentação de normas de controle de exportações.
Para maximizar os benefícios e mitigar riscos, recomenda‑se uma estratégia integrada: institucionalizar acordos de compartilhamento de encargos com mecanismos transparentes de contribuição; desenvolver hubs industriais regionais redundantes para evitar pontos únicos de falha; promover interoperabilidade logística e de suprimentos entre aliados; e combinar esse arcabouço militar‑industrial com diplomacia ativa para conter a escalada e manter canais de comunicação com atores regionais. Só assim a combinação entre indústria em ascensão e cooperação aliada poderá sustentar uma dissuasão eficaz sem precipitar uma crise maior de segurança.