O anúncio da retirada progressiva da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) até o fim de 2026 altera substancialmente o equilíbrio de segurança, político e humanitário no sul libanês e na fronteira com Israel: trata-se de uma transição com riscos elevados, lacunas operacionais evidentes e implicações regionais que exigem planejamento multinacional imediato.
Cenário Atual: Saída das Forças de Paz da ONU do Líbano e Prazos Cruciais
A UNIFIL, com cerca de 8.500 militares de quase 50 países, opera no Líbano desde 1978 e teve seu mandato ampliado em 2006 pela Resolução 1701, após a guerra Israel-Hezbollah. Em agosto do ano passado o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 2790, pressionada pelos EUA, definindo o encerramento da missão até o final de 2026 e solicitando ao Secretário-Geral opções para a implementação de 1701 a partir de 1º de junho de 2026. A decisão ocorre em meio a episódios recentes de violência que já resultaram na morte de seis capacetes-azuis e expõe uma lacuna entre o compromisso político internacional de retirada e a capacidade das forças locais de manter estabilidade.
Raízes Históricas e Mandatos: 1701, 1559 e a Presença da UNIFIL
A arquitetura institucional que sustenta a presença da ONU no sul do Líbano tem antecedentes claros: a UNIFIL nasceu para supervisionar a retirada israelense (1978), enquanto a Resolução 1701 (2006) ampliou funções para monitorar o cessar-fogo, garantir acesso humanitário e apoiar o deslocamento das Forças Armadas Libanesas (LAF) na região. A Resolução 1559, que pede retirada de forças estrangeiras e desarmamento de grupos não-estatais, compõe o quadro normativo com 1701. Historicamente, essas resoluções criaram mecanismos práticos — como as reuniões tripartites entre Israel, Líbano e UNIFIL — que ajudaram a mitigar incidentes de fronteira e serviram como canais de desescalada.
Legenda: Meio blindado da UNIFIL na entrada de Tyr, sul do Líbano, em 30 de abril de 2026 | Créditos: Mahmoud Zayyat / AFP via Getty Images
Consequências Geopolíticas: Segurança, Humanitário e Regional
Segurança operacional: a retirada da UNIFIL deixará um vácuo de coordenação e observação que dificilmente será preenchido pela LAF no curto prazo. As Forças Armadas libanesas enfrentam limitações logísticas, financeiras e políticas; não dispõem de meios para desarmar o Hezbollah nem para confrontar as Forças de Defesa de Israel sem risco de escalada interna e regional.
Risco de escalada e opções de contingência: sem a presença robusta da ONU, há caminhos previsíveis — intensificação de choques localizados entre Israel e grupos armados, retomada de patrulhas unilaterais israelenses sobre posições sensíveis, ou a transformação de antigas bases da UNIFIL em pontos de interesse estratégico para atores externos. Alternativas institucionais incluem reforçar o Observador Militar (OGL) ou criar mecanismos bilaterais/tripartites sob nova arquitetura, mas todas demandam vontade política e garantias de segurança.
Impacto humanitário e econômico: UNIFIL atuou também como suporte econômico e empregador local; sua saída deve agravar a fragilidade socioeconômica do sul do Líbano, reduzir canais de assistência e complicar a criação de corredores humanitários em caso de conflito. A ausência de um ator neutro para mediar incidentes eleva o risco de violações de direitos e dificulta investigações independentes sobre crimes de guerra.
Dimensão diplomática e de governança multilateral: a decisão impulsionada pelos EUA e a implementabilidade limitada do desfecho sinalizam um enfraquecimento pragmático do papel operativo do sistema ONU em zonas de conflito. Isso pode incentivar soluções regionais menos multilaterais e aumentar a dependência de arranjos bilaterais (Israel-Líbano/Hezbollah) ou de atores regionais (Irã, Síria), com perda de imparcialidade e transparência.
Cenários prováveis nos próximos 12–36 meses: 1) transição gradual para maior presença da LAF apoiada por formações internacionais de treinamento e logística; 2) manutenção de um contingente UN menor (OGL ampliado) para funções de observação; 3) aumento de incidentes fronteiriços com potencial de escalada local ou regional; 4) maior envolvimento de ONGs e agências humanitárias para mitigar o impacto civil.
Recomendações estratégicas: atores externos relevantes (Nações Unidas, União Europeia, Estados Unidos e potências regionais) devem coordenar um plano de transição com três pilares — segurança (capacitação e apoio logístico à LAF e manutenção de canais de comunicação militares), humanitário (fundos para serviços essenciais e emprego local) e diplomático (mecanismos de verificação e plataformas tripartites com garantias operacionais). Sem essas medidas, a retirada da UNIFIL tende a produzir instabilidade prolongada e ampliar riscos de conflito e sofrimento civil na fronteira israelense-libanesa.