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Entrevista: General Ronald Clark, comandante do Exército dos EUA no Pacífico

Redação
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maio 07, 2026

Balikatan 2026 marca um momento de ampliação prática da presença e das capacidades conjuntas dos Estados Unidos e seus parceiros no Pacífico, ao transformar exercícios anuais de cooperação em ensaios explícitos de defesa territorial e operações de alta intensidade — um sinal claro de empenho em aumentar a prontidão, dissuadir a coerção regional e testar redes tecnológicas e logísticas destinadas a responder a crises na área do Estreito de Taiwan.

Resumo Executivo: postura, alcance e prioridades

O exercício Balikatan 2026, realizado sob a égide do comando do General Ronald Clark, reflete uma mudança operacional e conceitual: tratamento rotineiro de cooperação bilateral se converteu em uma coalizão ampliada para treinar manobras de defesa territorial e combates em grande escala. Com a participação de sete países e a presença inédita de contingentes de França, Japão, Canadá e Nova Zelândia em solo filipino, a manobra elevou o nível de interoperabilidade entre forças terrestres, aéreas e navais, com ênfase em desembarques anfíbios, captura de terreno-chave e deslocamento rápido de unidades de efeitos de longo alcance (HIMARS, sistemas antinavio como NMESIS). Em termos tangíveis, o objetivo é fortalecer a dissuasão por meio de prontidão operacional, construir confiança mútua entre parceiros e validar conceitos de emprego que integrem capacidades de comando e controle, sensores e efeitos de precisão em ambientes dispersos e contestados.

Evolução histórica e enquadramento regional

Balikatan nasce na década de 1990 como um exercício focado em capacitação bilateral e em missões de contrainsurgência; ao longo de três décadas, sua natureza acompanhou a transformação do contexto estratégico no Indo-Pacífico. O reordenamento atual ocorre em função do crescente poder naval e de mísseis da China, da intensificação das preocupações sobre Taiwan e da ampliação das cadeias insulares como zonas operacionais críticas (First e Second Island Chains). A incorporação de unidades transformadas do Exército dos EUA — divisões equipadas com novos fuzis, veículos leves, sistemas não tripulados, HIMARS e suítes de comando e controle de próxima geração — espelha a transição para conceitos de Multi-Domain Operations (operações multi-domínio) e a criação de estruturas como o futuro Multi-Domain Command Pacific (vinculado à ativação da 7ª Divisão). Essas iniciativas não apenas respondem a lições recentes sobre dispersão e sobrevivência, como também institucionalizam a colaboração com aliados por meio de exercícios, acordos de presença e plataformas de logística avançada.

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Legenda: Tropas multinacionais em exercício anfíbio durante Balikatan 2026 nas Filipinas | Créditos: Ezra Acayan/Getty Images

Impacto geopolítico: dissuasão, riscos e cenários futuros

O aprofundamento de Balikatan em missões de defesa territorial tem efeitos estratégicos múltiplos. Primeiro, reforça a credibilidade da presença dos EUA e a capacidade dos aliados regionais de operar de forma coordenada em cenários de crise, aumentando custos potenciais para qualquer ator que considere empreender ações coercitivas. Segundo, a demonstração de mobilidade logística (deslocamento de lançadores de foguetes e sistemas antinavio para ilhas remotas) e de integração tecnológico-operacional sinaliza avanços na prontidão para confrontos distribuídos, reduzindo vulnerabilidades de pontos fixos.

Por outro lado, tais exercícios elevam o risco de escalada e de reações políticas e militares adversas: Pequim poderá responder com aumentos de patrolamento, exercícios próprios, pressões econômicas ou retórica diplomática intensificada, o que pode alimentar uma dinâmica competitiva de segurança. Internamente, países-sede enfrentam dilemas de soberania e política doméstica ao equilibrar cooperação com sensibilidades nacionais. Logística e sustentação permanecem desafios práticos — a dispersão exige pré-posicionamento de suprimentos e estruturas flexíveis, sem equivalência imediata a bases permanentes — e sustentam a necessidade de soluções que priorizem mobilidade, redundância e interoperabilidade.

Em termos de cenários, a continuidade e expansão desses exercícios pode: 1) consolidar uma rede de dissuasão regional mais resiliente, com maior partilha de responsabilidade entre aliados; 2) precipitar uma fase de concorrência mais intensa por capacidades anti-acesso/area denial (A2/AD) e por contramedidas; ou 3) desencadear ciclos de medidas assimétricas e de escalada de baixa intensidade que aumentem o risco de incidentes. Para mitigar riscos, recomenda-se que a cooperação inclua componentes diplomáticos e militares calibrados, comunicações de risco entre atores-chave e investimentos contínuos em logística distributiva e proteção de sistemas críticos, de modo a transformar a dissuasão demonstrativa em estabilidade sustentável.