O Corpo de Fuzileiros Navais e a Marinha dos Estados Unidos anunciaram uma ação coordenada para enfrentar a evidente deficiência da frota anfíbia — uma lacuna operacional que expõe fragilidades na projeção de poder, na prontidão das Forças Expedicionárias e na capacidade de dissuasão regional, sobretudo no vasto ambiente litoral do Indo-Pacífico e em cenários simultâneos no Oriente Médio e nas Américas.
Resumo Executivo da Situação
Atualmente a frota anfíbia norte-americana conta com cerca de 31 navios, número que os comandantes consideram insuficiente para as demandas de presença solicitadas pelos combatant commanders. Em 2025 a taxa de prontidão das unidades anfíbias caiu para aproximadamente 41%, resultando em atrasos operacionais — como o adiamento de cinco meses no envio de uma Marine Expeditionary Unit — e menor disponibilidade para missões simultâneas. Em 2026 há parcelas da força deslocadas para a região do Estreito de Ormuz e outras contingências no Médio Oriente, ao mesmo tempo em que operações no Caribe e no Pacífico continuam a pressionar a capacidade logística e de manutenção.
Para mitigar o déficit, os dois serviços articularam três linhas de ação: otimização de manutenção e emprego (para aumentar a disponibilidade imediata), extensões de vida útil de unidades em melhores condições (preservando plataformas “best of breed”) e aquisição de novos navios mais capazes, com destaque para a escolha do projeto holandês LST-100 como navio de desembarque médio. O orçamento proposto para o ano fiscal de 2027 foi citado como um primeiro aporte significativo, mas insuficiente sem continuidade e previsibilidade orçamentária.
Evolução Histórica e Mudanças Conceituais
Historicamente, a capacidade anfíbia foi um pilar da estratégia dos EUA desde o desembarque na Segunda Guerra Mundial, evoluindo durante a Guerra Fria para apoiar operações expedicionárias e de assalto anfíbio contra poderes territoriais. Após o fim da Guerra Fria, reduções orçamentárias e priorizações por plataformas de alta tecnologia reduziram o investimento em navios de desembarque e logística marítima. Nas últimas duas décadas, a ênfase estratégica deslocou-se para o Indo-Pacífico, cujo conjunto de ilhas e extensas zonas litorâneas exige soluções de mobilidade costeira e sustentação em mar aberto.
Operações recentes — incluindo patrulhas e ações de bloqueio no Golfo Pérsico e missões de segurança no Caribe contra cartéis — evidenciaram a tensão entre a demanda por presença persistente e a capacidade limitada da frota. A escolha do LST-100 e a priorização de extensões de vida refletem uma tentativa de conciliar respostas táticas imediatas com um caminho de recuperação industrial e tecnológica mais longo.
Legenda: USS America chegando à Virgínia em fevereiro de 2026, ilustrando o foco renovado em capacidades anfíbias | Créditos: Kenneth Melseth/U.S. Navy
Consequências Geopolíticas e Recomendações
Do ponto de vista geopolítico, a fragilidade da capacidade anfíbia reduz a margem de manobra estratégica dos EUA em cenários de alta intensidade e aumenta a pressão sobre aliados para preencher lacunas regionais. No Indo-Pacífico, onde a China investe em capacidades de assalto anfíbio e negantes de área (A2/AD), uma frota anfíbia insuficiente reduz a dissuasão e a credibilidade das linhas de sustentação de operações distribuídas. Simultaneamente, a necessidade de responder a crises no Oriente Médio e missões de segurança nas Américas impõe um dilema de alocação que pode forçar escolhas estratégicas indesejáveis.
Recomendações práticas: 1) Garantir financiamento sustentado e previsível para manutenção e aquisições, evitando soluções episódicas; 2) Priorizar extensões de vida e upgrades nas plataformas com maior retorno operacional enquanto novas unidades entram em produção; 3) Acelerar a integração de projetos como o LST-100 e plataformas de mobilidade litoral para aumentar resiliência logística; 4) Fortalecer a base industrial naval e cadeias de suprimento críticas, com programas de incentivos e parcerias com estaleiros aliados; 5) Desenvolver conceitos operacionais que combinem presença distribuída, interoperabilidade com aliados regionais e defesa contra ameaças A2/AD.
Sem uma resposta orquestrada que una investimentos, inovação conceitual e parceria interinstitucional, o déficit anfíbio continuará a ser um limitador estratégico para a capacidade dos EUA de projetar força, sustentar operações expedicionárias e manter a estabilidade em regiões-chave do mundo.